Levantaram-se as núvens de há dias, mas a hora mudou. O Inverno que ainda tarda umas semanas começa a fazer-se anunciar. São aqueles dias de frio. Pequenos e frios. Com as camisolas grossas, a roupa quente. Gente feita em cebolas. Peles sobre a pele, mais tempo que leva. Tempo para tirar. Despir. Quando a vontade aperta não é a cebola que impede. Na fúria de colar os corpos há roupa que voa, descola, cai. Mesmo quando é muita.

Sem as nuvens de há dias o céu esteve azul. Mas a noite veio caindo mais depressa, olhando por esta larga janela que me serve de fundo há muito que as sombras se instalaram e agora é um resto de dia triste que fica. Daqui a pouco vou rasgar esse resto de dia triste, entrar por dentro dele enquanto me faço andar na rua a caminho de casa. Vou passar por gente que nunca vi e outra cujas pisadas sigo, mesmo sem saber. Vou ver mulheres vestidas e outras um pouco menos. Esteve calor. Hoje esteve calor. E as mulheres encolheram as saias, encurtaram as mangas, alargaram os decotes. E as mamas, essas mamas que no inverno se escondem sob sedutoras malhas ficam hoje um pouco mais visíveis. Vou passar por aí.

E enquanto passo por entre todas essas mulheres, tantas que são e que nunca conheci, penso para mim que não é o orgasmo que me dá prazer. Somos marcados em crianças pela hora em que os pais chegam e nos interrompem a brincadeira. O orgasmo é um pouco assim. Enquanto passo e persigo essas silhuetas de mulheres atraentes penso que não é o orgasmo que me move. É a procura, a sedução, o poder ver, tocar, sentir. Muito mais o durante, pouco do depois. No relativo do meu espaço, movo-me quieto. E enquanto o faço, imaginando coisas com ruivas e morenas, penso para mim que devo pedir-lhes desculpa. Porque nunca me tendo conhecido, em sentido bíblico e para lá dele, há toda uma dimensão de coisas que desconhecem. Entristeço-me.

@2006-10-30

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