As pessoas das grandes cidades levam os seus dias presas entre tijolos e estuque (e algumas até amianto) e se tiverem sorte como eu, dentro de salas envelhecidas com aspecto sujo, sem harmonia nem gosto, com paisagem formada por traseiras de outros pedaços de tijolos e estuque. Vale-me ficar na rota das aproximações ao aeroporto de Lisboa e poder ir vendo aviões. Alguns desistem e metem motores, é sempre emocionante.

As pessoas das grandes cidades levam o melhor das suas vidas a ver o dia passar sem aproveitar grande coisa. A trabalhar em qualquer coisa – os que trabalham – ou a ler o jornal enquanto cumprem horário – tenho lá uns quantos assim, mas dizem que é por causa dos direitos adquiridos -, sem hipótese de sentir o sol na pele ou o vento, longe da terra e do cheiro da relva cortada. A vida passa-lhes assim. Passa-me assim. Ao lado.

E ao fim-de-semana, quando se libertam das salas velhas e de ar sujo, sem harmonia nem gosto, com paisagens formadas por traseiras de outros blocos, enfiam-se em centros comerciais. Sem o sol nem o vento, nem a terra nem o cheiro da relva cortada. A vida continua a passar-lhes assim, ao lado. A mim menos, menos. Mas hoje passei por lá, e vi.