As pessoas fecham-se, reduzem-se a verbos mais contidos. Recolhem-se dentro das suas esferas. Porque têm medo de amar. Amar deixa as pessoas expostas, com o coração aberto. E os corações abertos apanham tudo, apanham poeiras, apanham facadas. Sangram e morrem. Ou às vezes, se a faca não vai fundo, se o sangue não jorra, constipam-se e espirram, e as pessoas preferem fechar-se. Coração fechado não vê. Não sente. Está mais seguro. É o medo de amar. Há demasiado medo de amar, do desconhecido. O amor é uma coisa desconhecida.

Quem se fecha deixa de amar, passa apenas a gostar. Quando a coragem é grande as pessoas aceitam adorar. Viram-se para as outras e dizem que as adoram. Adoro-te! Como se adorar fosse coisa para sentir entre duas pessoas. É tão desigual adorar. Eu próprio caio nessa asneira, e às vezes digo que adoro. Para não me constipar, para não jorrar, para não ter a faca espetada a doer. A maioria das pessoas nem sequer adora, só gosta. Eu gosto de ti, dizem. Gosto de ti! Como quem gosta de sumo de laranja, de ler ou de dormir. Como se gosta de qualquer coisa que se descarta quando deixa de interessar. Adorar é desigual, gostar é transitório. Mas amar. Amar é mais doce, é mais igual, coloca as pessoas no mesmo nível. No mesmo nível do amor que sentem, desde que sintam.

Há tantos tipos de amor. O amor não é todo igual, o amor não precisa ser apaixonado, mas é bom quando é. O amor não precisa ser romântico, não precisa ser sexual. O amor pode ser leve, o amor pode ser aquele dos pais, dos amantes, dos amigos. O amor pode estar em qualquer lado. O amor é. Existe. Vive-se. Desde que o coração esteja aberto, e aceite. Que o amor venha. Que o amor se aninhe. Que o amor se vá. Que se aceite a faca com o mesmo sorriso com que se aceitou aquele olhar de antes e sobre todas as outras coisas.

Mas as pessoas continuam a ter medo de amar. Continuam a gostar. A adorar. Pensam que são felizes assim. Mas eu quero amar, deixem-me amar. Ao meu modo. Com o meu sorriso que acolhe o olhar e depois encaixa a faca. Prefiro dizer que amo. É mais verdadeiro assim. Gosto de bolos, adoro a Deus, amo-te a ti. E a ti. E a ti também.

@2007-07-11