Estou convencido de que o seu maior problema, com as mulheres, era não acreditar em nada. Para ele nada era possível, as coisas não aconteciam. Melhor, não lhe aconteciam. E por causa disso não se punha a jeito, não criava condições para que algo efectivamente lhe acontecesse. E assim, bem se vê, era fácil alimentar essa sua crença, de que não era bafejado pela sorte. De que as coisas excitantes só aconteciam aos outros.

Quem não acredita em algo comporta-se como um pateta quando esse algo lhe entra pela vida dentro. Ou pela porta. Ou pela cama. Não acreditar deixa-nos num despreparo muito inconveniente quando a altura chega, quando somos obrigados a lidar com as coisas. Penso que ele não imaginava que algum dia pudesse viver as coisas de que outros falavam, que ele via em filmes, que lia em histórias. Com ele, não. Pois se não era nada ajeitado com as mulheres, se elas só queriam ser amigas dele! Algumas até se atreviam a insultá-lo com a pretensão de ter nele o seu melhor amigo. O melhor amigo! De que lhe servia ser o melhor amigo delas, quando quem as fodia era sempre um matulão qualquer, cheio de pinta, concorrido por muitas e no entanto completamente desprezível, sem ideias nem educação, tratando-as como trastes?

O limite para ele estava em imaginar como seria tocar a pele de uma mulher. Imaginava que fosse como tocar em seda. Era a imagem que tinha, mas já lhe tinham dito que nem sempre era assim. As peles, havia-as em muitas cores e feitios. Cascas-de-laranja, estrias, até pêlos. Havia de tudo. Mas ele preferia manter-se agarrado à ideia da seda, pois se nunca tinha experimentado tal coisa, exceptuando um excepcional e fugaz toque no braço de alguma amiga, preferia pensar que fosse algo muito bom, muito agradável. Não se atrevia em sonhar tocar naquilo que sempre se cobre, não via como possível que alguma mulher algum dia se despisse para ele, ou que o despisse a ele mesmo numa fúria de sexo. Ele não. Porque tinha os pés na terra, bem firmes, seguro da sua falta de popularidade. Era bom com os ombros, tinha-os para dar e vender a todas as chorosas da terra, juntamente com pacotes de palavras de consolo. Mas a sua existência física, para lá do consolo, a sua existência física enquanto detentor de um pénis, era nula, descontando o onanismo ocasional, alimentado por uma ideia mais tórrida com alguma das choronas. Se ao menos apoiassem a cabeça noutra coisa e não no seu ombro, pensava ele… se ao menos!

Mas os matulões vinham e iam, em sucessão. E ele só tinha ombros. Ombros e palavras. Cansativo. Tinha pensado desistir e dedicar-se a um estilo de vida mais contemplativo, longe das necessidades da carne. Poderia talvez ser escritor. Ou filósofo. Ou quem sabe, político. Seria tudo uma grande mentira, poderia ser uma espécie de matulão, ele mesmo, sem princípios, nem precisava ter ideias. E quando elas fossem tratadas como lixo no final de umas fodas – nunca mais de duas por gaja! – existiria, por certo, um pacóvio qualquer, como ele, com ombros disponíveis. Por minutos a ideia parecia-lhe interessante. Mas desinteressou-se, em tempo, afinal aquilo não era ele. Antes voltar a pensar em ser escritor. Ou filósofo. Ou outra coisa qualquer que exigisse mais da cabeça do que do baixo-ventre.

Dezasseis anos depois, e alguns livros mais tarde, partilhava a casa com uma amiga de longa data. Tinha tido a sua quota parte de matulões, e a cada um que passava o ombro dele estava sempre perto. Na verdade, estava mesmo no quarto ao lado. Era certo que ele tinha desistido de oferecer ombros, tinha deixado de se preocupar. Partilhar casa com uma amiga não era, para si, uma contradição. Era aceitar a derrota. Viver sob o mesmo tecto com uma mulher extremamente bonita, que transpirava sexo, e mesmo assim não ter uma única hipótese. Por vezes era complicado escrever enquanto no quarto do lado se abafavam alguns gemidos. E os matulões tinham sempre facilidade em fazer ranger as molas dos colchões. Sempre que isso acontecia ele sabia que faltava pouco até ter de consolar a desgraçada, mas fazia parte da derrota. E escrevia com mais fúria. Lendo tudo quanto ele publicou, atrevo-me a adivinhar quais os capítulos que ele escreveu enquanto alguém praticava o coito a escassa distância.

Numa quinta-feira sem nada de particular, completou um dos seus livros e recostou-se na cadeira, espreguiçando-se enquanto esboçava um sorriso de alívio e satisfação. Nos seus livros era totalmente livre. Dentro das coisas que escrevia tudo podia acontecer, não havia limites, qualquer história se podia desenrolar e todos os desfechos eram possíveis. Mesmo aqueles que envolviam matulões. E era ele quem decidia quem tinha ombros para dar, quando os dava, e a que preço. No dia seguinte levaria o texto ao seu editor, esperando não ter de mexer muito no conteúdo. Sentia-se muito confiante com o que havia escrito e embora o editor contribuisse muito positivamente para o resultado final, aborrecia-se sempre com as alterações porque representavam, para ele, um fracasso. Cada alteração proposta pelo editor representava ficar aquém da perfeição. A que não existe, mas muitos querem.

Computador desligado, cadeira no sítio, dentes lavados, pijama vestido. Já era sexta-feira, trinta e quatro minutos depois da meia-noite quando desligou a luz. Aconchegou-se, mas por pouco tempo. A porta do seu quarto entreabriu-se, e a luz que vinha do corredor projectava nas paredes a silhueta dela. “Já dormes?”, sussurrou. Na verdade não. Tinha acabado de se deitar, trinta e sete minutos depois da meia-noite era o que o relógio assinalava na sua mesinha de cabeceira. Pela janela entrava uma luz ténue azulada, de um candeeiro distante, que se misturava com a luz amarelada que vinha do corredor. “Não, deitei-me agora mesmo. Precisas de mim?”.

Ela esgueirou-se pela porta. Não a abrira totalmente talvez para ocultar um pouco mais o facto de não ter roupa vestida. Teria a esperança de que ao abrir a porta o mínimo possível a luz do candeeiro do corredor fosse suficiente para evitar bater com os pés nas esquinas dos móveis mas, ao mesmo tempo, impedindo que se revelasse mais do que necessário. Confiava também que ele estivesse adormecido e incapaz de um olhar perspicaz. Adormecido ele não estava ainda, mas não tinha reparado na nudez dela. Como nunca nada lhe acontecia, não cuidava essas coisas. Quem mal não julga, mal não cuida. Quem não espera mulheres nuas pela porta dentro, não as vê nem com a luz do sol ao meio-dia.

Depois de se esgueirar, encostou a porta e avançou para a cama dele sem lhe responder. Entretanto já ele se endireitara e tentava chegar ao interruptor do candeeiro da cama. Felizmente sem o conseguir, foi interrompido nesse intento pela surpresa de a sentir pegar nos lençois e enfiar-se debaixo deles. Ainda teve tempo de pensar para si “oh raios, queres ver que há matulão e choradeira?”, mas na verdade nem chegou a acabar de construir a palavra choradeira no seu pensamento porque ela se encostou a ele e quando ele levou a mão ao seu corpo, às escuras, para um abraço de consolo – porque pensava que ela vinha à procura de ombro amigo -, percebeu que estava nua. Articulou um monossílabo qualquer. Não teve tempo nem talento para mais. Aquilo não estava a acontecer-lhe. Nunca acontecia. Nunca a ele. A outro qualquer, talvez, porque não, era natural. Mas a ele não. Era totalmente impossível. E como reagir? Que coisa fazer? Uma mulher nua na cama com ele, assim do meio do nada, a meio da noite, a vinte minutos da uma da manhã. “Mas…”, mas nada, interrompeu ela. “Se me beijares depressa, melhor! Já desperdicei sete anos num quarto errado”. E ele afinal sempre tinha razão em alimentar a fantasia. Havia, certamente, muita casca-de-laranja, muita estria, muito pêlo por esse mundo fora. Mas ali, naquele momento, as mãos dele estavam finalmente a tocar seda. E não era dos lençois.