Os teus pés foram os primeiros a pisar o amplo elevador. Entrei atrás de ti, mas já te seguia há alguns minutos pela rua. Foi sorte termos entrado no edifício com o mesmo destino. Não te perseguia na rua com maus intentos, planeava seguir-te apenas até ao ponto em que os nossos destinos divergissem. Foi, por isso, com algum espanto mas muito agrado, que os nossos passos nos conduziram ao mesmo elevador. Carregaste tu no botão de chamada, e eu sempre atrás, a observar-te, a tentar colher o máximo de imagens, porque quando se tem uma memória fotográfica faz-se por olhar muito bem e o mais possível, porque a todo o instante o nosso motivo de interesse pode desaparecer. Pode virar numa esquina em direcção a outra rua, pode meter-se alguém à frente.

Tinhas qualquer coisa que me agradava. Em centenas de mulheres com quem me cruzo na rua, há talvez uma mão de dedos mal contados que me cativam. E, não raras vezes, são coisas discretas. O elevador abriu as suas portas vazio. Eramos apenas dois, a subir. Ocupaste um canto, e eu outro, numa posição que me permitisse observar-te. Fingi mostrar interesse pelos números dos pisos que deslizavam num mostrador LCD oposto a mim, mas com algum esforço ocular continuava a observar-te. Depois, baixei os olhos, como quem observa o chão absorvido num queixume quotidiano, e olhei para os teus sapatos. Para as meias, a saia, fui subindo, tentando não ser percebido.

Passavam vagarosos os andares, e talvez naquela altura nem me tivesse importado muito se parasse a meio, se fosse obrigado a permanecer ali durante mais tempo, à espera que alguém nos viesse socorrer. Teria, inevitavelmente, de meter conversa contigo. Quem sabe. Quem sabe a vida não tem um pouco de filme, e de uma situação de tensão surgisse uma faísca que resultasse num beijo e num rubôr, num cabelo despenteado e camisas desalinhadas? Mas o elevador não parou, apenas subia devagar.

Infortúnio. O meu piso chegara primeiro que o teu. Era ali o nosso ponto de divergência. Suspirei para dentro, atirando um último olhar de relance para o teu corpo. Soltei um “com licença” e abri a porta, virei-te costas e preparava-me para a fechar atrás de mim, para que o elevador partisse mais depressa e aceitasse assim o final daquela viagem. Encontrei resistência. Tinhas erguido o braço e com ele impedias a porta de fechar. Hesitaste quando olhei para trás, tiraste a mão, decidiste deixar-me partir, decidiste partir. Olhámo-nos pelo estreito vidro da porta e ficámos assim, enquanto te via subir.