Há quase dez anos atrás, escrevi sobre o primeiro amor. Disse que não passava disso. Do primeiro. Que depois viriam outros. Disse, também, que o primeiro amor é como uma escola, que fica para trás, apesar de nunca esquecermos a carteira onde nos sentavamos, os jogos do recreio e o encanto das coisas que as meninas escondiam. Aquilo que escrevi há dez anos atrás, poderia escrever hoje. Com uma diferença. A pessoa que estaria a escrever esse texto é hoje uma pessoa algo diferente dessa que, em 2001, escreveu essas linhas ainda num contexto de mágoa, procurando redescobrir o amor depois das trevas. Com tantos séculos e tanta gente, não é episódio inédito, mas cada amor despedaçado que se vive é o maior do mundo, porque é nosso.

Tanto quanto as carteiras da escola, onde os meninos e as meninas se sentavam, no primeiro amor há um vestido verde com bolas pretas, há um beijo longo ao pé do campo de jogos, há descoberta, pijamas de flanela e desencontros. Muitos. Creio que há, até, das minhas primeiras memórias com meias pretas opacas, essa coisa que tanto me agrada nas pernas das mulheres. Há memórias de menino e memórias de adolescente. Há um passado que me fez, que me criou e sustenta no que hoje sou. Há um passado partilhado, a espaços, que faz também de ti aquilo que hoje és, e aquilo que consegues dar aos outros. Hoje escrevo para ti, dez anos depois de nos separarmos, depois de deixarmos de ser um projecto comum. Como bem sabemos, não estamos casados. Não fazemos compras lá para casa. Tudo isso ficou onde tinha de ficar. Mas há muitos anos atrás era isso o que eu esperava. O plano era esse. E parecia bom, mas a ilusão disfarçava uma inevitabilidade: a de virmos a perceber que não estavamos na mesma sintonia, que a amizade e cumplicidade de tantos anos – porventura mais teimosia minha que tua – nos fazia crer num destino comum que afinal não existia. Hoje, todo este tempo depois, sei que nunca seriamos felizes juntos. Poderiamos ser bons amigos – naquele contexto de outrora, até mesmo daqueles que se dizem coloridos -, mas péssimo casal. Tê-lo-iamos descoberto mais tarde, demasiado longe na asneira, se não tivessemos sido arrancados um do outro por esse episódio que nos fez sofrer.

Há dez anos atrás perdoei-te. Se te lembras, disse-to. Penso, até, que to disse de muitas maneiras, talvez até de forma mais expressiva sem palavras. Mas se esse perdão era verdadeiro, era também incompleto. Não te guardava rancôr, não me alimentava de maus desejos a teu respeito, mas falhava em compreender o que tinha acontecido. Mas hoje não. Hoje esse perdão só não é completo porque o perdão total implica esquecer. Não consigo esquecer, porque o passado não se esquece, e talvez apenas Deus tenha o poder de perdoar completamente. Mas consigo entender o que aconteceu. Todo o tempo que passou criou em mim a distância necessária. E fico satisfeito. A nossa felicidade, a minha e a tua, começou quando nos separámos. Iamos ser infelizes, sabes? Mas assim não. Seguimos caminhos diferentes que nos levaram a sítios e a pessoas diferentes. Descobrimos outro mundo para lá do mundo. E aquilo que então tanto magoou, hoje consigo recordar sem dôr. Ganhei perspectiva.

És um lugar por onde passei. Fui um porto onde te abrigaste. Conheci-te menina, de mochila às costas e meias às riscas. Crescemos enrolados em sorrisos e algumas lágrimas. Em festas de garagem, de coração palpitante num slow talvez desajeitado, na promessa de lábios como cerejas. Amei-te muito. Mas depois passou. Passou para mim, passou para ti. E hoje, se me lembrar de ti, já não é a memória amarga que flutua. É a memória doce do teu salame de chocolate ou de quando sorrias bem disposta. O resto é apenas o que fica de lado, arrumado nas gavetas das coisas que se compreendem e já não beliscam. E tudo isto porquanto hoje tive uma epifania. A de que dez anos volvidos, nada acabou naquele ano. Apenas começou. Uma vida nova e diferente para ambos. Quero-te bem. Confio que sejas uma mulher feliz e realizada. Mas se, por infortúnio, isso ainda não tiver acontecido, sei que tens a determinação para chegar lá. Obrigado pelo passado que me deste. Não há bom nem mau passado. Há apenas passado, e, sobretudo, ainda há muito futuro, para edificar sobre a base daquilo que somos e em que nos tornámos. Melhores pessoas.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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