Em francês, porque condiz bem com uma querida amiga minha que apanhando-me a quarenta e cinco graus me atirou com essa bem para cima da mesa, passando por entre copos e talheres. Disse-me “tu és um voyeur”.

Fiquei intrigado. E também preocupado. Intrigado porque não sabia de que modo ela se tinha apercebido disso. Teria eu sido demasiado evidente? Teria sido descuidado no disfarce de algum olhar menos discreto? Seria esta observação do domínio público? Preocupado porque a conotação é pesada. Um voyeur é um tipo doentio, perverso, que se esconde atrás dos arbustos com uma mão nos ramos e a outra no bolso. Seria eu perverso e doentio?

Explicou-me essa mesma amiga que a sua análise do meu voyeurismo é a de que eu gosto tanto de mulheres que presto atenção a todos os detalhes, bebo com os sentidos – e neles, sobretudo com o olhar – todos os seus sinais e pequenos pormenores que a muitos passam despercebidos, tidos como coisas sem interesse. Desfeita a preocupação – porque afinal não me consideravam doentio – fiquei aliviado e assumi. Sim. Eu sou, de facto, um voyeur. E gosto. Retiro daí um imenso gozo, um prazer de certo modo impagável. Como poucos.

Gosto demasiado de mulheres de uma forma que, como me dizia essa amiga, não é necessariamente sexual – embora também o possa ser e por vezes seja -, de uma forma que não implica necessariamente saltar-lhes à cueca – que com os tempos se veio a reduzir e por vezes desaparecer -, mas antes conhecer de forma muito íntima os seus interesses, ocupações, preocupações e rituais. Talvez seja por isso mesmo que algumas mulheres me confiam os seus rituais de intimidade, os seus problemas, processos quotidianos, preocupações profundamente femininas que poucos homens parecem querer conhecer. Mas que eu gosto de conhecer, e que me enriquecem como homem, que me fazem gostar sempre mais de ser homem e ter o privilégio de me relacionar assim com as mulheres. Porque é um privilégio, e mais que isso um fascínio. Move-me entender as mulheres. Como funcionam. Porque decidem de um modo e não de outro. E quando me aproximo disso, tanto mais me delicio.

Acontece, não raras vezes, ter mulheres a conversar comigo sobre coisas muito privadas, como se estivessem a conversar com um seu espelho. Imagino que seja por não sentirem uma ameaça. Não quer dizer que, com algumas, eu não fosse um predador. Mas um predador subtil. Que estuda a presa mas não se revela sedento. Que retira quase tanto prazer desse estudo silencioso quanto retiraria do salto fatal que completa a caça. Eu sou de facto um voyeur, porque observo todos os detalhes, porque observo todos os milímetros de pele, bebo todos os momentos e os transformo numa memória contínua da qual me alimento. Por gostar de cumplicidade.

@2007-07-15 21:40