As regras são como os meridianos e os paralelos

Assume. Assume que tinhas medo. Que tens medo. Sentas-te a medo ao meu lado, parece mesmo que medes os milímetros que separam as tuas coxas das minhas, com o factor de correcção do efeito que tem sentá-las contra um banco duro. As palavras que emergem da tua boca e formatam os teus lábios são poucas. Lentas. Contadas. Sinto que tens medo. Quando ergues as mãos alguns, poucos, centímetros. Estavam pousadas sobre as tuas coxas. A direita desliza da coxa para o banco e dá-te equilíbrio. A mão esquerda paira no ar, ia a caminho de mim. Deteve-se. Volto a dizer-te, por medo, e tu não acreditas. E eu insisto, e tu negas, e negas sempre, e mais, e mais ainda. E desistes. Regressas com a mão à origem. E com a outra também. E voltamos a encarar o horizonte em frente. E então faço eu o jogo

–   lembras-te? Era tarde

Em alguns momentos tremia. Não era do frio. Era da sensação de abismo, enquanto deslizava em sensações demasiado fortes para conter, inerte. E a tua pele começava a mostrar, também, sinais de arrepio. A nudez era insuportável. Levantei-me e coloquei-me em frente a ti. Para te dizer que as regras são como os meridianos e os paralelos. Passei, enfim, a mão pelo teu cabelo. Tocaste-me. Sem uma palavra desapareci dentro de ti. E disse-te que somos iguais. E depois exclamei: que desperdício. E tudo tremeu, agitou-se, folhas de Outono foram sopradas pelo vento. Do lugar onde estavamos vi levantar-se do nada as linhas que se cruzavam. Erguiam-se altos e inflexíveis, os nossos meridianos e paralelos. Com trepidação imensa, com os animais que voaram dos seus galhos, assustados, connosco, arrancados um do outro, em lados diferentes de algo que não cedia, que corria o globo inteiro. Atirados ao chão.

Assume. Que tiveste medo. Eu tive. Sentados no chão, os dois, de rabos doridos, arremessados para longe, a olharmos um para o outro, com terra nos corpos, lama na cara, excitações desfeitas. E um choro pequenino, que rompia caminho pela lama. A minha, e a tua. Gritaste-me, do outro lado da linha: eu sabia que existiam regras!

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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