A Maçã de Eva divaga hoje sobre uma das aplicações do Princípio de Pareto, e como A Maçã de Eva é um dos blogs que gosto de ler (e como já aqui disse, os blogs de mulheres são os que mais me agrada ler desde há algum tempo) e o assunto é assaz interessante, não resisto em deixar aqui, de um modo mais longo, alguns raciocínios sobre aquilo que a Maçã Envenenada escreveu no seu blog.

O Princípio de Pareto afirma que 80% das consequências têm origem em apenas 20% das causas; permite esse princípio, se tido como válido, afirmar a título de exemplo que 80% das mortes originadas por AVC têm origem em apenas 20% das causas possíveis para a ocorrência de um AVC, ou, outro exemplo como um dos que aparecem na Wikipedia, a resolução de 20% dos bugs do software da Microsoft permitiria acabar com 80% dos erros e crashes que os utilizadores observam. O Princípio de Pareto é, por isso, muitas vezes designado por regra 80/20 ou “80/20 rule”.  Essa regra, dos 80/20, serve para muita coisa. Até aqui n’A Geografia das Curvas cheguei a brincar com isso, quando escrevi sobre a existência de gente palerma, depois de ter encontrado num outro blog uma ilustração com a qual me identificava.

Posto isto, refere-se a Maçã Envenenada a algo que leu, segundo o que, quando aplicado a relacionamentos amorosos, o Princípio de Pareto diz que o homem obtém do casamento 80% daquilo que precisa, e que os outros 20% são encontrados fora do casamento. Esse facto parece chocá-la, e o resto do texto é pautado por algumas considerações acerca do que é a prudência e o amor incondicional, em que os 80% que o casamento oferece são sagrados e protegidos, a incúria e egoísmo daqueles que perseguem os tais 20% complementares sem olhar a nada, e a inexistência dessa mesma regra aplicada ao universo feminino.

A forma de estar na vida é efectivamente diferente entre homens e mulheres. Aquilo que cada um procura numa relação é diferente, e embora algumas tradições comecem a diluir-se bastante, numa redução ao mais básico de cada um de nós há muitas coisas que continuam a ser verdade hoje como eram há centenas de anos atrás, e talvez continuem a ser centenas de anos no futuro. A galinha do vizinho, costuma dizer-se, é sempre melhor que a nossa. Esse é um princípio que se aplica muito bem aos homens, e provavelmente melhor aos homens do que às mulheres. Estou convencido de que isso acontece, connosco, sobretudo por causa da imagem e por uma tradição de caçador, algo que ainda existe nos nossos genes que nos leva a querer expandir a espécie e cruzar os nossos cromossomas com os cromossomas de todas as mulheres. E como a imagem é, para nós, algo de verdadeiramente importante, as galinhas do vizinho, porque não têm a imagem gasta, são aparentemente melhores que as nossas. Parece ser profundamente cruel falar-se em imagem gasta. Não se trata de crueldade, mas de realismo. Mais sobre isto adiante.

A Maçã Envenenada é particularmente dura na apreciação que faz daqueles homens que decidem ir à procura dos 20% fora do casamento. Considera-os egoístas, despreocupados quanto ao poder de magoar alguém profundamente, gente que vive apenas para si. É compreensível que ela pense assim, e basta que qualquer um de nós vire a situação ao contrário para facilmente pensar desse modo. Sendo homem, se uma mulher minha me vier dizer que andou divertida a experimentar fora do casamento 20% das coisas é evidente que vou ficar aborrecido. Tenho, porém, duas maneiras de resolver esse profundo aborrecimento. A fácil e a difícil.

Independentemente do sexo de quem procura os tais 20% lá fora, a maneira mais fácil é acusar o outro de traidor e ponto final. Transferir-lhe o ónus da quebra de confiança, chamar-lhe todos os nomes, e no processo inocentarmo-nos. Essa atitude é provavelmente a mais frequente e também a mais fácil: não só nos escusamos a olhar para dentro, como transferindo para o outro toda a carga negativa desse acontecimento nos sentimos mais leves. Há um culpado! A culpa não morre solteira e, para nosso benefício, o culpado não somos nós. É o outro. Nós somos bons, os outros é que são maus.

Mas há outra maneira de lidar com isso, mais inteligente e também mais difícil, porém também com maiores compensações. Para lá da raiva (se existir) e mágoa, podemos arriscar perguntar-nos, e aos nossos botões, em que é que eu contribuí para isto? Podemos sempre pensar naquilo que fizemos ou deixámos de fazer para que o outro tenha sentido a necessidade de ir buscar alguma coisa (20%) fora de nós, fora do nosso espaço. Esse exercício é muito mais difícil. Significa partilhar responsabilidades. De repente, deixamos de poder dizer que o outro é um traidor. Que é leviano, egoísta, que não pensou em mais nada. Somos obrigados a olhar para dentro. E olhar para dentro é coisa que não acredito que se faça muitas vezes sem algum tipo de sofrimento.

Considero esta segunda abordagem muito mais inteligente porque trata as pessoas como gente que sente, e não como gente cruel (ainda que possa existir, e por certo exista, que somos muitos). E porque nos permite, se quisermos ser honestos no exercício de introspecção, a identificar coisas em que falhámos e que podemos melhorar. Ou para manter o actual relacionamento, ou para aplicar num novo. Idealmente, para recuperar, que eu acredito em coisas duradouras.

É relativamente fácil encontrar coisas que empurram as pessoas 20% para fora do barco, e se no caso dos homens são coisas sobretudo relacionadas com o prazer, com as mulheres estou certo serem coisas mais emocionais. Os homens deixam de participar nas tarefas domésticas e levam as mulheres a sentir-se meras empregadas. Ficam cansadas e por isso menos participativas nas aventuras sexuais. Deixam de dizer-lhes piropos, deixam de fazê-las sentir-se sexys, deixam de notar os penteados, os brincos novos, de fazer carinhos. De as fazer sentir-se protegidas (e eu acredito muito que as mulheres querem que os seus homens as protejam, mesmo que elas sejam mais fortes que eles). Estas coisas que os homens podem deixar de fazer, são um empurrão para os 20%. As mulheres precisam de protecção, carinho, partilha, e especiarias (as marotices que as transformam de mães de família em putas devassas! Os homens gostam de putas devassas).

E o outro lado? As mulheres deixam crescer pêlos nas pernas e nas virilhas. Deixam de chupar os pénis como se não houvesse amanhã, eventualmente com o tempo cuidam menos a roupa e a sua apresentação geral, cuidam menos o cabelo, as sobrancelhas, as mãos. (Des)Combinam cuecas brancas de elástico largo ou descosido com soutiens de outra marca, aspecto e côr. Largam umas bufas, deixam as casas-de-banho a tresandar a merda (sabiam que as mulheres também defecam?) de manhã, provavelmente arranjam-se mais para ir ao ginecologista do que para estar em casa com o marido. E para quem valoriza a imagem, como os homens, tudo isto gasta a imagem da mulher. De um lado ou do outro, e com os poucos exemplos que vos arranjei, estão criadas as condições para que muita gente se atire de cabeça para 20% da sua vida que existe algures para lá das sagradas fronteiras do matrimónio.

Faz isso com que essas pessoas sejam más? Provavelmente não. E se no caso das mulheres nada posso acrescentar, no caso dos homens posso teorizar que a fruição de 20% lá fora não faz menos dos 80% cá dentro, ou antes, que os 20% que lá foram se vivam, não significam que se ame menos ou se queira menos bem aos 80% cá dentro. E é isso bom? Não, efectivamente não é, porque idealmente nos entregamos a uma pessoa por completo, e queremos os dois que seja assim, e ninguém aceita muito bem que alguém possa criar vértices no círculo e dele fazer triângulo, ou quadrado. O que estou a querer transmitir, sem defender uma opção ou outra, é que as pessoas são feitas de paradoxos, e que nunca nada é linear. E que temos muito a aprender se quisermos entender o que motiva as pessoas antes de lhes atirar pedras. Eu, que já atirei pedras (sobre muitas coisas, não necessariamente ou em exclusivo no tocante a relacionamentos), reconheço que sempre saí disso mais pobre, porque perdi a hipótese de compreender as razões do apedrejado.

De tudo quanto a Maçã Envenenada escreve há uma coisa, porém, com a qual não poderia estar mais de acordo: «(…) mas posso afirmar, pelo que sei que sou, que se tiver vontade de olhar para os lados, é porque já não há amor (…)». Com tudo o que de polémico isto tenha, e objecto de crítica por parte das mulheres possa ser (e será que eu sei), é muito mais grave uma mulher olhar para o lado do que um homem. De facto, temo bem, quando uma mulher olha para o lado, o amor foi-se. É grave. Muito grave. Provavelmente não tem retorno, e o homem cuja mulher faça isso tem razão em perder o sono. Já com os homens as coisas não são bem assim. Olhamos para o lado porque sim, porque não, por desporto, por isto e por aquilo. Mas os 80% são sempre 80%, são o nosso porto-seguro. E quando olhamos para o lado, o nosso amor pela detentora dos 80% provavelmente nem sequer está beliscado. É menos grave, e tem retorno. As mulheres entendem ou valorizam isto? Não. Não creio. É uma das coisas em que somos diferentes.

Por outro lado, os 20%, quando existem, não são necessariamente espaços de transgressão física com alguém. Podem ser espaços de reserva de identidade e privacidade, cantos da imaginação onde nos recolhamos aqui e ali, para fantasiar na solidão, para pensar em tudo o que queiramos sem amarras e sobretudo sem consequências. Para continuarmos a ter a ilusão de sermos livres, quando na verdade nunca o somos verdadeiramente, sozinhos ou acompanhados. Podem ser espaços para viver coisas que não admitimos, por medo ou vergonha, podem ser espaços para revelar fraquezas que não queremos assumir junto de quem nos acha tão fortes e protectores, e podem efectivamente ser espaços para viver coisas que não estamos a ter em nenhum outro lado. Às vezes basta pedir. Mas pode haver quem não goste de o fazer, ou entenda não precisar fazê-lo, e prefira procurar longe. São opções com consequências. Há que sabê-lo.

Mas haja esperança! Não em relacionamentos perfeitos, porque todos implicam compromisso, e o compromisso é cedência de algo que tinhamos e que gostavamos, mas esperança na capacidade de comunicar, de manter tanto quanto possível os comportamentos de sedução que, no princípio, do zero fizeram oitenta, porventura até mais que oitenta. Haja honestidade, em reconhecer que a dois se faz o bem e o mal, acerta-se e erra-se em conjunto. Haja paz, que o medo e a desconfiança minam tudo em redor e explodem os 20 para 200.

Assim, e concluíndo, embora compreenda o que a Maçã Envenenada escreveu e o considere legítimo, a verdade é que as coisas são bem menos lineares do que queremos, e o Princípio de Pareto, aplicado às relações amorosas, é só mesmo isso, um “princípio”.