As pessoas das grandes cidades

As pessoas das grandes cidades levam os seus dias presas entre tijolos e estuque (e algumas até amianto) e se tiverem sorte como eu, dentro de salas envelhecidas com aspecto sujo, sem harmonia nem gosto, com paisagem formada por traseiras de outros pedaços de tijolos e estuque. Vale-me ficar na rota das aproximações ao aeroporto de Lisboa e poder ir vendo aviões. Alguns desistem e metem motores, é sempre emocionante.

As pessoas das grandes cidades levam o melhor das suas vidas a ver o dia passar sem aproveitar grande coisa. A trabalhar em qualquer coisa – os que trabalham – ou a ler o jornal enquanto cumprem horário – tenho lá uns quantos assim, mas dizem que é por causa dos direitos adquiridos -, sem hipótese de sentir o sol na pele ou o vento, longe da terra e do cheiro da relva cortada. A vida passa-lhes assim. Passa-me assim. Ao lado.

E ao fim-de-semana, quando se libertam das salas velhas e de ar sujo, sem harmonia nem gosto, com paisagens formadas por traseiras de outros blocos, enfiam-se em centros comerciais. Sem o sol nem o vento, nem a terra nem o cheiro da relva cortada. A vida continua a passar-lhes assim, ao lado. A mim menos, menos. Mas hoje passei por lá, e vi.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

1 Comments

  1. Deixam que lhes imponham a paisagem e não fazem a curva para outro lado.
    Mas parece-me que a preguicite já se estende a todos os centros urbanos do país de maior ou menor dimensão. Passámos a ser a tribo dos cus de sofá: do assento do carro para a cadeira de trabalho e daí para o sofá do lar. 😉

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