Tanta gente. Há tanta gente. Cada pessoa que conhecemos é uma opção em aberto, e cada pergunta que fazemos pode ter tantas respostas, e cada resposta inicia um processo em cascata que ninguém sabe onde termina. Se a opção é boa, a cascata corre bela e límpida. Se a opção é má, vem a lama e fica tudo turvo, e leva as coisas com ela, e há lugar a destroços, a choros, a coisas que custam a limpar. É uma pena. E as pessoas sofrem tanto. Sofre-se tanto. Há tanto sofrimento. Desilusão, tristezas imensas e profundas.

Há quem se diga deprimido. E se a depressão for apenas um estado profundo de tristeza? Não se pode estar triste, muito triste? Sem que isso seja doença. Se alguém chegar ao pé de quem está muito triste e perguntar se está deprimido, poderá responder que não, que está apenas muito triste. Um rosto fechado pode significar tantas coisas. Um rosto fecha-se para pensar, meditar em algo. Um rosto fecha-se porque chove lá fora, porque a primavera chega e o tempo muda em minutos, porque está inseguro, doente. Ou triste. Apenas triste. Sem mais.

Tantas coisas que se podem fazer. Umas adiante do seu tempo, outras com tanto atraso. Se um dia achamos que estamos parados, atrasados, que tudo nos passou à frente, que rosto temos? Se um dia, sentados a olhar pela janela, pensamos que o mundo está numa sintonia diferente da nossa, que as pessoas e as coisas que queremos construir estão numa fase diferente da nossa, que rosto podemos fazer senão um rosto fechado, triste, imensamente triste. Até as lágrimas, se as tivermos, são tristes e não correm para o mar, preferem ficar algures, onde cairem, sem escorrer.

@2006-02-21