O grande facilitador

As meninas. Essas meninas que me rodeiam. Os seus sorrisos, aqueles olhares que brilham, os joelhos que tremem. Essas meninas, as meninas que me rodeiam. O palhaço que conta as histórias, que das onomatopeias tira coelhos. O nariz em bola. A bola vermelha. A peruca dos caracois coloridos e os suspensórios que seguram a minha miséria. Sapatos grandes com que bato nas paredes. E às vezes fico parado. Fico a olhar, fixo os meus olhos verdes nas meninas e não digo nada. Não falo. Limito-me a ir, preso em pensamentos que voam para longe de mim. E enquanto navego por aí, o palhaço fica preso ao chão.

Quantas camas quentes e desfeitas terei oferecido por aí? Que espaços terei deixado abertos, por preencher, que pratos terei aquecido para algum outro comer. Quantas vezes terá alguém sentido prazer por mim, conquistado sem conquistar, ser convidado a entrar porque eu lhe abri o caminho? Quantas vezes terei sido o grande facilitador, aquele que vai à frente a anunciar as festas, de megafone em punho. Abram alas, abram pernas, abram qualquer coisa, o facilitador chegou e passou, e depois veio a companhia que ficou. E enquanto me sento na beira do passeio, depois de todos irem para casa, a brisa varre os vestígios da festa, voam papeis pelo ar e ondula a minha peruca dos caracóis coloridos. Tiro o nariz vermelho mas ninguém nota, afinal continuo palhaço.

@2007-07-15 12:33

Posted in Crónicas curvas

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