Não foi há muitos dias que estava na sala com a televisão sintonizada no VH1, onde passava uma contagem dos videos mais famosos dos anos 90. Anos noventa, claro está, esse decénio que começou em 1990 e terminou em 1999. Esta última frase pareceria totalmente desnecessária se não fosse minha intenção sublinhar muito bem o facto de que são coisas que podem ir até 1999, ano que ainda está bastante próximo na minha memória. Apenas um ano depois da Expo’98, um ano antes das euforias – e receios – de um novo milénio que em rigor só começaria dois anos depois e não imediatamente no ano a seguir.

À medida que essa contagem do VH1 ia passando, ia reconhecendo, em conjunto com a minha mulher, alguns videoclips de músicas de que gostamos e que, tanto eu quanto ela, temos tão presentes e frescas como se tivessem sido ontem. Ao ponto de, a certa altura, eu ficar genuinamente parvo com a ideia “mas… isto já foi há 10 anos atrás!”.

Pois é. Não sei o que pensam, ou o que dirão, ou o que eu próprio direi, quando tiver 40, 50 ou mais anos. Mas mesmo agora, com apenas 32, começo a aperceber-me que são já muitas as coisas sobre as quais consigo fazer esse raciocínio: de que já lá vão 10 anos. Pior… em relação a algumas, de que me recordo bem, consigo mesmo dizer que já lá vão vinte. E algumas parecem ter sido ontem. Há momentos de revelação, outros de viragem. Tenho vivido um deles, nos últimos meses.

Enquanto temos vintes e tais, não ligamos muito às coisas. Há um ror de coisas que podemos fazer, muitas opções em aberto, o futuro é tão esmagador nas hipóteses que o passado não ocupa muito espaço. Com vintes e tais não somos teenagers, mas ainda ninguém espera de nós grandes coisas. Os vintes são um decénio límbico. Anda-se por ali. Idealmente a construir qualquer coisa. É durante esse decénio das nossas vidas que se dão os últimos passos – esperamos que certeiros – para consolidar um percurso que nos permita garantir sobrevivência. Tarefa manifestamente difícil nestes dias.

No decénio dos vintes, quando tentamos recuar 10 anos, temos para nos lembrar essencialmente coisas de quando eramos teenagers. Se quisermos recuar 20 anos arriscamo-nos a ir contra o útero das nossas mães ou então ficamo-nos por recordações da escola primária. Mas depois, quando fazemos a curva dos trinta, acordamos trintões. Não acontece logo. Ser trintão é algo que entra no nosso corpo com velocidade variável – alguns conheço que nunca o foram, ainda vivem teenagers -, comigo terá demorado apenas alguns meses e pode não estar completo o processo. Ao virar dos trinta olhamos para trás e talvez pela primeira vez nos apercebamos da nossa finitude.

Eu tive percepção da minha finitude aí por volta dos 8 anos. Afligiu-me sobremaneira a ideia de mortalidade que, até ali, nunca me tinha ocorrido. A ideia de não existir era sufocante. Se bem me recordo, essa ideia tirou-me o sono durante alguns dias, penso que vivi alguns dias desagradáveis até que me fui esquecendo desse assunto e retomando a minha alegria pelas brincadeiras e brinquedos. Pensando nesses dias, nos anos 80, ter 8 anos era uma coisa simples. Não havia consolas de jogos, só dois canais de televisão e nenhum emitia 24 horas por dia. Já havia, como sempre houve, maldade entre as crianças. Mas era mais fácil, naquela altura, distinguir os bons dos maus.

Aos 30 a noção de finitude é necessariamente diferente daquela que se tem aos 8. O nosso raciocínio habitua-se a conviver com a noção da morte, e se tivermos uma matriz espiritual como aquela que o catolicismo me dá, aceitamos que a morte apenas representa um final para o corpo, mas não para aquilo que faz de nós quem nós somos. Não só é reconfortante, como faz todo o sentido. Se nada se cria, nada se perde, tudo se transforma (e como sabeis, não sou eu quem o digo), aquilo que nós somos não pode estar contido apenas na matéria que nos transporta todos os dias. Tem de haver mais.

E assim, aos trinta, mais coisa menos coisa, a ideia de uma certa imortalidade que nos alimentava as transgressões quando tinhamos vinte, começa a esvair-se e dá lugar à noção de que estamos mais perto de quem hoje vemos com cinquenta ou sessenta, a maioria dos quais lamenta não ter conseguido fazer tantas coisas quantas desejavam. E isso acontece porque olhamos para trás e conseguimos ver vinte anos no passado, e vemos que passaram tão depressa… e que os dias da semana também passam depressa e é aí que conseguimos atirar vinte anos para o futuro e vemo-nos com os tais cinquenta. E queremos muito conseguir lá chegar realizados, tendo feito algo de verdadeiramente importante. Mas como, se os dias passam tão depressa? Se ainda ontem estava a ouvir coisas que afinal já foram há dez anos?

Sou assaltado, recorrentemente, pela ideia de que posso não ter aproveitado tudo, posso não ter feito tudo quanto podia. E de que possa continuar a não o fazer, e de que é muito necessário que no futuro não cometa esse erro e aproveite tudo. É como dar os parabéns a algum amigo meu que ainda está a fazer vintes e tais e dizer-lhe algo como “olha, tu aproveita!”. Seria interessante que algum deles me devolvesse essa afirmação com uma pergunta: “aproveito… o quê?”. Sim, aproveitar o quê? Como é que se pode aproveitar bem cada dia nos vintes e tais, ou em qualquer outra idade, para que não se fique com o medo de ter desperdiçado a vida? Como é que se contabiliza o aproveitamento? Em pielas? Em quecas? Em festas? Em gajas? Viagens feitas, número de amigos, andar no metro sem pagar? Porque será que quando se pensa em aproveitar bem, é fácil pensar em transgressão? Talvez porque a transgressão é isso mesmo, algo que contraria aquilo que é suposto fazer-se. E todos vivemos com o imenso jugo de ter de seguir uma linha daquilo que é suposto ao contrário do que nos apetece.

Mas as coisas não acontecem por acaso. As linhas de conduta, que tanto nos fazem apreciar uma boa transgressão, existem porque ao longo de muitos séculos o Homem aprendeu que certas opções e acções nos levam à decadência, à desgraça, à desilusão, à perda de muitas das coisas de que necessitamos para algum equilíbrio e, arrisco dizer, felicidade. E se me obrigar a passar a primeira ideia e for mais fundo, acabo por ser forçado a aceitar que não ficou por aproveitar nada. Que tanto eu quanto muitos outros, fizemos o que tinhamos de fazer com as nossas vidas, que durante esses vintes e tais fomos optando e vivendo um dia de cada vez com aquilo que nos era colocado no prato. Pelos outros, pelas circunstâncias, e por nós mesmos. Não me ficaram pielas por apanhar, não tive menos quecas do que aquelas que pude ter, não senti nenhum deficit em festas, em gajas ou em viagens. Tive o que podia ter, e o mundo de coisas que imagino ter perdido é apenas isso, um mundo de coisas imaginado. Coisas que não estavam lá, não eram para eu agarrar, fazer, aproveitar.

E, ainda assim, depois da curva dos trinta, continuo a sentir que preciso aproveitar muito bem estes dias, para não olhar para trás e ficar triste, quando a curva dos quarenta me atirar de novo para o canto da reflexão. Aproveitar bem talvez seja não fazer nada de que nos envergonhemos mais tarde. Dar carinho a quem o merece, amar quem temos para amar, fazer dia-a-dia aquilo que nos permita mais tarde dizer (mas sobretudo, sentir) que contribuímos para algo. Algo maior que nós, mais pesado que nós, que nos sobreviva.