Dentro de um caixote, frios e às escuras

Não consegui deixar de notar a quantidade imensa de terra. Pá após pá, já com esgares de esforço, os coveiros faziam diminuir o monte de terra do passeio, e aumentar a que se acumulava sobre o caixão. Não sei dizer que significado teria aquilo para os familiares mais próximos. Para mim, mais distante – embora o falecido fosse amigo da família -, era motivo de interrogação e de meditação. Terei estado, talvez, mais de 10 minutos a ver a terra voar do chão ao caixão. Mais tempo para os enlutados sentirem aquele último momento de ligação ao pai, ao avô e ao amigo, mas ao mesmo tempo, quem sabe, demasiado tempo para viver aquilo, um prolongamento doloroso do “até já” que ali deixam. Fiquei a pensar nisso, e enquanto a terra se acumulava sobre o caixão pensava que todos os dias estou um dia mais perto de viver aquela experiência na primeira pessoa, se a vida correr o seu rumo natural. Sabe Deus o que sentirei nessa altura. Se terei lágrimas ou se estarei seco e em choque. É difícil. Não. É impossível saber.

Caminhamos todos para ali. Vou tentar lembrar-me disso da próxima vez que tiver de cruzar-me, ou conversar, com algum idiota ou bandido. Vou tentar lembrar-me disso quando me cruzar com algum incompetente. Vou tentar lembrar-me disso quando tiver de ouvir algum desaforo. Que acabamos todos dentro de um caixote, frios e às escuras. Não evitei pensar, ali, que estava a contemplar o meu próprio destino. Que um dia serei eu. Pensei tudo isto enquanto não conseguia deixar de notar a quantidade imensa de terra. Pá após pá, debaixo desta chuva miudinha.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

4 Comments

  1. “Que acabamos todos dentro de um caixote, frio e às escuras.”
    Por vezes dou por mim a pensar nisso! Não costumo ir a funerais, se alguma coisa de bem deveria ter feito, que tivesse sido em tempo útil! Depois da morte, para que serve a hipocrisia? Quem parte já dispensa cuidados! No entanto, já me aconteceu ter ido, por obrigação, estava no horário de trabalho, à casa mortuária, num dia em que esta estava concorrida, Deus me perdoe! Três mortos! Observei-os! Vi-lhes o nariz empinado, que se destaca fortemente dos rostos pardos de cadáveres e pensei: Que fizeste tu, nesta vida? Quantos atropelaste na necessidade de satisfação dos teus sentimentos de baixa índole? E sem ser! Valeu mesmo a pena? Tendo em conta que acabaste assim? Pode parecer cruel o que estou a dizer, mas a verdade é que o pensei! E não costumo ter vergonha dos meus pensamentos, eles reflectem, acima de tudo o que me tem sido dado observar! Quem se sentir mal com isto, que faça penitência! A mim, o mal que me têm feito já me chega!

  2. È certo que “acabamos todos dentro de um caixote, frio e às escuras.” Mas quero acreditar que há muito para lá desse desfecho. Quero acreditar que tudo não pode simplesmente acabar, como quem desliga um interruptor. Principalmente, porque já se desligou o interruptor da minha mãe, e ficou tanto por dizer e fazer. Ou porque, ainda hoje o meu telefone tocou para me dizerem que o cancro desligou esta noite o interruptor de alguém que tinha apenas a minha idade e tanto ainda para viver (não era, hoje em dia, uma grande amiga, mas os nossos tempos de escola foram muito divertidos).

    Prefiro acreditar que nos encontraremos!… Para lá do caixote, frio e às escuras.

    Prefiro assim.

    T

  3. Teresa não imaginas quanto me tocaste! A mim própria custa-me acreditar que a minha mãe, uma vez finada, desapareça assim sem mais nem menos,aparentemente sem deixar rasto, porque a considero detentora de um espírito bom! Magoa pensar que alguém justo tenha o mesmo destino dos que nunca o foram!

  4. Teresa e Milu,

    Se já leram coisas mais recuadas que escrevi, sabem que sou Católico. Acredito verdadeiramente em Deus, encontro imensa paz e amor em Jesus e em Maria. Acredito que a morte é uma passagem, que a nossa Alma é eterna. O que nos doi é o tempo que passa entre a viagem de uns e a de outros. Como a saudade que se tem de quem está longe, mesmo sabendo que vamos voltar a vê-la.

    Já estive noutros funerais (felizmente, poucos) mas este hoje fez-me pensar muito. Onde um dia vou estar, a enterrar os meus pais, e onde um dia vou estar, a ser enterrado. Sinto em mim que apenas o corpo ali fica, que há um infinito para viver na companhia de Deus. Mas como Humano, sou cagarola, temo o sofrimento, a morte, e a saudade que não abranda. Não devia ser assim, admito até que esses sentimentos causem algum sofrimento aos que partiram, se tiverem a hipótese de saber o que se passa cá em baixo. O que devemos fazer, se tivermos fé, é rezar muito.

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