Aos homens sempre coube a capacidade de separar muito bem o amor e o sexo. Podem amar e viver o sexo nesse contexto, como podem, com igual habilidade, viver o sexo desprovido de amor ou qualquer outro sentimento de superior ligação emocional, praticando alegremente o coito e suas variantes pelo simples prazer do sexo. As mulheres, por outro lado, sempre associam o sexo a uma qualquer ligação afectiva, e é muito por isso que costumo dizer que enquanto um homem pode ter sexo fora de uma relação sem que a sua companheira esteja a escorregar para fora do seu plano afectivo, o mesmo não se poderia dizer de uma mulher, que quando joga fora de casa, já passou cartão vermelho ao seu parceiro e o colocou fora das quatro linhas, e até já se terá mesmo esquecido dele.

Mas não é sobre isso que pretendo escrever. Nestes comportamentos típicos, de homens mais libertinos na vivência do sexo do que as mulheres, criou-se uma tradição de alguma dificuldade na sedução de uma mulher. Acredito verdadeiramente que quando se consegue levar uma mulher ao coito, já ela sabe que o deseja há muito, apenas nos enganou, nos obrigou a um joguinho de sedução que visava, entre outras coisas, dar ao homem a sensação de que estava efectivamente a desbravar terreno, a conquistar.

O homem é, note-se, um caçador. Continua a ser. Não acredito que tenhamos evoluído muito desde as cavernas. As mulheres são o nosso troféu. Retiramos prazer do jogo de sedução porque isso nos remete ao domínio da luta contra os elementos e da conquista, da recompensa do esforço. Apenas, neste caso, não se trata de satisfazer a barriga, mas sim o cérebro, por intermédio do pénis. Em qualquer dos casos estamos a atender a necessidades básicas. Comer ou procriar (ainda que, neste aspecto, se mantenha o acto mecânico sem um propósito necessariamente procriativo).

As mulheres fáceis não são, por isso, algo que agrade muito aos homens. Assim como continuamos a ser caçadores, continuamos a ser muito conservadores. Se por um lado a facilidade de ter uma mulher na nossa cama ao fim de poucas horas, sem esforço, é desmotivadora, e é pouco provável que nos leve a procurá-la de novo, por outro, tememos que a facilidade com que se infiltrou nos nossos lençois seja aplicada na infiltração em lençois de terceiros.

Tenho observado, por conversas e leituras de escritos femininos, que é crescente o número de mulheres que também procura o sexo pelo sexo, sem ligações afectivas. É, para mim, uma realidade estranha, que contraria aquilo que a vida me mostrou. Diria que começam a entender «que o prazer não é um meio instrumental para conseguir nada, nem sequer um fim em si mesmo, mas a evaporação gozosa da distinção entre fins e meios, sem antes nem depois», na concepção de Savater. Esta ideia de Savater é, de resto, uma que pretendo explorar mais tarde. Existe sempre um antes e um depois. O antes e depois dos homens costuma ser razoavelmente inconsequente. Nas mulheres, o antes costuma ser uma afectividade crescente, o depois, uma vontade de manter laços, de justificar a entrega do seu corpo, de criar algo, construir uma relação.

Se isso se quebra, se o prazer começa, também para elas, a ser apenas uma evaporação gozosa da distinção entre fins e meios, uma coisa do imediato, para sentir e seguir sem mais, as bússolas apontam para outro lado qualquer, os astros deixam de estar nos seus lugares, a cola do mundo solta-se e tudo se parte, e os rios passam a correr do mar para as montanhas. A cola do mundo, o garante do equilíbrio, da Grande Ordem, é os homens serem perfeitos a isolar amor de sexo, e as mulheres não. Assim como o facto de os homens, ainda que saibam a verdade, continuarem a preferir achar que conquistam, que caçam. Fecho, por isso, com duas ideias: para as mulheres, digo que não é boa ideia serem fáceis. Se querem passar algum tempo com um macho, mesmo que não queiram viver um futuro com ele, é conveniente que não libertem as suas vaginas logo num primeiro momento, porque isso fará com que os machos não voltem, ou que fiquem desconfiados. A segunda ideia é a de que o mundo precisa de vós com sentimentos ligados ao sexo. É talvez isso que impede 50% do mundo de foder os outros 50%. Sexualmente, porque figurativamente, como sabeis, já isso acontece, sem respeito por hora, posição ou lubrificação.