O teu ombro esquerdo encostava-se à lateral do elevador enquanto a porta se fechava. Eu estava alguns degraus abaixo, em sala contígua, olhando-as fechar, e no instante em que a porta cruzava a linha dos teus olhos, cruzaram-se os nossos olhares. Sorrias ligeiramente. Quanto a mim, suponho que tinha um semblante inexpressivo, mas desviei o olhar rapidamente. Não por desconforto. Antes por defesa.

Julguei, para mim, que subias sorrindo, num paralelipípedo içado em cabos de aço, pensando, talvez até com alguma ternura, no meu ridículo ou presunção. Havia horas que te havia encontrado na rua e dito que nessa noite estariamos juntos. Delicada, não me atacaste a virilidade, não atiraste ao tapete nenhuma piada de mil facas, apenas me disseste, muito segura de ti própria, que nessa noite nada existia de diferente face a todas as outras que estavam para trás, nem imaginavas que no futuro algo fosse diferente. E disseste tudo isso sorrindo apenas e dizendo “sabes bem que não vai acontecer”.

Julguei, para mim, tudo errado. Porque na verdade, enquanto os cabos de aço te içavam, mordias ligeiramente os lábios com uma excitação contida que ninguém via. Porque entrando no teu quarto te despiste com rapidez para que os minutos apagassem depressa os sulcos da roupa na tua pele, que querias que ficasse lisa para eu a tocar. Porque te deitaste exercitando a fantasia, correndo segundos que demoravam minutos a passar, esperando que se cumprisse o que te havia dito, que te batesse à porta. Querias ter saltado da cama em direcção à porta para, ainda assim, a abrir com um certo ar de desinteresse, fingir um certo espanto, testar a minha determinação. Dizer-me “podias vir, mas se não viesses, perdias tu”.

Adormeceste sozinha, embrulhada num roupão, e sem sulcos na pele, lisa. Adormeceste sozinha porque eu li mal o teu sorriso quando a porta do elevador se fechava, os olhares se cruzavam, eu afastava os meus olhos e me sentia pateta. Adormeceste sozinha e assim ficaste porque quando na rua te disse que esta noite ficavamos juntos, tremeste por dentro e deste-me todos os sinais contrários aos que querias dar.