As regras do jogo

A menina é sedutora, esguia, elegante. A menina sorri e avança, meneia por entre todos estes espaços que ocupo com o olhar. A menina sabe que é boa. Quando chego ao pé de todas as meninas que me rodeiam transformo-me naquilo que melhor sei fazer: ser palhaço. Sou um palhaço que a todas anima, que verbaliza tudo aquilo que os outros pensam em segredo, nos pensamentos que guardam para os momentos de fantasia saboreados em silêncio. Eu saboreio os meus em ampla verbalização.

Junto-lhe uns movimentos para dar sal, brinco com tudo, ladro, ladro muito para não morder porque a minha natureza é morder. E morderia muito, e morderia bem. Arrancaria os pedaços de textil com a boca, rasgaria as fibras, arrancaria elásticos. Pegar-te-ia, pegar-vos-ia com ímpeto. Mas sou palhaço, existo para animar e não para morder. E não mordendo ladro em abundância. Para desarmar situações, sempre digo. Para assustar. Para ser honesto, porque enquanto ladro alto todos sabem ao que vou, e não engano. Todos sabem o que penso e não escondo. Não uso capas. Exorcizo todas as tentações.

As regras do jogo, como me divirto… as regras do jogo são em primeiro lugar aquecer o prato dos outros. Aqueço as meninas. Digo coisas que fazem as meninas corar, vejo bem o sangue que corre para a cara e imagino o que corre para onde não vejo, sou tão mais eficaz que um bom vinho tinto. Sou um afrodisíaco com pernas, um chocolate negro em pele caucasiana. Com palavras aqueço o ar, com um toque inocente queimo pele. Mas acima de tudo e antes de todas as outras coisas sou um grande, grande palhaço. E nas horas vagas aqueço pratos que sirvo bem quentes a todos os outros.

@2007-05-05

Posted in Crónicas curvas

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *