O fornecedor de orgasmos

Apresentou-se pelo nome, e com uma figura discreta vagamente desportiva, quase como se fosse um personal trainer. Tinha um pequeno saco consigo. E, sobretudo, tinha bons modos. Ela abriu-lhe a porta e encaminhou-o para o quarto à direita onde havia luz directa do sol. Ambiente quente. Tanto na côr que invadia o espaço como na temperatura, ligeiramente acima para o normal daquele mês. Mas muito útil, como se veria.

O que o levara ali estava muito bem definido. Não foram precisas muitas palavras além das de cortesia. Ela despiu-se rapidamente e ele sentou-se à beira da cama, abrindo o seu pequeno saco. Retirou alguns óleos de massagem e aplicou-os nas suas mãos, esfregando-as para obter uma temperatura agradável. Quando se virou para ela, já ela repousava despida sobre a cama. Massajou-a longamente, em silêncios ocasionalmente cortados por sons que penetravam o pouco da janela aberta, ou por suspiros de alívio que ela emitia quando eram pressionados alguns músculos mais tensos.

No final da massagem ele voltou ao seu pequeno saco, para limpar as mãos com um toalhete. Ela virou-se na cama, de costas para baixo, entreabrindo timidamente as pernas. Ele retirou do saco um par de luvas cirúrgicas que calçou com a destreza de quem o faz há muitos anos. Ajeitou-lhe um pouco mais as pernas, para um melhor ângulo, e massajou-lhe o interior das coxas, as virilhas, o clitóris e o interior da vagina. Sempre naquele silêncio com sons ocasionais, e com o sol a entrar directo e a conferir tons laranja a todas as superfícies. Quando ela finalmente atingiu o orgasmo, retirou as luvas. Colocou-as, do avesso, dentro de um saco de plástico preto. Enquanto corria o fecho do saco, com aquele ruído muito característico, ela disse-lhe “Para a próxima… estava a pensar, se para a próxima pode ser sem as luvas?”. Parou de correr o fecho a meio, e respondeu-lhe, resoluto, “Minha senhora, eu faço massagens e forneço orgasmos. Não me envolvo mais do que qualquer outro prestador de serviços”.

Deixou-a deitada, levantou-se, e caminhou em direcção à porta e em direcção ao próximo agendamento. Que seria, obviamente, com luvas.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

7 Comments

  1. Quando escreveu este texto sabia que na Suiça foi lançado recentemente um tipo de serviço a domicílio deste tipo para pessoas deficientes sofrendo de carência sexual (a nível tanto físico como afectivo)?!

    1. Laura, não fazia ideia. Mas parece-me boa ideia embora tema algum efeito perverso que daí possa surgir, como eventuais dependências afectivas que se possam criar e que não venham a ter correspondência, a não ser que o terapeuta (penso que será correcto chamar-lhe terapeuta) vá mudando com regularidade.

      1. Antes de mais queria reforçar o que disse reafirmando a sua seriedade! É que conheçendo-me da FundaSão (que aliás ADORO) poderá pensar que se trata de um dos meus devaneios! E não é de todo o caso!
        Quanto à questão que levantou ela parece-me pertinente! E para falar verdade quando li a notícia no jornal pensei isso mesmo e ainda fiquei mais surpresa por perceber que já há algumas “terapeutas” a trabalhar no tema e todas senhoras com famílias que estão elas tb ao corrente do caminho profissional escolhido! Confesso que de certa forma me chocou… é que apesar de me achar uma mulher de espírito bem aberto acho que quer a minha educação quer o meu percurso não me preparam para tanto! Embora acredite que seja sobretudo uma questão de educação e louve este povo pela forma despreconcentuosa com que aborda os problemas e encara as possíveis (mesmo que incríveis aos olhos de alguns de nós) soluções! Não são nada hipócritas e isso é uma constatação que sempre me dá prazer… e que por isso mesmo quis partilhar! E quando publicarem análises ao trabalho entretanto realizado (que certamente vão fazer) tê-lo-ei ao corrente! Tenha um Bom Dia e saiba que foi tb um prazer “falar” consigo!

  2. Este texto é bastante interessante, e de repente fez-me lembrar um conjunto de perguntas e respostas que há tempos li num forum de mulheres, e que dizia respeito a uma massagem muito em voga no momento a massagem yoni.
    Realmente havia opiniões para todos os gostos, e profissionais também.
    Sim porque é considerada uma terapia, com efeitos benéficos para as mulheres.
    Enfim eu acho que cada um é livre de fazer o que bem entender, mas será que as pessoas estão confundindo terapia com carência, seja ela sexual, afectiva, ou o que seja.
    Acho uma situação complicada, mas não me surpreende que os suiços utilizem essa técnica, uma vez que aqui no noso país também é utilizada, só quem em pessoas completamente saudáveis, a única diferença é que nós temos preconceitos em tudo.

    Manuela

  3. Eu sempre acho que não me choco com mais nada nesta vida, mas realmente ao ver o artigo, fiquei um pouco surpresa.
    Não sei se estes “tratamentos” são pagos, penso que sim, e aí direi que é um trabalho árduo, difícil, mas não para mim não passa de uma forma de ganhar a vida.
    A carência afectiva, sexual, a própria incapacidade física com que estas pessoas têem na sua vida, leva a que recorram realmente a este tipo de serviços.
    Não passa de prostituição, senão vejamos o que pode levar estas pessoas a praticar estes serviços, certamente não é por vontade de ajudar o próximo, nem pena, nem carinho, nem desejo.
    Também não lhe chamemos penitência,ou remissão, o facto é que o dinheiro conta.
    Mas digamos que é um trabalho bem duro.

    Manuela

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