Do silêncio opaco, quando se falava sobre sexo

Havia um forte clima de galhofa em torno dos presentes quando se conversava sobre sexo, de uma maneira ligeira, muito despreocupada, atrevida até. Já muito longe de tabú, era um tema batido, encarado com naturalidade, que sempre nos divertia.

Quando, a meio de alguns considerandos soltei um suspiro e declarei que, por vezes, era mais interessante falar sobre sexo do que fazê-lo, instalou-se um silêncio opaco e fecharam-se os rostos daqueles com quem estava. Até que um disse que não concordava com isso, e outros se seguiram, e outras também. Houve até quem, assim entendi, me procurasse fazer entender, pela expressão facial, que eu não estava bom do juízo em dizer tal coisa.

Hoje, que retomo essa memória, parece-me que a incompreensão daquilo que eu disse resulta mais da incapacidade dos meus interlocutores do que de qualquer insanidade minha. E reforço, por isso, o que disse naquela tarde quente, algures no centro do país: por vezes é mais interessante falar sobre sexo do que fazê-lo. E quase sempre, dura mais tempo. Porque por mais herói ou inspirado que se esteja, o sexo dá para conversar muitas, muitas horas a fio. Quantos (e quantas) podem dizer o mesmo dos seus exercícios pélvicos?

Mas não é, obviamente, a duração que me motiva a dizer o que disse, e digo. Há conversas que são extremamente gratificantes. Em que se descobrem coisas, em que se aprendem coisas, em que podemos divagar livremente sobre coisas de que gostamos, sobre como achamos que podiam ou deviam ser, e sem prisão. Sem encargo. Sem consequência. E há cenários que traçamos nas conversas simples e despreocupadas que temos com amigos, que nos podem ser muito gratificantes.  Estas conversas de que falo não assumem necessariamente a forma de confidência ou cumplicidade a dois. Refiro-me de conversas em grupo, em que se mistura a galhofa pura com um toque de malícia que nos diverte e faz rir, em que colocamos nas nossas piadas um pouco daquilo com que sonhamos acordados. Consigo lembrar-me de quecas menos divertidas do que essas conversas.

É. Hoje, retomando essa memória, parece-me mesmo que a discordância face ao que disse naquela tarde foi apenas e só incapacidade de quem me ouviu. Ou então estavamos todos em canais diferentes, e o meu não fazia eco nenhum.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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