A roda do tempo trouxe-nos de novo aqui. Ao momento em que o tecido avança imparável sobre os corpos, em que conduzindo devagar divido o meu olhar entre o evitar tocar no carro da frente, e observar com minúcia a jovem que caminha, vinda do meu lado direito, em direcção à estrada, já com leggings e uma camisola comprida, atiçando interrogações que o Verão, por muito que dele se goste, não estimula, porque tudo – ou quase tudo, e cada vez mais – está à vista.

A roda do tempo assusta. Um pouco. E que efeitos terá ela sobre aqueles que avançam sem travões, tendo dobrado o tempo da vida, tendo entrado em idades que terminam em enta, quando eu ainda habito o decénio dos intas? Se hoje me encolho num pensamento mudo, que fazem os outros, para quem o mar de oportunidades já é hoje um horizonte pequeno?

Os meus ciclos terminam e começam aqui. Não olho muito ao ano civil. É uma coisa artificial. Olho às coisas da paisagem que muda. Aos astros que mudam de lugar e nos dão os dias mais longos, ou mais curtos. A vida, para mim, acaba e começa no Outono, e se me encolho em pensamentos mudos é porque os dias, esses dias do Sol longo, já estão muito tímidos e eu não os vivi. E sinto, tenho sentido, que a vida me anda a escapar. Que falta qualquer coisa. Qualquer coisa que não volta mais, perdida numa determinação de aproveitar mais e melhor que depois nunca se concretiza. E, sobretudo, perdida em tempos que passaram e não foram agarrados.

A roda do tempo trouxe-nos até aqui. E enquanto me embalo, nesses decotes de Inverno, enquanto me delicio nas botas e meias opacas pretas que as mulheres usam, vou tentando mudar qualquer coisa. Esperando pelos novos dias do Sol longo, prometendo a mim mesmo fazer mais coisas que me dão prazer, para que um dia, já nos entas, não sinta ter desperdiçado os intas que ainda tenho.