A merda é matéria, tem substância, cheiro, textura, mas não é um lugar. A merda é um estado de espírito. Quando mandamos alguém à merda não estamos efectivamente a mandar essa pessoa sentar-se na merda (embora o tenha feito por diversas vezes, quando usava fraldas, como todos nós), ou entrar na merda, o que exigiria quantidades colossais de merda. Na verdade, mandar alguém à merda é muito mais uma revelação do nosso próprio estado de espírito. Com essa elevada frase, “vai à merda“, estamos apenas e só a transmitir coisas como “vai ver se estou lá fora”, “vai ver se chove”, e outras mais, muitas mais. Em suma, apenas a admitir que não somos indiferentes a essa pessoa – ou coisa -, porque nos causa o mais incrível asco. Mas estar na merda pode ser também algo de profundamente filosófico, um acto profundo de introspecção que nos leva a exclamar estar nela. Ou então, como em tempos testemunhei, alguém que pisando um frondoso excremento exclama, com toda a propriedade, “estou na merda!“. E, ainda assim, a merda não é um lugar, ainda que possa estar em todo o lado, em todo o instante.

Daí que, infelizmente, mandar alguém – ou algo – à merda não se possa materializar com facilidade, porque a merda não é um lugar. No entanto, confesso, de há uns tempos para cá ando com forte desejo de mandar à merda umas quantas pessoas e sítios. Precisaria apenas de merda capaz de encher uns 120.000 metros cúbicos. Como, quando passeio junto ao Tejo, não a vejo toda a flutuar, admito que esteja guardada em algum sítio, tornando real a hipótese de que a merda esteja algures e assim se transforme num local para onde se possa mandar alguém, ou ir lá buscá-la para despejá-la onde queremos.

Mas há outras hipóteses que não devem descartar-se com ligeireza. Há muitos anos atrás, a mesma pessoa que pisou o frondoso excremento de que falei antes, disse-me que bardamerda era a evolução da expressão “beber da merda“, o que daria à frase “vá bardamerda” o significado “vá beber da merda“, o que faz todo o sentido. Nunca o confirmei, e ainda hoje desconheço se, efectivamente, bardamerda deriva de beber da merda. Agradeceria que alguém douto nas ciências da merda me esclarecesse, porque isso simplificaria sobremaneira o meu fito. Mais prático do que encontrar a merda ou trazê-la até onde a desejo despejar, seria diluir uns cagalhotos em garrafões de água, permitindo-me não só dizer a alguém vá bardamerda, como até testemunhar o facto para meu regozijo e garantia de que se cumpria o meu desideratum (em latim, para elevar o nível deste texto, por agora já muito, muito em baixo).

Não arrisco ir mais longe. Tendo gasto o latim a que tinha direito neste dia, encerro sem me afundar mais na supra-citada, mas sabeis agora em que estado de espírito me encontro, já que, como vos escrevi, o lugar não existe.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

Your comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *