Estamos de novo aqui. Neste espaço. A parede preta em frente à cama – e com esta luz duvido se é mesmo preta ou apenas antracite – que contrasta com a parede onde a cabeceira da cama encosta, que é branca. O chão, de madeira escura, conduzindo a toda uma parede vidrada coberta por uma cortina translúcida castanha que me deixa ver as janelas dos prédios em frente, e que, suspeito, os deixará ver, tão bem quanto eu, aqui para dentro. Apenas o candeeiro, à esquina, permanece aceso, sobre a mesa de cortesia.

Sobre a cama jaz o teu corpo. É correcto dizer-se que jaz. O cansaço que te tomou torna-te imune ao barulho do meu teclar, e estendes-te sobre a cama como se estivesses morta. Apenas uma ou outra inspiração mais profunda contraria essa imagem, quando o teu peito se movimenta com maior exuberância. A tua silhueta é bonita. Paro, por algum tempo, apenas para te observar.

Quando se abriram as portas do elevador e viemos em direcção aos quartos, trocámos alguns comentários de circunstância. Despedi-me de ti dizendo um até amanhã. Que descansasses bem. A verdade é que os nossos olhos nem sequer se cruzaram bem, não houve sinais nem avisos de qualquer espécie. Tu entraste ligeira para o teu quarto e eu ainda estava a tentar inserir o raio do cartão da porta na ranhura que acende as luzes quando a tua porta fez um muito audível e definitivo clic, que te recolheria num reduto de privacidade durante algumas horas. Não foi, por isso, de estranhar que tivesse ficado totalmente pasmo quando alguém – tu – me bateu à porta. Abri, e ao ver quem era ia dizer qualquer coisa banal. Se estavas bem, se precisavas de algo, se te podia ajudar. Não me perguntes porque não disse. Não sei. Seria o espanto, seria o inverosímil. Parei, portanto, com a porta aberta e segura na mão, a olhar-te, provavelmente num misto de curiosidade e incredulidade. E tu, no corredor, a olhar para mim. Com os teus olhos escuros e longos cabelos ondulantes.

Sem palavras. Foi sem palavras que quebraste esses dois ou três segundos que eu juraria terem sido mais para, colocando a tua mão esquerda no meu ombro, criares espaço para passar, como que me tirando da frente com delicadeza. Fechei então a porta e vi-te avançar pelo quarto dentro. Descalça, com um calções muito curtos, e uma tshirt branca larga. Sem me pedir nada, sem explicar nada, deitaste-te na minha cama. Onde permaneces ainda agora. Comigo a olhar-te. Sem falarmos, suponho apenas que não querias ficar sozinha. Ficarei por aqui, sentado. Nunca cumpri o que havia prometido. Nunca te devolvi o resto, fiquei apenas espectador. A devolução que ficara prometida nunca se realizara, e agora tudo isso estava a milhas e milhas de distância, e a mulher que me entrou pela porta, há instantes, não é já a mesma que outrora me deliciara com visões de algo profundamente proibido. E, de alguma maneira, tudo estava bem, tudo está bem. Não me preocupa, não tenho pena, não me desilude. Sabes apenas que hoje, nesta noite distante, não estás sozinha.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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