Tinha esta ideia a formar-se em mim, de conversas anteriores, mas subitamente algo me foi dito que, a meu ver, veio reforçar o que já vinha a pensar desde há alguns dias. “Em que andar moras?”, perguntou-me ela. Respondi que no segundo andar, e que era alto o suficiente para me magoar, se caisse. Recomendou-me que não tentasse voar, porque me podia estatelar. Senti, no momento, um misto de surpresa e admiração. Este brevíssimo diálogo, sobre asas e tentativas de vôo, seguira-se a um cumprimento, uma situação em que tinha elogiado uma mulher que conheço, dizendo-lhe que se apresentava muito bonita naquela manhã. E de volta veio aquilo. O andar em que moro, as minhas asas e a provável incapacidade de voar. E então voltei à minha ideia de dias anteriores: a falta de homens para escutar. Sobre como isto se relaciona tudo, lá chegaremos.

Esfíngico, não sei se por natureza ou gosto desenvolvido, tendo a criar nas pessoas uma primeira impressão que está longe de ser positiva. Consigo ser totalmente inexpressivo, e sei que as pessoas se incomodam com isso porque isso lhes cria dificuldades de leitura. Não conseguem perceber o que estou a pensar, não sabem se aprovo ou desaprovo aquilo que me estão a dizer, não conseguem ler absolutamente nada. Ou, quando tentam ler, fazem a leitura incorrecta. Há quem interprete a minha falta de expressão como uma manifestação de total desinteresse, e no entanto isso está muito longe de ser verdade. Quando estou desinteressado ou com pressa, mostro expressão. Movimento-me, inquieto-me. Mas chego a pensar que a maioria das pessoas acha que quem se mexe manifesta interesse. Eu não. Estando interessado, torno-me imóvel. Nesses momentos, todo eu existo para escutar. E a minha expressão, imperturbável, significa apenas que estou a escutar todas as palavras que me estão a dizer, e que estou a construir os meus raciocínios, e a formar uma opinião que vou poder dar se ma pedirem, normalmente sem fazer juízos de valor.

Isto acontece sobretudo com as mulheres. Com os homens os relacionamentos têm um rumo assaz diferente. Creio que eles não se importam tanto com a minha falta de expressão nos contactos iniciais. É tudo muito mais descontraído quando se trata de algo informal, e quando é um contexto profissional a esfinge em que me apresento é apenas uma forma de educação ou profissionalismo. Nada mais, nada menos. Mas com as mulheres não é assim. Olham-me com desconfiança, julgam-me arrogante, antipático, porventura má pessoa. Se o contacto for fugaz, nunca terão oportunidade para aprender algo diferente sobre mim. Ficarão, para sempre, a julgar-me como no início, agarradas a uma má impressão que lhes causei. Mas, e é isso que acaba por me dar prazer e enriquecer em muito o caminho, se o contacto se for repetindo, por força da profissão ou outras rotinas, eventualmente a esfinge amolece, e se gostar da pessoa começo a sorrir, começo a deixá-la entrar no meu espaço e passo a estar disponível para interagir e sobretudo para escutar.

Será muito fácil, para quem não me conheça, dizer que sou mulherengo. Não o sou. Mas sou próximo das mulheres e faço por ser. Apenas e só porque gosto muito de mulheres, e isso é razão bastante. Gosto de mulheres porque são fascinantes, são um desafio permanente. Os nossos processos não são iguais aos delas, o que desde logo me cria a curiosidade de perceber como elas funcionam. E mais ainda: quando, na minha vida, decidi aceitar pacificamente o facto de a mulher ser o sexo forte, a verdadeira dominadora do mundo – fazendo-o com habilidade tal que deixa o homem pensar que domina -, passei a ter vontade de conhecer melhor o mundo das mulheres. Um homem inteligente – afirmo-o eu, pleno de jactância, desculpai – é um homem que escuta as mulheres, que as quer conhecer, que não se limita a olhar para elas com olhos de fome, que não se limita a olhar para as mulheres como um esqueleto portador de mamas e vagina (e outros orifícios, conforme o gosto de cada um). Um homem inteligente bebe da mulher. Aprende com ela, surpreende-se com a diversidade, torna-se o melhor amigo delas. Os homens conseguem ser os melhores amigos das mulheres. Uma das minhas melhores amigas diz que todos os homens conseguem ser os melhores amigos das mulheres depois de ultrapassarem a fase do desejo sexual. Eu não sou tão radical, e creio que conseguimos ser os seus melhores amigos independentemente da presença de desejo sexual. Não o vejo como etapas em série, antes paralelas.

Sendo um típico português, o que significa que sou de média estatura, tendencialmente calvo – é um trabalho em curso – e temporariamente arredondado na cintura – mas com perspectiva de melhorar -, sempre me surpreendeu o relativo sucesso que tenho junto das mulheres. Este sucesso não é sexual. Lá está, sinto-me forçado a fazer esta ressalva, porque o sucesso junto das mulheres é quase sempre entendido como sexual. As mulheres não andam agarradas às minhas pernas para me levar para as suas camas – ou para o chão ou para cima da mesa mais próxima -, não se despem à minha frente em descontrolada volúpia. As mulheres, o que fazem comigo, é conversar. Ao ponto de, inclusivamente, conversarem comigo coisas que são da sua intimidade. Fazem-no quando percebem que não as quero levar para a cama. Note-se, eu até posso ter pensado nisso, até posso achá-las atraentes e capazes de me proporcionar bons momentos de prazer carnal, mas condicionantes várias impedem-me de o concretizar, e o facto de se pensar algo não equivale necessariamente a fazê-lo. Fazem-no, sobretudo, quando percebem que estou disponível para escutar. É apenas isso que faço: escuto. E é então que me apercebo que temos falta de homens que escutem. As nossas mulheres não são escutadas.

É aqui que as coisas se relacionam. Quando faço um elogio a uma mulher – e só o faço se for verdadeiro, não invento elogios, não digo que o feio é bonito -, faço-o porque o penso, e se o penso, penso que não há porque não dizê-lo e transmitir a essa mulher algo de positivo que a poderá deixar feliz. Não o faço porque quero ganhar asas para me atirar do meu segundo andar. Não o faço para ser engraçado, mulherengo, macho latino. Faço-o porque as pessoas precisam, entre tantas coisas aborrecidas que têm sem ter pedido, de coisas positivas. Porque sabe bem alguém dizer algo bom sobre nós. Porque é um doce que nos ajuda a passar as contrariedades. Porque gosto de ser próximo das mulheres. Porque o faço sem a malícia a que estão habituadas na generalidade dos homens. O que eu penso delas quanto ao erotismo e ao sexo, é comigo e só comigo. Poderei elogiar mulheres que me agradariam, tanto quanto elogiarei aquelas que jamais quereria ter comigo na cama. São domínios distintos, que não se cruzam. Obrigatoriamente. E uma grande vantagem que nunca deve ignorar-se é que quanto mais conhecemos as mulheres, quanto mais as escutamos, melhor preparados estamos para aquela mulher com quem efectivamente vivemos.

E assim, a mulher que me avisou quanto à capacidade de vôo, fê-lo com muita graça, e colocou-me no meu lugar. Fê-lo sem necessidade, porque eu não queria sair do meu lugar, mas fê-lo. Surpreendeu-me. E cativou-me no processo. Se já a achava uma pessoa interessante de escutar, agora ainda acho mais. Especialmente quando ela já sabe que eu não vôo. Ou que vôo baixinho. Não tenho asas para mais, não procuro asas para mais.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

6 Comments

      1. Não me admira que as mulheres gostem de falar contigo. Sabes escutar mas não só: também transmites muito bem em palavras o que pensas. Poucos conseguem. Se isso não é uma forma de voar…

  1. Olá João!
    Os voos pelas relações humanas, com escala no olhar de cada um e com abastecimento obrigatório em diálogos.
    Apesar de viveres num segundo andar, os voos (experimentais ou não) serão, no teu caso, meras ilusões de óptica pois o essencial está ao alcance da tua pessoa.
    Beijo,
    Sofia

  2. Poucos homens terão a mesma forma de pensar que tu, na maioria se uma mulher lhes interessa, fingir interesse nas confidências é um ponto de partida para algo mais físico.
    Sempre acho que os homens têem um pénis na cabeça, no entanto reconheço que ter um homem como verdadeiro amigo, é uma benção.
    Sabem escutar, aconselhar, estão lá quando precisamos deles.
    Mas continuo na minha, são raras excepções.
    A sociedade exige que um homem seja um verdadeiro macho latino, e o facto é que são as próprias mulheres que o exigem.
    Normalmente a designação de mulherengo é sempre aplicada no sentido pejorativo, nunca o vemos da mesma forma como fazes o teu relato.
    Se assim for, podemos dizer que as tuas amigas estam muito contentes de te ter por perto.

    Manuela

    1. Manuela, os homens têm de facto um pénis na cabeça. É a partir dela que o pénis funciona. Os pénis é que podem ser bastante diferentes de homem para homem.

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