O luar com os pés na relva

Estou sentado a meio do quarto, na beira da cama. Quatro são as portas à minha frente. Duas com estores descidos, duas com estores a meio. São grandes. São de correr. Servem também de janelas. Do outro lado, do lado de fora, está um passadiço que divide a casa do extenso jardim. Está um calor que não se pode. Escorrem-me, pela mão, gotas de um copo gelado que entretanto aqueceu. Pousara-o ao meu lado quando os torniquetes começaram a funcionar. Lua alta, alta e cheia. Levanto-me, corro uma das portas e sento-me cá fora, com os pés na relva, sem luz exterior, apenas a projecção da ténue luz que vem de dentro, que pouco vence o luar intenso. Deixo-me salpicar pela água que rega o jardim. Vens do interior da casa, por outra porta, diferente daquela por onde passei. Sei, porque te ouço, e porque há uma ligeira perturbação nas sombras. És denunciada pela luz mais do que pelo barulho. Uma saia leve mas comprida, que ondula, e uma blusa de alças finas que deixam ver os teus belos ombros e esse pescoço. Esse pescoço. Beijo. Por enquanto apenas para mim. Beijo. Por enquanto apenas na minha imaginação, no meu desejo.

Enquanto caminhas, descalça como eu, pela relva junto ao passadiço onde me encontro, seguras a saia com as mãos, levantando-a, e o luar recorta o contorno dos teus tornozelos. Sentas-te ao meu lado e derrubas o copo que não tinhas visto, que eu tinha transportado comigo e depositado ao meu alcance, para entreter os lábios. Molhas a saia, que despes, marota, deixando-a cair a teus pés, e discretamente atirando para mais longe. Pouco, mas mais longe. E assim te deitas com a cabeça nas minhas pernas, e as tuas ao relento, rolando vagarosas de um lado a outro, como quem se enrrosca. E os torniquetes vão atirando água pelo ar, salpicando-nos. Está um calor que não se pode, e as gotas que aterram nas tuas coxas brilham primeiro e evaporam-se depois. O luar acentua as tuas linhas. Detenho-me nesses detalhes sem emoção aparente. Estou sério, olhando para o lado, observando-te. Enquanto me perco nos pensamentos que me parecem durar minutos, passam para ti apenas alguns segundos, durante os quais tudo vi, tudo registei, tudo memorizei. Afago-te o cabelo molhado. Sigo a linha das tuas orelhas. O contorno do pescoço. Ficamos molhados ao luar por muito tempo, naquela chuva improvisada.

Finalmente sorrio para ti, e ao mesmo tempo que me dobro um pouco, tomas tu outra posição, para nos encontrarmos a meio caminho num beijo. Primeiro rápido, depois um outro, mais longo. Mas eu não beijo bem. Não me valho disso. Endireito-me de novo, e fixo-me no horizonte, primeiro, e na lua, depois, enquanto tu retornas a tua cabeça às minhas pernas. E eu volto à tua silhueta, e às tuas coxas que brilham, à tua roupa interior que espreita e se faz exterior, às finas alças e aos ombros, ao contorno de mamilos que marcam presença, ao brilho dos olhos. Está tudo aqui, e há tanto mais que isto. Apoio-me na mão direita que lanço para trás, e varro a relva por baixo do meu pé esquerdo, em movimentos lentos, enquanto penso que está tudo ali. E digo, para mim, que sim. Que sim, que é difícil. É difícil abarcar tanta beleza em detalhes.

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3 thoughts on “O luar com os pés na relva

  1. Olá João,
    Gostei sobretudo do pé na relva. Pé quente, relva fresca. Do mesmo modo que o tal copo de água outrora gelada e que entretanto tombou para desvendar os detalhes que se seguiram. Está quase tudo ali. Quase porque dizes que fixaste o teu olhar no horizonte nocturno. Que horizonte é esse? Será que vemos todos o mesmo horizonte quando estamos sozinhos ou com alguém especial?
    Beijinho,
    Sofia

    1. Sofia, certamente não. Tens tantos horizontes quantos olhares, e é certo que para uma mesma paisagem, olhares diferentes são descrições diferentes.
      O meu horizonte nocturno tem de incluir montanha.

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