Afagando o pêlo ao Varela, disse-me o Jeremias…

Diz-me Jeremias, diz-me. Rogo-te que me digas como se ignora o bulício das coisas. Diz-me como se ignoram os ignóbeis, os tristes de espírito e aqueles que são apenas e só palermas. Diz-me Jeremias.

O Jeremias deixou as cidades do fundo do vale e retirou-se para o topo da vertente. Ocupou um espaço pequeno numa rechã, abrigado dos ventos de norte, a partir da qual via todas as gentes lá em baixo, no rápido correr dos dias tristes sem graça. As mesmas coisas vez após vez. E o Jeremias, já um pouco enrrugado pelo sol na face e pelo frio dos dias de inverno, observava tudo no seu silêncio contemplativo.

Era libertador poder ver sem pressa. Olhar com atenção. Tudo e tudo mais ainda, gentes a correr, carros a galgar alcatrão, as antenas nos telhados a captar lixo hertziano, as zaragatas, os actos de violência, e o Jeremias quieto lá em cima.

Num ritual muito simples. Era como ele vivia a sua vida. Comer pouco para manter o cérebro atento, para não ceder à sonolência que conduz à baixa das guardas e ao avanço da tentação. Ter poucos haveres para não se preocupar com a sua perda. Acordar cedo e sentar-se no seu pedaço de calcário macio onde a rechã acaba e a vertente começa. Contemplar. E à noite, quando o escuro se instala, recolher à sua cabana onde o cão Varela se deita aos seus pés e o acompanha. Meditando também ele. Sobre ossos. Que raio de nome para dares ao teu cão, Jeremias. Varela?

Diz-me então Jeremias, como se faz para sobreviver ao bulício das coisas, como se faz para sobreviver aos idiotas? O Jeremias sentou-se no seu pedaço de calcário macio, afagou o pêlo ao Varela que olhava para mim com um belíssimo sorriso canino – ameaçava lamber-me a cara, suspeito – e por fim rompeu o seu silêncio para me dizer uma única palavra: «esperando».

Ainda hoje espero que o velho Jeremias me diga algo mais, enquanto vou fazendo como ele me disse. Esperando.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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