A pornografia enganou-me

Alguns dos meus momentos preferidos são aqueles em que, na companhia de bons amigos, sou levado a pensar em tom de brincadeira em coisas que não só nos fazem rir como, afinal, têm um fundamento de verdade. O mote, desta vez, foi um clássico incontornável da pornografia. Não me refiro a esse outro clássico, também incontornável, que foi a Garganta Funda, mas sim ao Banana e Chocolate com a Cicciolina.

O Banana e Chocolate é o tipo de filme pornográfico que hoje se pode ver do começo ao fim sem qualquer interesse sexual. Passou à categoria de documentário histórico. Numa certa medida, é de tal modo um clássico que poderia ser perfeitamente visto no RTP Memória, num intervalo qualquer entre um E tudo o Vento levou e a Música no Coração.

Em 1986, o que Banana e Chocolate tinha de interessante, para além de ser pornografia e portanto atractivo para jovens adolescentes, era o sentido de transgressão que proporcionava, e os adolescentes adoram sentir-se a transgredir. Numa época de frondosas púbis e de filmes nórdicos já de si bastante javardos, Banana e Chocolate tinha um pouco de tudo, sendo inesquecível o ápice javardola de uma cena já para o final da película em que um fulano solicita à Cicci (como carinhosamente, à época, lhe chamavamos) que defeque e urine sobre ele, num cenário campestre por entre fardos de feno. No mais, a Cicci tinha um aspecto berrante que acentuava o carácter transgressor da coisa. Pelos padrões actuais, profundamente pirosa. Nos anos 80, apenas extravagante.

A pornografia enganou muitos homens e talvez continue a enganar. Com o passar dos anos, as frondosas púbis foram dando lugar a vulvas e arredores totalmente rapadas, mas manteve-se a facilidade com que o sexo acontecia. Uma cena que jamais esqueci como ícone disto de que escrevo, é uma de um filme intitulado Leena, a desvairada, já dos anos 90, em que uma mulher quase nua lê uma revista num sofá quando lhe entra porta dentro um fulano de mala executiva e fatiota e lhe diz “Sou agente de seguros”. Acto contínuo e, no momento seguinte, está essa mulher, quase nua, agarrada a ele e, se bem me recordo, de joelhos e tal. Assim, sem mais.

A par deste tipo de enganos, um outro: o de que as mulheres são todas sedosas, com peles perfeitas, muito arranjadinhas, fruto de muitos retoques em revistas da especialidade. Os ávidos consumidores de pornografia (e de publicações eróticas) terão chegado a um dia em que perceberam que afinal nem todas as vulvas são rapadas, que nem sempre os pénis deslizam para dentro das vaginas como que sugados por vácuo, e sobretudo que não basta chegar ao pé de uma mulher e dizer-lhe “olá, sou agente de seguros” para a ter pendurada em nós. Ah, e terão percebido também que as mulheres raramente se sentam nuas em sofás com pensamentos lascivos a ler revistas, e que nem todas deliram com ejaculado nem se divertem a introduzir bananas, pepinos e outros objectos na vagina.

A pornografia é fundamentalmente crua e território de fantasias. Talvez por isso seja atraente aos homens, sobretudo aos homens, porque é pragmática e self-service, muito adequada a uma etapa das suas vidas em que procuram uma satisfação que, de outro modo, não teriam. Interrogo-me acerca do papel da pornografia nos dias de hoje, em que a vida sexual começa tão cedo. Há vinte anos atrás, quando a Cicciolina fazia furor, rapazinhos de 13 ou 14 anos não tinham outra vida sexual que não fosse imaginada nas suas cabeças ou vivida entre palmas de mãos. Quando escrevo que a pornografia me enganou, faço-o, naturalmente, divertido. Mas tenho noção de que, há vinte anos atrás, uma certa ingenuidade nos levava a pensar que algumas coisas eram assim. Que seriam assim quando fossemos mais velhos e tivessemos acesso a mulheres e ao sexo.

Sem juízos de valor acerca da pornografia, que poderia fazer sob muitos e variados ângulos, dizer que a pornografia me enganou serve, também, para dizer que ela vai aparecer na vida das pessoas em algum momento, quer se procure ou não. Que nos dias actuais é difícil não tropeçar em pornografia mesmo quando se faz uma utilização familiar da internet. É também por isso que a pornografia precisa ser contextualizada.

E ainda assim, mesmo sabendo que é um engano, não nos importamos muito. É como as revistas da moda cheias de mulheres boas retocadas a Photoshop. Nós sabemos que são falsificadas, mas não faz mal. Muitos anos mais tarde, quando se olha para trás e se recorda algo como Banana e Chocolate, também sabemos que aquilo é uma fantasia. Mas não faz mal, porque, como disse, tem o estatuto de documento histórico. E não deixa de ser extramente curioso quando um filme, em dado momento profundamente transgressor, perde todo o seu interesse sexual e quase, quase se torna inócuo. Quase.

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One thought on “A pornografia enganou-me

  1. Em 2015 comento este post de 2008. Acho que ainda vou a tempo. Também o filme me marcou em 1985/86 por aí, mas pela positiva. Escravo que era da punheta, descobri que um filme pode originar as mais diversas reacções e algumas delas impressionantes. O Chocolate com Bananas foi visto por mim no período mais intenso do esgalhanço da minha vida, 4 a 5 por dia, dentro do mitico teatro Sà da Bandeira, sala mítica dos todos os punheteiros do Porto, arredores, Norte e restante Portugal. Nunca mais vou esquecer o dia em que no decorrer do filme se abre um guarda – chuva na plateia e ouve-se uma voz que diz: ” …Já podem esgalhar ai cima, já abri o chusso…” ( dirigiam-se aquelas sabias palavras para quem estava nos balcões/camarotes do Teatro ). Foi aí que descobri as multifacetadas funções de um guarda – chuva..Obrigado Chocolate com Bananas pelos calos de prazer que me provocaste, mas também por descobrir aos 16 anos que um guarad – chuva pode ser o maior amigo de homem..

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