A cerimónia decorreria a muitos metros sob a montanha, num espaço azulado, arranjado, ao qual se chegava depois de mais de quilómetro e meio a descer. Ali fora ele tinha a tarefa de receber os convidados e verificar se estavam na lista. Vestido a rigor, um fato escuro de apenas duas peças – porque agora, ao que parecia, as três peças estavam fora de moda -, e um guarda-chuva branco, preto e vermelho. Grande. Ela também de escuro, com um casaco preto cintado que conseguia ser ligeiramente mais comprido do que a muito curta saia com que a tinham vestido. Tinha por tarefa correr entre a tenda de recepção e o portão, sempre que algum convidado surgisse sem agasalho. Porque chovia, chovia desde há horas naquele fim-de-mundo, e estava frio. Talvez demasiado frio e desagradável para as longas pernas em collants translúcidas e sapatos pouco preparados para Inverno.

Encontraram-se os dois num pequeno momento de pausa, cada um coberto pelo seu próprio guarda-chuva. Preto, branco e vermelho, como o cabelo dela, ruivo. Conversavam disparates, de circunstância, para esconder os sorrisos comprometidos, os olhares cativos a um desejo que partilhavam. Repentinamente todo o mundo desaparecera. Os convidados, importantes ou igualmente inchados como se verdadeiramente o fossem, a entrada para a grande caverna com os operários de macacão azul, a chuva que insistia em pingar das nuvens, e eles, como que isolados de tudo, à conversa, sob os seus chapéus.

E eu a olhar. Umas vezes para as outras meninas que estavam comigo naquela tenda, porque me deliciava olhá-las naquelas vestes tão sensuais. E nem sequer tinham um sotaque muito vincado quando abriam a boca, não obstante estarmos onde todos estavamos. Perguntava-me se seriam locais, onde teriam sido recrutadas para aquela tarefa de relações públicas, de venda de uma imagem de marca. E depois afastava o olhar para a rua lá fora onde estavam aqueles dois tão enamorados. Incapazes de o disfarçar. Cada gota da chuva acentuava como lente aquilo que os corpos diziam, naqueles movimentos que se julgam subtis, na linguagem que não mente. E depois descemos todos. E eles também. Fizemos o tal quilómetro e meio a descer, entrámos todos no interior da terra, com granitos imponentes trezentos e sessenta graus à nossa volta. E pensei para mim como seria estar nos sapatos do rapaz da recepção. Talvez me apanhasse junto a ela, à sombra de um estator e sem que os convidados me vissem, aproximando a boca do ouvido dela, lhe dissesse que mesmo ali, engolidos por terra a toda a volta, continuava a irradiar beleza. E desejo.