Se te disser que embora o Sol brilhe eu estou negro por dentro, não te inquietes nem entristeças. Não se te exaspere o coração, nem se te apague o sorriso de sempre. É só porque estou mortificado pela saudade, pela falta tão grande que me fazes, quando ainda nem sequer partiste. Sofro para mim, calado, ambulante, daqui para ali. Sofro acordado, sofro dormindo, nos pesadelos tristes. Por antecipação de não te ter mais aqui. Mesmo sabendo que posso ir primeiro.

Queria que nunca acabassem as tuas palavras, queria poder contemplar-te em alegria todos os dias. Queria ter sempre os teus ensinamentos sábios. Escava-me por dentro e estampa-se por fora a dor de ser obrigado a aceitar que todos os minutos que passam são minutos a menos, é o tictac implacável que troça de mim. Perdoa-me das coisas em que te faltei. Perdoa-me de tudo. Ainda que imperfeito, à minha maneira, amo-te muito. Por tudo quanto me deste, e por nada, só porque sim. É quanto me basta.

No dia que eu não quero que chegue, espero que seja breve, que seja suave. Talvez seja melhor que chova, para me misturar com a chuva. Para me tornar cinzento sem ser notado. No dia que eu não quero que chegue, espero que não existam mágoas, que não sinta ter desperdiçado tempo, que não me tenha ficado nada por dizer. Nesse dia espero que o vazio que vai ser de mim não seja tal que me engula. Que a tristeza e a impotência não me derrubem, que a inevitabilidade não me esmague. Que sobreviva. Com a tua memória viva. Que seja capaz de levar adiante o que começaste, que tome boa conta das tuas lições.

No dia que eu não quero que chegue, não sei que será de mim, mas sei que não vou querer ser homem, porque vou querer chorar muito. Não. Eu vou ser homem sim. Homem como me ensinaste. Chorando, sentindo, sendo maior.