Parte IV – Vigésimo segundo andar

É um exercício perdido procurar todas as coisas que incomodam. Desaparecem umas, outras chegam. E por muito que se goste de exercitar o raciocínio em busca das razões para tudo, por muito que isso nos possa enriquecer, retira-nos tempo para aproveitar as coisas boas, aquelas que são simples. E nunca me canso das coisas simples. Mesmo que escondam uma complexidade imensa. Mas eu não as vejo ao microscópio. A minha visão generalista – preguiçosa, para muitos – entende-as como simples. Acordar de manhã, fruto de tantas complexidades, é uma coisa simples para mim. Mesmo sabendo que existo num universo holístico, o que vejo, tento ver simples. Falhando muitas vezes, com a vontade de entender a razão de tudo. Como quando desmontava todos os brinquedos para lhes ver as entranhas. Mas aprende-se com isso, mesmo que se perca um pouco da magia. A vontade de saber pode tornar-nos irritantes para os outros. Perguntas sucessivas. Lembro-me por instantes do rapazinho com o cabelo cor de ouro, e do piloto aborrecido com tanta pergunta, no meio do deserto com um avião em terra. Serve-me de inspiração muitas vezes essa obra gigantesca em apresentação singela. O principezinho é a vontade de saber com uma existência simples, inocente. Adocicado por essa lembrança, perco-me nos diálogos com a raposa.

***

– Por mim não vejo razão para prosseguir.
– Não sei se terei saudades suas, mas do sofá…
– Esse seu sentido de humor é uma constante. Não fará as outras pessoas duvidar sobre se fala a sério ou não?
– Julgo que não. Quando é para falar a sério falo. Ou será que o bom doutor também se perdeu em dúvidas?
– Não. Tem razão. O seu discurso bem disposto é discernível.
– Tanto melhor. E ficamos por aqui então?
– Na minha opinião profissional, sim. E não deixe de passear por aí. Apanhe sol e ar.
– Sol e ar, mas isso é fácil, é o clássico produto turístico nacional!
– Então não vai ter dificuldade nenhuma em cumprir essa tarefa.
– Essa não, enquanto houver sol, mas vão sempre existir coisas que aborrecem, qualquer dia dou por mim de volta às conversas consigo.
– Será sempre bem-vindo, mas já ultrapassou um bom conjunto de coisas, não está igual ao que era quando começámos as sessões, a ideia é encontrar mecanismos que lhe permitam pacificar todos os sentimentos negativos que possa ter. Mas é como lhe disse, venha se precisar, será sempre bem-vindo.
– Obrigado caro doutor, obrigado. Bom, então é tudo mesmo. Vou começar já já pelo sol e pelo ar.
– Isso. Felicidades. E aproveite, que o dia hoje está bom, eu é que não posso sair daqui, senão…
– Vou eu aproveitar por si!

***

Perdi a conta às vezes que subi as escadas – o que se revelaria fisicamente benéfico – e esperei sentado na sala-de-espera daquele consultório. Nunca esperei muito. Não havia televisão nem as revistas do costume. Uma música baixinha e o jornal do dia. Para as poucas cadeiras que ali havia, era quanto chegava. E nunca esperei acompanhado. Havia, decerto, um tempo-tampão entre cada visita daquele consultório. Como se servisse para que os problemas de uns não se misturassem com as amarguras de outros. Socializar-se-ia da porta para fora. Mas ali não. Aqueles poucos minutos de espera antes de entrar para as conversas de fim-de-tarde – salvo uma ou outra excepção – eram bons para arrumar as ideias depois de um dia cheio de confusões. Ao fim de um tempo, ouvia-se na escada uma porta fechar-se. E pouco depois abria-se outra. Era chegada a minha vez. Naquela sala do sofá fantástico com vista para a cidade, onde toda a ideia de sala escura era completamente desmontada.

No final uma de duas coisas pode ter acontecido. Ou ele se fartou de mim, ou eu despojei-me de tudo o que carregava. As mágoas da vida não se esquecem nunca. Apaziguam-se. Misturam-se com outras memórias, eventualmente diluem-se. Como água em cima de aguarela. Esbatidas pesam menos na imagem, mas sempre lá estão. São mensagens subliminares. Servem para nos lembrar quem somos, aquilo que fizemos. Para aprender. Reconhecer os sinais de novo erro e conseguir evitá-lo. As mágoas da vida são chicotadas quando acontecem, e professoras amigas mais tarde, quando tudo se apaziguou. A paz de uma dôr que passou pode ser um conforto imenso, anos mais tarde. Os sinais de perigo são reconhecidos. Temos tempo de agir. Antes de novas chicotadas. É assim que se consegue ir juntando cada vez mais pedaços de felicidade, evitando dissabores. Sem dores nenhum momento feliz é devidamente aproveitado. E mesmo assim, perdem-se tantos. Porque são simples. Como se apenas as coisas complicadas nos marcassem.

Mas eu não preciso de coisas complicadas para ficar marcado. Quero encher a minha memória de coisas doces, pequenas, sem engenhos difíceis de entender. Como os teus cabelos escuros ondulados ao sabor de brisa quente, um laranja de crepúsculo que te ilumina a face, ou os teus olhos verdes e castanhos com que me olhas. Ou a memória de quando me dizes que me amas, quando nos aquecemos numa noite fria. Simples e frágeis, são esses momentos que quero guardar, porque me dizem bem quem somos e dão um real chuto no cú de todas as mágoas que possamos ter.

E penso nisto enquanto tu aproveitas mais alguns minutos na cama. Lembro-me das primeiras vezes. As primeiras noites que passámos juntos. E fico feliz porque nada mudou. És a mesma pessoa por quem me apaixonei. Tardiamente, é certo, mas de forma certeira. Não troco isto por nada. Estar aqui contigo deitado, poder olhar-te, cruzar as minhas pernas nas tuas, sentir os teus pés, chegarmo-nos mais perto para o primeiro beijo da manhã. Poder dizer um “amo-te” que me custou tanto conquistar. Noto que acordas com os primeiros sinais da ventania que se levanta lá fora.

***

– Bom dia amor.
– Que horas são?
– Nove.

***

Aproveitas mais cinco minutos na cama enquanto eu me levanto. Nove horas da manhã vinte e dois anos depois de ambos dizermos o “sim” a uma série de coisas para toda a vida. Um “sim” cheio de esperanças, promessas, expectativas. As coisas que sempre quisemos ter, o nosso cantinho privado, a cama larga para nos podermos esticar à vontade, ainda que, invariavelmente, sempre acordassemos num total desperdício de espaço. Vinte e sete anos depois de ter entrado pela primeira vez no consultório do bom doutor, para lhe falar dos meus problemas há muito apaziguados, das minhas birras com filipinos de tamanho diminuto, para lhe falar de tantas e tantas coisas que nos ocuparam durante vários meses naquela sala despojada, saudoso sofá, com uma paisagem aberta, urbana mas ainda assim muito agradável. A mesma paisagem que nós temos agora, com duas décadas de mudanças e um ângulo diferente. Mais ao lado, e mais acima.

E hoje muito cinzenta. Uma manhã fria, invernal, onde durante alguns minutos lembrei o que havia sido, e o que era. Numa varanda larga e comprida. Com a cidade toda à minha frente. Imagino que estivesse bastante movimentada mas não lhe dei especial atenção. Nem reparei que chovia. Estava totalmente perdido nos meus botões. Os botões que seguravam as minhas ideias presas umas às outras. E eram ideias de alguma forma cansadas, depois de uma noite mal dormida, em que sem qualquer razão aparente acordei com pesadelos. Foste uma querida, como sempre. Seguraste-me contra ti enquanto me beijavas lentamente a face e mexias nos poucos cabelos. Depois encostaste-me às almofadas, calçaste os chinelos, vestiste o robe e foste aquecer água para um chá tranquilizante. Trouxeste-mo de volta, bem quente. E para ti também. Bebê-mo-lo os dois soprando para não nos queimarmos, depois desligámos a luz do quarto e ficámos juntos, abraçados, trocando frases ligeiras e carícias. Adormeci primeiro que tu, desconfio. Não por ter mais mais sono que tu, apenas porque não quererias adormecer sem saber que eu estava a dormir bem, sossegado. Havia sido assim várias vezes ao longo da nossa vida. Mesmo depois de tanto tempo com o bom do doutor, depois de tantas coisas, havia sempre qualquer coisa que me revolvia os nervos. Não era muito difícil, e nunca pude dizer que estivesse curado. Na verdade quem por qualquer razão é ansioso nunca se cura, apenas tem momentos em que está melhor, e outros em que as nuvens se carregam muito e se fica mal disposto, em que há momentos de agonia, de tristeza, de sintomas mais ou menos específicos, que nem sempre sabemos se são de ignorar ou valorizar. E acompanhaste-me durante uma vida de tudo isso, sem arredar pé nem mostrar aborrecimento. E também por causa disso me permitiste ir levando melhor os dias, e os anos, e assim fui melhorando, levando cada vez mais tempo entre cada momento cinzento.

Lentamente, à medida que voltava aos meus sentidos o som da tua voz começou a fazer-se notar. Ouvia-te cada vez mais alto, mas não te percebia. Estava demasiado preso nas ideias que queria arrumar. Finalmente, cansada de chamar, abriste a porta atrás de mim e vieste, também tu, para a chuva. Descalça. Minha doce companheira, podias ter apanhado uma pneumonia, assim descalça e encharcada. Acho que foi só quando me gritaste ao ouvido e seguraste a mão que eu te dei atenção. Acordei de um pensamento demasiado profundo. Respondi-te perguntando «quê?» e enquanto as gotas da chuva colavam o teu cabelo à cara disseste-me «já chega. Acabou. Vem para dentro!»

@2006-01-15 00:55

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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