Alguém precisa ter juízo. Foi essa a frase que disseste, que alguém precisava ter juízo. Iniciaste essas palavras quando os nossos lábios estavam próximos. Estimo que apenas alguns milímetros os separavam, depois de, no início da noite, terem estado bem mais distantes. A minha fixação nos detalhes, como os milímetros que separavam as nossas bocas sedentas, era expressão da frustração, e do filme que na minha mente se desenrolava.

Ao dizer-me essas palavras, recuas um passo e colocas a tua mão direita no meu ombro. Baixas um pouco a cabeça e olhas o chão onde já estavam os teus sapatos, as meias e as cuecas. Com a outra mão endireitas a saia, que por aquela altura era já um cinto largo, amarrotado, com o fecho meio desapertado, um pouco rodada até e fora da sua posição natural. Ao compores a saia empurras o meu pulso, a minha mão abandona o teu sumo, sinto o frio do ar nos meus dedos melados. Baixo a mão, os meus dedos tocam de raspão a minha coxa, sinto a tua humidade. Dos escassos milímetros passamos a vários centímetros, e depois a mais de um metro. Sentas-te na beira da cama e olhas-me. Fixamente. Eu encosto-me à parede. Não articulo palavras. Devolvo-te o olhar.

E então repetes aquilo que parecia ser a máxima da noite, o resumo de uma introspecção profunda que culminava naquilo. Que era preciso ter juízo, que pessoas como nós não podiam estar perto uma da outra, porque iam rebentar muito depressa, iam consumir-se e depois cair. E cair era mau, porque ia fazer cacos, e os cacos quando se pisam resultam em sangue. E nós não queriamos sangue, porque havia muita coisa a preservar. E por isso, alguém precisava ter juízo. Eu sabia-o bem. Mas como criança crescida, tão entretido com o brinquedo novo, não queria aceitar a evidência. Tinha esperança que tu o aceitasses primeiro, que chegasses lá primeiro, que fosses tu a recuar. E, a cada dia que passava e não recuavas, eu sentia a adrenalina de mais um dia de prazer. Era lucro. Era um dia a mais, quando na verdade era apenas um dia a menos. Um dia a menos nos dedos melados, nos saltos altos que aterram no chão abandonados, da pele avermelhada pela roupa que se arranca do corpo à pressa.

Nós tinhamos arrancado roupa do corpo vezes demais, e estavamos já em evanescência. Algumas noites mais e seria o caos. Recuaste tu. E com isso também eu fui protegido do precipício. Entendendo isso, e enquanto estavas sentada na beira da cama, também eu aceitei a realidade, deixei entrar o juízo, e cobri-me com roupa. Depois, observei-te enquanto te vestias. Sabia que era a última vez que vislumbrava a tua nudez. Fiz várias fotografias mentais desse momento, e sei dizer-te quantos sinais tinhas, onde os tinhas, e que vincos, que rubores.

Lembrei-me de tudo isto porque ontem passei por ti na rua e fiz de conta que não te vi. Notei que ias atenta a outras coisas e refugiei-me na tua ignorância da minha presença. Porque sabia que se te dirigisse a palavra e ficassemos a conversar mais do que alguns segundos, se nos permitissemos dizer algo mais do que um circunstancial “olá”, ias voltar a ter sapatos e meias no chão, a saia desalinhada, e eu, os meus dedos melados. E afinal, como bem sabiamos, alguém tinha de ter juízo. Calhara-me tê-lo, desta vez.