Enquanto se reduzem rapidamente os dias que levarão uma muito boa amiga minha para o matrimónio, vejo-me rodeado de gente que se divorcia, casamentos ou uniões que vão tombando com maior ou menor ruído. Parece uma coisa contagiosa, que vai batendo às portas. Tal como no Antigo Testamento, dir-se-ia ser necessário pintar as portas com sangue do cordeiro para que a fúria divina não entrasse. No caso, as portas das casas onde as pessoas vivem estão demasiado abertas. E abertas a tudo. Das vezes em que dou por mim a pensar nisso, temo que as pessoas tenham desistido de investir. Temo que se desista cedo demais, que se tenha perdido a paciência para encontrar compromissos, para saltar muros.

Uma relação a dois é uma coisa que exige compromissos. Porque somos todos diferentes. Não devia ser uma surpresa, devia ser algo esperado, mas as pessoas surpreendem-se e cansam-se quando lhes surge uma dificuldade, quando discutem sobre hábitos diferentes de arrumar roupa nas gavetas, do local onde deixar os sapatos, dos tampos da sanita. E a oferta é tanta, os apelos tantos, a disponibilidade para perseguir moinhos sem censura social é já tanta que as pessoas desistem à primeira e seguem o caminho do maior prazer. E isso, eu acho, é um pouco triste. Porque nos afasta de um projecto de vida, porque nos pode conduzir a um espaço de grande solidão, porque as pernas com a idade perdem a genica e a capacidade de saltar de pedra em pedra sem nos molharmos é menor, e um dia damos por nós sozinhos e sem projecto, sem partilha.

Pode ser difícil, pode não apetecer, mas é importante redescobrir aquilo que nos levou, no princípio, a dar o passo do compromisso. A ideia de que a galinha do vizinho é sempre melhor que a nossa, e não nos oferece tantos obstáculos, é apenas isso, uma ideia. E também se aplica a galos. É preciso investir, é preciso construir, valorizar, apostar num projecto que fazemos a dois, por pessoas que confiam, porque tudo o mais é razoavelmente passageiro, e a quantidade de galinhas não é garantia de qualidade.