O mundo é o nosso Império

Há vários anos atrás, muitos mesmo, lembro-me de esperar cerca de três horas numa estação de comboios, por uma pessoa que nunca viria. Foi um pouco por teimosia minha, porque se tinha combinado ali estar, era ali que tinha de estar. E não seria por mim que esse encontro não se faria. Esperei, esperei, esperei, até que essas três horas depois desisti e fui-me embora. Mais tarde, e já pelo telefone fixo, resmunguei tudo quanto pude, mas ela foi velhaca (como conseguem ser quando querem) e ainda se fez de vítima. Que tinha tido um problema, que o pateta era eu por ter esperado por ela.

Isso foi há muitos, muitos anos atrás. E se pego nisso para começo de conversa nem sequer é porque seja esse o assunto que aqui me conduz. É apenas uma introdução que me faz pensar em como a vida era quando não existiam telefones móveis, nem mesmo ainda pagers, nem nada de nada a não ser o telefone fixo, que alguns tinham com botões e marcação por tons, e outros ainda com aquele anel perfurado que era preciso rodar para marcar números por impulsos eléctricos. As pessoas marcavam as coisas por telefone, e partiam rumo aos seus destinos um pouco à aventura. Qualquer imprevisto significava esperar em vão. Ou recorrer a uma cabina telefónica, de moedas ou cartão telefónico, para ver se do outro lado, em casa ou no escritório, atendiam.

Hoje tudo isso é diferente. Há muita mais impaciência. Quando chegamos aos locais, mesmo que cheguemos alguns minutos antes da hora marcada, já damos por nós a pegar no telefone e a mandar um SMS a dizer algo como “Já cá estou. Onde andas?”. Ficámos alérgicos à espera, com tanta facilidade em contactar as pessoas. Todos temos telefones móveis, muitos de nós até mais do que um, todos eles provavelmente já com câmara fotográfica e um bom número até com GPS incluído. Podemos mandar fotos dos locais onde estamos, podemos manter chamadas com vídeo, podemos saber onde estamos e seguir percursos. Temos a tecnologia para não precisar esperar três horas por alguém numa estação de comboios. Mas nem sequer 5 minutos aguentamos esperar, ficamos impacientes. Reféns. Mais reféns do tempo do que outrora.

O mesmo para as viagens e para o desconhecido dos destinos longínquos. Lembro-me de fazer algumas viagens de avião sem saber o que ia encontrar. Na minha bagagem tinha de levar roupa para o calor e para o frio, para o sol e para a chuva. Dependendo da época do ano, e da climatologia no destino, arriscavamos um pouco, mas a não ser que tivessemos a quem telefonar a perguntar, era muito fácil viajar às cegas. Mas agora não. Agora temos a net para ver a evolução do estado do tempo em todo o mundo. Mais: com a net, nenhum local é inteiramente uma surpresa. Amanhã cedo vôo para Genebra. Nunca lá estive. Vou num dia e regresso no dia seguinte, levo uma pequena mala de cabina onde não posso precaver-me para o sol, a chuva, o frio e o calor. Mas tenho a net para saber o que levar. E apesar de a cidade me ser inteiramente desconhecida, já sei mais ou menos o aspecto das ruas, já sei mais ou menos que direcções seguir para o Hotel, e como vou precisar almoçar à chegada até já andei à procura de restaurantes portugueses. Podia querer comer algo mais local, mas em Genebra, com tantos portugueses, e viajando eu desta vez sozinho, apetece-me sentir-me em casa, e por isso vou procurar um tasco qualquer onde falem a minha língua e vivam do mesmo coração luso que eu. Já me bastará o resto do dia e o dia seguinte a falar inglês com gente que não conheço, ainda que latina e, por isso, não muito diferente.

É assim que aquele episódio de há tantos, tantos anos, quando fiquei firme na plataforma a ver comboios chegar e partir sem que ela viesse lá dentro, me serve para pensar em como as coisas estão mudadas. Em como a tecnologia nos mudou quase tudo, e em quanto mais apoiados estamos, ao ponto de uma simples viagem para uma cidade estranha, sozinho, ser hoje uma coisa muito menos improvisada e potencialmente hostil do que seria há 10 ou 15 anos atrás. Até para os destinos mais exóticos há sempre qualquer coisa para ver antes de ir, porque as previsões meteorológicas arranjam-se para praticamente qualquer sítio (com maior ou menor acerto) e porque há sempre alguém que já lá esteve, nesse qualquer cú-de-judas. E provavelmente, esse alguém até era português. Porque estamos em todo o lado. Porque o mundo é o nosso Império.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

4 Comments

  1. Adorei este texto. Ainda me atrevo a dizer mais, nunca tivémos tantos meios de comunicação ao nosso alcance como agora e nunca vivemos tão sózinhos, encerrados em casa nos computadores, nos jogos, nos lcd…

  2. Realmente adoramos o progresso, o que esquecemos é que esse progresso nos torna frios, distantes, stressados, enfim muitas coisas que se foram perdendo ao longo dos tempos.
    A paixão até pode ser vivida pela internet, o sexo é cibernético, os sentimentos são vistos no visor de um telemóvel, enfim é o progresso.
    Como era bom quando passeavamos de mão dada, olhos nos olhos, em que a paixão estava presente.
    Como era bom quando abraçavamos os que nos são queridos, sem ter pelo meio uma diversidade de fios ecran e afins.
    Viva o progresso!
    Um beijinho

    Manuela

  3. O progresso trouxe novas formas de sentir. Mais imediatas e, por isso, impacientes. O lado negro do progresso, nesta matéria, é igual ou mesmo maior que o lado benéfico.

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