Há algo de muito singular num homem velho, arqueado, que sobe a custo uma vertente pedregosa, colorida por mato rasteiro que se desenvolve por entre as pedras, alimenta as cabras, e ao velho, arqueado e de pouco fôlego, servem de obstáculo, picando as pernas secas, de músculo já cansado, coberto por velhas calças, amarelecidas, e meias de elástico frouxo, que já não deixam marca, a marca que levaria muito tempo a desaparecer daquela pele cuja elasticidade há já muito que partira.

Sobe a vertente por nada mais senão porque pode. É esse o seu desejo. Subir. Devagar, parando de poucos em poucos metros, escolhendo os penedos melhor configurados para assento. Para respirar, para descansar, e para ver. Olhar em redor, porque da vertente, à medida que sobe, vê muito mais do que via quando, lá em baixo no fundo do valeiro e mais novo, se entretia brincando no riacho com barcos feitos de papel, que a água ou levava, ou afundava em turbilhão, ou encharcava até perderem a forma e regressarem a simples folhas de jornal feitas em papa.

O olhar. O que mais me marca é o olhar do velho, porque quando chega, finalmente, lá acima, ao topo da vertente, quando já não lhe resta mais senão descer, para um ou outro lado, senta-se sem vontade de se erguer, e fixa um olhar inexpressivo num ponto qualquer, ao longe, que não identifico. Imagino que atrás daquele olhar está um mundo de coisas, talvez de memórias. As recentes e as antigas, as coisas que trouxe consigo na subida. Há algo de realmente singular num homem velho e arqueado que decide subir a custo e depois fica sentado, imóvel e mudo. Talvez triste, de feições caídas, sem comemorar ter lá chegado. Porventura com saudades do caminho. Incapaz de voltar ao riacho dos jornais feitos em papa. Com pena. Talvez mágoa. Dos muitos penedos onde não se sentou, dos arbustos em que não se picou, das vertentes que não subiu.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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