Disse-lhes Pilatos: «Levai-o vós e crucificai-o. Eu não descubro nele nenhum crime.» Os judeus replicaram-lhe: «Nós temos uma Lei e, segundo essa Lei, deve morrer, porque disse ser Filho de Deus.»

Quando Pilatos ouviu estas palavras, mais assustado ficou. Voltou a entrar no edifício da sede e perguntou a Jesus: «Donde és Tu?» Mas Jesus não lhe deu resposta. Pilatos disse-lhe, então: «Não me dizes nada? Não sabes que tenho o poder de te libertar e o poder de te crucificar?» Respondeu-lhe Jesus: «Não terias nenhum poder sobre mim, se não te fosse dado do Alto. Por isso, quem me entregou a ti tem maior pecado.»

A partir daí, Pilatos procurava libertá-lo, mas os judeus clamavam: «Se libertas este homem, não és amigo de César! Todo aquele que se faz rei declara-se contra César.»

do Evangelho segundo São João, 18,1-40; 19,1-42

Somos colocados todos os dias perante situações em que alguém, ou algo, exerce poder. Sobre as coisas, ou sobre as pessoas. Encontramos exemplos disso em casa, quando alguém se sobrepõe a outro, em coisas administrativas, como quando um funcionário qualquer exerce poder sobre um peticionário a quem sempre falta um papel qualquer, ou num emprego, quando um superior hierárquico (superior, por vezes, discutível) faz sobressair a sua putativa superioridade por medo e não por liderança. Muitos, senão todos, procuram os seus pequenos poderes, e agarram-se a eles. Como alguém cuja única função é controlar um relógio de ponto, e persegue os atrasados, exercendo o seu pequeno poder. Como alguém que faz felatios ao chefe casado e agora tem-no agarrado pelos ditos e serve-se disso para dificultar a vida a quem está às ordens desse chefe.

O poder é muitas vezes exercido pelo medo, poucas pelo respeito ou pela genuína capacidade de liderança, seduzindo seguidores pelas suas qualidades. O que os pobres de espírito, que exercem poderes por motivações mesquinhas, se esquecem, é que nenhum poder têm se não lhes for dado. E, no caso, ao contrário de Pilatos cujo poder lhe havia sido dado pelo Alto, nos casos terrenos que nos rodeiam, o poder que as pessoas têm é dado por outras pessoas. É uma espécie de epifania, que talvez só não mereça esse título por ser algo demasiado evidente, ainda que nos esqueçamos. Ninguém tem, verdadeiramente, poder, senão aquele que o outro lhe dá. O poder que eu possa ter é-me facultado por aqueles sobre quem o exerço. Se eles não mo derem, eu não o tenho.

Tomemos por exemplo o chefe déspota. Aquele que atemoriza, que produz gaguez nos seus subordinados. Terá ele poder? Tem. Mas é uma ilusão. Só tem poder até ao dia em que apanhe às suas ordens alguém que não tenha medo. Que não precise dele. Que não trema. Nesse momento, o seu poder desaparece, e o chefe déspota será obrigado a ser correcto para o seu subordinado, caso valorize o seu trabalho, ou então terá de correr com ele para poder continuar a reinar pelo medo. Quando o poder não nos é entregue por respeito, quando não cativamos aqueles que nos permitem ter poder, apenas o exercemos pelo medo. E é frágil esse poder. O verdadeiro respeito perdura. Já o medo, pode enfrentar-se.

Olhemos ao poder nas relações. Só funciona quando é desigual o estatuto das duas pessoas. Quando uma se sujeita à outra. Mas se o amor próprio gritar mais alto, o poder desaparece. Se deixar de se preocupar, o poder desaparece. Se deixar de ter medo de partir, o poder desaparece. Temos medo dos malucos – e julgo ser cruel referir-me a alguém deste modo – porque são imprevisíveis. Porque temos medo de pessoas cujo comportamento dificilmente, se de todo, conseguimos prever. Quem exerce o poder tem medo de quem não tem medo, porque quem não tem medo é imprevisível. Dos atemorizados conhece-se o comportamento. Vergam, vergam, vão vergando até esmagar, porque têm medo do que lhes possa fazer aquele que tem poder sobre eles. E ao fazê-lo, alimentam esse poder. Aquele que os verga, verga porque eles lho permitem. Mas aquele que não tem medo não verga, não se atemoriza, retira com isso argumentos ao poderoso, deixa o poderoso sem saber o que fazer para obter o cumprimento das suas ordens ou caprichos. E então o poderoso é-o cada vez menos. Esvazia. E se com isso se atemorizar, invertem-se os papeis. Entrega o poder ao outro.

Todo o poder é transitório e uma ilusão. E é muito pouco sensato que quem o exerça se esqueça disso.