O chiar das borrachas começava a ouvir-se, apesar do barulho do velho motor a diesel, com todo o fumo que me devia afastar da janela. No cais, acenavas-me, e a água, agora revolta e salpicante, começava a separar-nos e a ser um imenso mar. O mar é sempre imenso. Mesmo aquele que corre dos teus olhos, ou dos meus, é sempre imenso. Como a dor de estar longe de ti. Há sempre dor na ausência. Eu sempre a tive. Por cinco minutos, por meses ou anos. Estava lá. Aquele chiar das borrachas foi o que me ficou desse momento de partida, que ainda agora me ecoava na memória enquanto te tocava de novo a pele. Dos teus ombros. Abraçavas-me no reencontro e de novo a água entre nós, só que agora sem revolta, ordeira. E sem salpicos, só pingos discretos. De um mar imenso de lágrimas de felicidade e redescoberta. De estar de novo aqui, e contigo.

O chiar das borrachas, desconfio, marcou-me por ser irritante. Tão irritante quanto estar longe. E escondi-me nesse barulho, tapei o desconserto de mim com uma sensação auditiva forte e desconfortável. Para me abstrair, para não juntar o meu mar ao mar do cais, para não saltares para a água atrás de mim, ou eu de ti. Para não ser o mar o salgado meu com o teu. Mas se agora recordo, de novo, esse barulho, é porque o quero desligar. Ouvir uma última vez e deixar partir, flutuar na corrente. Pois se agora estamos juntos, todo o peso é pouco, ficou caminho para aqui, e nada mais. Pedras sobre as quais saltámos, com muita pressa e pouco jeito, que o jeito era só empecilho, e eu só queria aqui voltar.