O voluntarismo inibe o desenvolvimento

Recuperando uma ideia de ontem, em que dizia que “Para se desempenharem certas funções há que garantir que elas podem efectivamente desempenhar-se, de preferência com inteligência“, dou por mim a pensar que o voluntarismo é em boa medida uma atitude errada perante as coisas, inibindo o desenvolvimento de boas-práticas, de estratégias, de planeamento a longo prazo com vista a soluções sustentáveis.

Ao abrigo do nacional-desenrrascanço, o Português arranja sempre uma solução para tudo, no último momento. Se as coisas não estão a correr bem ou se não foram tratadas ou planeadas com tempo e com inteligência, vem o português cheio de peitaça e desenrrasca a coisa. Há-de fazer-se sempre qualquer coisinha, era o que dizia um meu colega de faculdade acerca dos trabalhos práticos, e esse espírito de que qualquer coisa sempre se fará é simultaneamente útil e pateta.

Há coisas que deviam ser tratadas com antecedência, deviam ser planeadas, bem pensadas. Mas não, o português deixa arrastar e no fim resolve, como o Liedson. Ora, enquanto o nacional-desenrrascanço estiver a funcionar teremos sempre algum tipo de solução, sim, mas uma solução má, dispendiosa e frágil.

Defendo que se assumam as fragilidades. Quando empurramos as dificuldades para a frente com a barriga estamos apenas a dar a entender aos outros que está tudo bem e não é preciso melhorar. Veja-se um exemplo adicional: se há uma pessoa com capacidade para fazer X por dia, e lhe pedem X+10, se essa pessoa nada disser quem lhe pede achará que pode pedir X+10 sem problema, então aproveita e pede X+20. Eventualmente, por razões várias, quem devia fazer X, fez X+10 porque não se queixou e provavelmente ainda fará X+20, acabará por não alertar a estrutura a que pertence de que algo está mal. Quando a bolha rebentar, rebentará com muito mais estrondo e o resultado muito pior.

Recupero então a ideia inicial: se alguém pede que se faça alguma coisa mas não garante condições para que elas se façam é obrigação de quem as tem de fazer recusar fazê-lo sem as ditas condições. Se embarcar numa onda de voluntarismo e desenrrascanço vai prejudicar-se a ele e não vai beneficiar a estrutura a que pertence, porque a estrutura basear-se-á no seu voluntarismo, não se reforçará nem criará estratégias de suporte e desenvolvimento, e quando colapsar leva tudo atrás. Inversamente, se recusar fazer as coisas, uma chefia inteligente só terá uma saída: equilibrar muito bem os objectivos em função do tempo e do dinheiro, não dar passos mais longos do que as pernas que tem e garantir que para fazer omoletes existem ovos.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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