No princípio era a caça grossa. Gosto de pensar que os homens partiam ainda de noite e em silêncio enrolados em peles e descalços, avançando na escuridão para surpreender os animais. Regressariam com o produto da caçada para junto das suas mulheres. Na caverna o melhor homem era aquele que trazia mais carne. E aquele que trazia mais carne era o líder do grupo, o mais capaz. A melhor caçada era o seu troféu, e todos os outros o olhavam com respeito. Mas isto apenas quando as mulheres eram tanto ou pouco menos peludas que os homens, o coito se fazia sem preliminares e suponho que quase só por trás, e não existiam revistas nem airbrush para retoques digitais.

Agora é diferente. Há homens que se definem pelos automóveis que conduzem, pela marca de charutos que fumam, os fatos que vestem ou as casas de férias. Mas o que é comum a todos nós, o troféu que mais gostamos de ostentar são as mulheres que nos acompanham. Nas festas, na rua, em casa, na cama. Ou no chão. Os homens gostam de ter ao seu lado mulheres bonitas. Somos um bicho muito visual, alimentamo-nos de beleza – por muito que isso seja variável – e não o vivemos de forma exclusiva: sabemos que os outros homens também são assim e gostamos de lhes esfregar nos olhos a qualidade do nosso troféu. Como a comida nos chega processada e já não nos agredimos com ossos de búfalo, procuramos impôr a nossa liderança e qualidade de machos pela imagem da fêmea que convive connosco. Dá-nos um prazer imenso entrar num espaço qualquer com a nossa mulher e sabermos que os outros machos nos respeitam (ou antes, invejam). Que pensam para eles “o que está aquela gaja podre de boa a fazer com aquele bota-da-tropa?”. Não nos incomoda que nos julguem bota-da-tropa, queremos lá saber de apreciações feitas pelos nossos pares, o que nos satisfaz é ter o troféu. E o troféu é uma gaja boa, uma gaja que fique bem connosco na fotografia. Que gostemos de ver, que saibamos que os outros gostam de ver. Que nos permita pensar que é boa, pois é, mas é minha.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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