Julgava ter feito tudo. Não conseguia sentir-me feliz, nem tão pouco reconhecido, mas julgava ter feito tudo quanto podia. O teu silêncio era de compreensão. Sabias que não servia de nada falar-me. Fosse em voz alta, ou ao ouvido. Falavas-me mais com o teu silêncio. Com a companhia.

Não sentia frio. Não tinha calor. Não sentia nada. De livro pousado sobre a perna esquerda e ainda com o polegar a marcar a página onde me encontrava. Tinha baixado os braços, ficado a meditar. De olhos postos na outra margem, oposta àquela onde nos encontrávamos. E pensava eu como sempre tinha estado na outra margem, toda a vida. Estive sempre na margem oposta àquela onde todos estão. Lutei bem contra eles, venci uns quantos, fui derrotado por outros. Nem sempre com as armas limpas. E quantas, quantas vezes com sorrisos no rosto, com apertos de mão húmidos. Lembrava-me bem. Lembrava-me de quantos se tinham cruzado comigo escorrendo sujidade, pingando copiosamente todo o seu cinismo, a hipocrisia, a mentira, falsidades e políticas de proveito próprio. Quantas vezes havia eu conspurcado as minhas mãos, oferecendo-as a uma saudação socialmente correcta, para a seguir as esconder nos bolsos e correr a lavá-las. Tantos porcos por esse país fora, tantos. Fora dos lameiros. Porcos de fato, porcos bem arranjados, de cheiros variados, com riscas ou padrão, sapatos brilhantes e faces de pureza. Que tão porcos que eram e que são. E eu ali, no meio deles, a tentar mudar o mundo. Sem comer e a evitar ser comido.

Julgava ter feito tudo. E ninguém sabia. Nem reconhecia. Os porcos brilham nas grelhas, largam a sua gordura pegajosa. Os outros, os que não são porcos, passam de fininho e em silêncio, ninguém dá nada por eles. Há qualquer coisa que separa o brilho e a gordura do verdadeiro Serviço. Afasto os olhos do que está longe e retomo a minha leitura. A tua mão, com a pele menos rugosa que a minha, repousa agora sobre o meu ombro. Tu sabes. Sabes onde estão os porcos e o que fiz. És a única que conhece todo o meu esforço. Nem que fosse apenas por isso, devia sentir-me satisfeito. Mas não consigo.

O texto que acabais de ler é o resultado do desafio que me foi lançado pelo Ministério da Soltura. Consiste em desenvolver um texto tendo como ponto de partida um parágrafo de um livro. Não creio fazer especial justiça ao parágrafo com que me desafiaram, que me parece muito bem escrito e reza assim: “São ruas e caminhos labirínticos os que cruzam esta cidade, cheios de vozes vagas e tristes a chorar fados que não acabam, de gente dolente e sem esperança, que sonâmbula procura o caminho que a todos una num desígnio com um verdadeiramente nobre, verdadeiramente nacional. Um desígnio que seja mais que um destino, mais que um fado a que já não se conhecem os acordes iniciais, esquecidos que estão estes entre cantos e mensagens sobrepostas ao longo da História.” In Invisão, Mário Cunha