Plano para a vida, depois do momento zero

Com a chegada dos primeiros dias realmente frios, à medida que o ano findava, todos começavam a fazer os seus planos para o novo ano. As coisas que queriam fazer, determinadamente, no ano seguinte, logo a começar pelo dia 1 depois de almoço. Antes não, porque era preciso dormir e diluír o alcool encharcado em excesso na despedida do ano anterior, aquele em que poucas promessas se tinham cumprido.

As pessoas precisam de recomeços. É uma aflição terrível pensar que os dias se sucedem e nada marca um ponto zero. As pessoas precisam de pontos zero. De sentir que podem sempre começar de novo, corrigir o que estava mal ou seguir um caminho diferente deixando para trás toda a bagagem. Na primeira noite de cada ano as pessoas transformam-se nas suas camas, largam a pele como as cobras, acordam frescas e esquecem-se que ainda ontem era Dezembro, dão por si em Janeiro e com doze novos meses pela frente. Com esperanças, também com receios, talvez mesmo com enormes pavores, mas podem recomeçar, encarar novos princípios ou aproximar-se do fim. As pessoas precisam disso.

Todos se apressavam nas compras de Natal, esgotando os dias em que todos os antros de consumo se enchem de gente vazia. Uma para este, outra para aquele, coleccionando listas de coisas que são só coisas e que vão cá ficar todas – excepto os chocolates – quando todos partirem. No final daquele ano todos estavam demasiado preocupados em comprar coisas para interiorizarem a necessidade de viver bem o momento zero que se aproximava. Escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho, essas coisas que todos dizem querer fazer, e outras como perder peso, fazer as pazes com alguém, retomar um contacto perdido, ser menos belicoso. Pagar as quotas, fechar um projecto. Muitas coisas.

Plantar uma árvore, já o havia feito, ter um filho,  não, escrever um livro também não. Quem quereria ler? Debruçando-se sobre uma cama – sobre a qual muitas coisas estavam depositadas – para o ouvirem melhor, perguntaram-lhe que planos tinha para o novo ano depois de lhe terem contado as suas. Que pergunta pateta, terá pensado. Com uma voz baixa, calma, disse-lhes apenas que o seu plano para o dia 1 de Janeiro, a seguir ao almoço, se conseguisse, era só um, estar vivo.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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