O país vivia ainda algum reboliço quando nasceu. Apenas dois anos antes dera-se uma sublevação militar que deporia o sistema político vigente, e de lá em diante tinham-se desenrolado as expectáveis convulsões políticas e sociais. Mas nada disso o afectava. Enquanto bebé, num país com reboliços em curso, as suas preocupações continuavam a ser as mesmas de sempre. Beber leite e fazer muito cócó. As fraldas só as conheceu de pano. Com alfinetes de dama. Devia ser aborrecido lavá-las, mas não era tarefa sua.

Já se viviam os anos oitenta quando as suas experiências ficaram marcadas na memória. As conversas da escola primária, em que, com um amigo, imaginavam o que seria que as meninas tinham debaixo das saias. Lembrava-se das lancheiras. As meninas levavam cestos de verga com tampa, e lá dentro iogurte e pão. Ele tinha uma espécie de bolsa feita pela mãe, em crochet, para levar o pão para a escola. As meninas brincavam com o elástico, os meninos jogavam futebol, brincavam com caricas ou com berlindes. Havia momentos menos inocentes, porque os meninos também se pegavam. Ele bem o sabia. Não tinha aptidão para pancadarias e por isso tinha levado um murro certeiro no nariz que o deixara a chorar baba e ranho. Pela dor, e pela raiva de ser tão facilmente batido. Mas para lá desses episódios de disputa, por um lugar dominante – o animal Homem também o procura, nas selvas urbanas, e começa novo -, a maioria dos tempos de infância eram inocentes.

Não havia televisão a todas as horas do dia. Nem computadores. Havia o Dartacão, a Heidi e o Marco, e outros desenhos animados cuja mensagem era a do amor e da amizade. A maioria dos meninos maus exercia a sua maldade de punhos fechados mas vazios, ou apenas através da aparência da maldade. Em muitos casos não era necessário, aos meninos maus, ser efectivamente mau. Apenas parecer mau. À medida que envelheciam ganhavam-se novos requintes. Podia aparecer um canivete, ou uma pedra que, bem arremessada, fracturaria ossos. O saque era normalmente o dinheiro para a senha do almoço na cantina da escola. Vinte e cinco escudos, ou menos. Mas os perigos eram conhecidos, e evitavam-se. Era relativamente simples evitar os meninos maus.

Não foi nada simples evitar a bota que descrevia um arco entre um ponto inespecífico do ar e a sua boca. Partiu-lhe vários dentes, mas isso era quase indiferente, agarrado que estava à barriga a sangrar. Atrás de si, a faca pingava nas mãos de um outro, que o pontapeava nas costas. Os outros dois tinham já entrado no seu carro e chamavam os companheiros. Voltara a ser batido. Desta vez não apenas por um menino seu colega que lhe acertara no nariz com um punho bem fechado e vazio, mas por quatro jovens, pouco mais velhos que meninos, que nunca tinham visto a Heidi e o Marco, não sabiam quem era o Dartacão, só conheciam as facas, não se importavam com a vida de ninguém, provavelmente nem sequer muito com a deles. Morrer assim, no chão, sem dentes, com um buraco na barriga, enquanto esses quatro, pouco mais velhos que meninos, arrancavam depressa no seu carro. Para roubar a mais alguém as memórias da bolsa de crochet daquelas tardes dos anos oitenta, que hoje parecem côr-de-laranja ou sépia, comendo o seu pão com queijo e marmelada.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

5 Comments

  1. Este é um País de meninos maus, a começar bem lá por cima! lembro-me bem dos meninos maus do tempo de escola, ainda levei uns abanões carago, e o lanche pró maneta !!

    João, queria convidar-te para o desafio “Eu também quero” mas não encontro mail para que possa enviar as regras do jogo:). Aguardo resposta!

    Abraço
    Toze

  2. joao arroba geografiadascurvas.net

    Vendo bem as coisas, os meninos maus estão em toda a parte. E se não forem em maior número que os bons, pelo menos estão colocados em sítios onde podem fazer maiores estragos.

  3. Hoje são muito piores… Podes ter a certeza!…

    Naquele tempo, mesmo com meninos maus (e eu sou da terra dos “piores que maus”) podíamos brincar na rua, sem grandes medos.

    Hoje, o perigo espreita na internet. São homens maus, em vez de meninos maus. O perigo espreita no portão da escola, nas redes de tráfego de crianças, na pedofilia, e noutras atrocidades nas quais nem quero pensar.

    Hoje, é bem mais dificil aos meninos evitar estes perigos, e aos pais estar alerta!

    Que saudades dos tempos dos “meninos maus”!!!

    Beijinhos,
    T

  4. @Teresa,

    Também tenho saudades da “inocência” do tempo dos “meninos maus”, embora não quisesse lá voltar, porque era também um tempo em que não podia fazer coisas que hoje faço. Mas gostava muito que essa inocência fosse transportada para os dias que hoje vivemos.

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