Não consegui deixar de notar a quantidade imensa de terra. Pá após pá, já com esgares de esforço, os coveiros faziam diminuir o monte de terra do passeio, e aumentar a que se acumulava sobre o caixão. Não sei dizer que significado teria aquilo para os familiares mais próximos. Para mim, mais distante – embora o falecido fosse amigo da família -, era motivo de interrogação e de meditação. Terei estado, talvez, mais de 10 minutos a ver a terra voar do chão ao caixão. Mais tempo para os enlutados sentirem aquele último momento de ligação ao pai, ao avô e ao amigo, mas ao mesmo tempo, quem sabe, demasiado tempo para viver aquilo, um prolongamento doloroso do “até já” que ali deixam. Fiquei a pensar nisso, e enquanto a terra se acumulava sobre o caixão pensava que todos os dias estou um dia mais perto de viver aquela experiência na primeira pessoa, se a vida correr o seu rumo natural. Sabe Deus o que sentirei nessa altura. Se terei lágrimas ou se estarei seco e em choque. É difícil. Não. É impossível saber.

Caminhamos todos para ali. Vou tentar lembrar-me disso da próxima vez que tiver de cruzar-me, ou conversar, com algum idiota ou bandido. Vou tentar lembrar-me disso quando me cruzar com algum incompetente. Vou tentar lembrar-me disso quando tiver de ouvir algum desaforo. Que acabamos todos dentro de um caixote, frios e às escuras. Não evitei pensar, ali, que estava a contemplar o meu próprio destino. Que um dia serei eu. Pensei tudo isto enquanto não conseguia deixar de notar a quantidade imensa de terra. Pá após pá, debaixo desta chuva miudinha.