Os machos ortogonais

A maioria dos meus correlegionários fala das suas conquistas com muito orgulho. Mas o orgulho que têm a mais é o que lhes falta em classe. São vaginas que conquistaram. As gajas que comeram. E isso é uma contabilidade seca, de mulheres em posição de frango-assado ou em canzanas muito pornográficas. Não enjeito nenhum dos cenários, mas gosto de algo diferente.

Nos relatos dos machos que comigo partilham trincheiras também há mamas. As mamas que se agarram, que se lambem, e que servem para aninhar pénis erectos quando são generosas. Também não enjeito esses usos. Mas as conquistas que se somam e seguem, num exercício de alívio dos testículos, é uma abordagem demasiado superficial. Aos machos de sexualidade superficial eu chamo machos ortogonais. Porque são angulosos. Sexualmente abruptos. Eu prefiro curvas, arcos, ângulos variados que desafiem a ortogonalidade.

Os machos ortogonais preferem o Verão. Porque, noVerão, as mulheres despem-se, abanam-se nas ruas com alças muito finas, com as costas destapadas, com saias curtas e cinturas muito descaídas. E generosos decotes que salientam desfiladeiros onde gostamos de estar. No Verão, a área de pele descoberta multiplica-se por muito, e há quem considere que o calor fomenta a promiscuidade. E os bikinis reduzidos incitam e excitam. Também não enjeito isso, até porque o calor facilita a nudez. Sem tremer nem adoecer. Mas também cola e pinga. Eu também gosto do frio. Também gosto do Inverno. E está quase.

Só não gosto dos dias pequenos, mas isso nada tem a ver com os machos ortogonais nem com as mulheres. O que as mulheres ganham em pele visível no calor do Verão, perdem em fantasia e sedução. Eu gosto de mulheres em roupas felpudas e quentes, com as camisolas que seguem os contornos. Eu gosto das mulheres que calçam botas e usam meias pretas opacas (ou leggings, que produzem o mesmo efeito, se forem bem escolhidas) e vestidos ou saias curtas. Eu gosto das mulheres que no Inverno usam gabardinas. Gosto de mulheres que escondem coisas e me alimentam a imaginação. Ficam secretas, mais parecidas com um fruto proíbido e, por isso, muito mais apetitosas. Os machos ortogonais querem as mulheres nuas. Eu prefiro-as vestidas, ainda que as imagine a caminho da nudez e, secretamente (ou nem tanto) alimente o desejo de as ver despojadas desses textéis. Um macho ortogonal quer coisas simples. Eu prefiro-as desafiantes.

Não sou um macho ortogonal, porque gosto dos detalhes. Um macho ortogonal gosta de fodas ao estilo filme pornográfico nórdico. Eu gosto delas ao estilo Andrew Blake. Bebo dos movimentos lentos, da beleza, das unhas bem tratadas, do cabelo arranjado. Dos pêlos cuidados (o que não obriga à sua ausência), dos pés esticados como uma bailarina, para que não pareçam um frango no espeto. E, sobretudo, gosto de tudo o que anda à volta de uma foda, porque uma foda não é apenas o momento do coito. É o coito, parte do que se segue, mas sobretudo tudo o que fica para trás. Gosto de entrar no mundo das mulheres. Conhecer os seus problemas, as aflições, os detalhes íntimos. Gosto que elas conversem comigo sobre as coisas que provavelmente não conversariam com homens. E isso acontece. E creio que acontece porque não sou ortogonal. Porque gosto dos detalhes e tenho paciência para eles. Porque tenho paciência para ouvir. E porque as oiço procurando entender o que me dizem.

A sexualidade para mim é tão mais interessante quanto cinematográfica. Com bons detalhes de iluminação, com bons ângulos, com a dose certa de overcranking. Rejeito eu uma rapidinha sem esmero, uma foda bruta e primária (entendeis que, se é bruta e primária, é concerteza uma foda e não outro eufemismo qualquer) ou um apetite mais repentino? Não, decerto não. Mas tenho preferências. E as minhas preferências são mais requintadas, ainda que menos práticas, quem sabe até impraticáveis ou pouco realistas na maioria das ocasiões, tendo em consideração as vidas que levamos. O ortogonalidade dos machos aborrece-me. Consigo ser boçal, consigo ser macho nos seus piores atributos (e embora os tenha e valorize, apesar de tudo, não me vejo de pêlos no peito à mostra, e mindinho de generosa unhaca no ouvido), mas aborrece-me a monotonia de algumas abordagens masculinas a esse belíssimo bicho que é a mulher, e a forma como depois convivem com ela.

Um macho não precisa ser feio, porco e mau. Também não precisa ser metrossexual (estas designações e aquilo que elas traduzem fazem-me imensa impressão, confesso). Mas pode explorar a vasta gama de cinzentos que torna um macho uma coisa muito mais interessante aos olhos das fêmeas, sem os descaracterizar, que promove uma boa convivência e que desperta o gosto pelos detalhes que, no final, tornam tudo muito mais gratificante.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

1 Comments

  1. Apesar da autopropaganda tenho de concordar com o texto…Sexo também é delicadeza, sutileza…Falta o lúbrico nos ortogonais…E sobra em nós geógrafos das curvas.

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