Uma amiga minha, que infelizmente não vejo pessoalmente há muitos anos (talvez, quem sabe, quase 10), teve a oportunidade de conhecer e conviver com um autor que muito aprecio. Comentando, entusiasmado, com ela esse facto, ela disse-me que a princípio esperaria que da boca dele saissem sempre maravilhas literárias, mas que era uma pessoa perfeitamente normal, e que, de facto, não existiam ídolos.

Claro que não. Concordo inteiramente. Não existem, ou não devem existir, nunca, ídolos. E fico mais tranquilo por saber que da boca desse autor – como provavelmente da maioria deles – não jorram preciosidades literárias nem profundas considerações filosóficas a todo o instante. Porque isso seria aborrecido e profundamente banalizador.

Uma das coisas que torna as pessoas mais interessantes é quando do meio de uma aparente superficialidade lhes dá para escrever ou dizer algo que se destaca e que nos mostra que, afinal, há ali muito mais. Com o tempo, à medida que as conhecemos, sabemos sempre que há ali mais, mesmo quando estão a dizer ordinarices. Mas esperamos. Esperamos porque sabemos que a qualquer instante, provavelmente quando não o antecipamos, essa pessoa vai transmitir-nos qualquer coisa com muito significado.

E eu gosto muito desses momentos. Aqueles em que alguém me transmite algo de profundo, ou quando eu consigo fazê-lo a alguém.