Psi

Parte III – Laranja

 

Passo-te a mão por cima, sinto a tua textura. O teu peso. O teu cheiro. Confesso. Admito que estou seduzido. Cheiras tão bem, cabes-me tão bem na mão. E essa côr… está perfeita. Aperto-te um pouco, tento descascar-te com cuidado para não te ferir. Mas por fim acabo por te trincar. Todinha. Céus, adoro laranjas! E a côr-de-laranja também. Devia ser o vermelho, por causa do signo. Mas não. Prefiro a côr-de-laranja.

***

– Bom dia, bom dia… como estamos hoje?
– Com esse seu plural não sei que lhe diga, eu estou bem. Já como o doutor está eu não faço ideia!
– Olhe, também estou bem disposto. E hoje temos um dia mais bonito que o último não é? Decerto não se sente tão cinzento como da última vez!
– Ah, não. De todo. Hoje, olhe, estou mais para o laranja!
– Até convém… está à procura de tacho?
– Oh senhor doutor, que viperino está hoje. Nada disso, não tem nada a ver com cores políticas. É a côr-de-laranja mesmo. Gosto muito sabe?
– Não sabia. E do fruto, também?
– Muito! Acho até que é o meu fruto preferido. Olhe, lembro-me de uma papa que a minha mãe me fazia em bebé, e que eu ainda hoje faço de vez em quando, com banana e bolacha-maria esmigalhada. Mas é aquele fiozinho de sumo-de-laranja que dá piada e sabor! E um bom suminho de laranja natural com Pisang… ah, que bem sabe. Mas já lá vai muito tempo…
– Muito tempo desde a papa de bolacha?
– Não, isso até acontece várias vezes por ano. O que tem muito tempo é a bebida com laranja e Pisang. Deixei-me de álcool.
– Mas porquê? Tinha algum problema com álcool?
– Não. Nenhum, graças a Deus. Foi só por causa de uma medicação. O doutor bem devia saber, coisas para nervos e álcool não são boa combinação.
– Não são, de facto. Fez bem em deixar o álcool de lado. Embora uma bebida ocasional não lhe fizesse especial dano…
– Admito que sim. Mas como não lhe sinto falta, cortei-o de todo. Agora é mais água e suminhos. Enfim, um insulto para todos aqueles que se dizem macho-man.
– Eh, pois. Imagino que considerem essa sua opção demasiado radical!
– Bem… quando o rei faz anos há um espumantezito ou um copito de tinto. No máximo uma cervejita muito ocasional. Mas é muito, muito raro. Uma vez no ano. Talvez duas. Não mais.
– Está bem. E as laranjas? Entrou aqui entusiasmado com as laranjas, fale-me lá disso… se quiser, claro!
– Não há muito a dizer senão que gosto muito delas. Mas as laranjas, doutor, querem-se comidas isoladamente. Ou então em sumo. É que se as comer, a segunda laranja nunca me sabe tão bem como a primeira. Mas em sumo não há esse problema.
– As primeiras coisas têm um gostinho especial, parece…
– Nem todas, seguramente. Olhe, um pastel de nata comido a seguir a outro sabe-me tão bem quanto o primeiro!
– Valha-nos essa excepção!
– E muitas mais. As primeiras coisas só marcam porque são novidades. Mas não significa que sejam as melhores. Aliás, digo-lhe, acho isso muito discutível. As boas coisas surgem com a repetição. Sempre se aperfeiçoa, não acha?
– Depende do que estivermos a falar.
– Já não é de laranjas, mas também não interessa.
– Está bem. E então meu caro, hoje vamos enveredar porque caminho?
– Pode ser pela vontade de apertar?
– Como?
– Vontade de apertar! De certeza que já lhe aconteceu…
– Err… Hmmm, bem, mas apertar o quê?
– Alguém doutor! Apertar alguém! Há pessoas que só nos apetece apertar! Mexer! Como bonecos. Credo, devem ter mel.
– Ah! Bom. Assustou-me um pouco por momentos!
– Refiro-me à vontade de mexer. Aquelas atracções…
– … sim, já o entendi.
– … óptimo.

***

Vendo-te hoje no álbum da minha memória nunca poderia supôr que um dia estaria assim. Contigo. Uma figura encolhida, volumosa, escondida nos óculos, no cabelo e num casaco de ganga banal. Uma figura que, diria, queria passar despercebida aos olhos do mundo. Ou seria o contrário? Seria o medo de ser notada querendo, afinal, ser reconhecida? Ser amada? Arrebatada? Não sei. Sabes tu? Mas vendo-te hoje, recuando nas minhas memórias, é um espanto como tudo correu. Lembro-me como foste um mal-menor para a solução de um problema que precisava de solução. Eramos mais novos, a Faculdade era um Ovo que nos protegia. E o grupo! Que se formasse um grupo era a ordem! E quem escolher? Aquela figura parecia inócua, facilmente manobrável. Pensava eu, sempre avesso a trabalhos em equipa. Sempre julgando que as coisas bem feitas precisavam sê-lo por mim. Estava enganado. Escolhi-te por isso. Pensei que não serias entrave à minha personalidade. E no final tornámo-nos na melhor equipa de trabalho que podia haver. E um dia o trabalho não disfarçou mais a atracção que viria a instalar-se. E nunca pensei. Acredita que nunca, nunca pensei que um dia desse no que deu. Por todas as razões que conheces, e por esta altura algumas pessoas mais.

***

– Estou satisfeito consigo, sim senhor!
– Porquê doutor?
– Está… está com um ar muito contente hoje!
– É… de facto sinto-me bem hoje. Amanhã, quem sabe. Ontem sei eu. Mas hoje, hoje a sério que estou bem disposto. Algum dia teria de ser… não se pode estar indisposto ou cinzento todos os dias, não é?
– Não. Não pode. Ou podendo, não se deve.
– Pois, não deve. Mas hoje não é uma obrigação de boa-disposição. Não estou sob decreto régio para tal. De facto acordei bem disposto, e o dia ainda não me pregou nenhuma partida.
– Considerando que já estamos no final de tarde, talvez não pregue. Ainda há tempo para isso claro, mas vamos pensar que não, que o seu dia vai correr tão bem como me diz que tem corrido até aqui!
– Deus o oiça doutor, Deus o oiça!
– É um homem de fé!
– Tento ser, lá isso tento…
– E quer falar disso?
– Não. Hoje não.
– E então, de que falamos depois daquela introdução acalorada com as laranjas?
– Já lhe disse! Da vontade de mexer!
– Ah, pois, tem razão sim, já me tinha dito. Então diga-me, quem quer apertar afinal?
– Agora… agora já não quero apertar. Já apertei. Ah! Não. Ainda quero apertar. Mas com cuidado.
– E afinal quem apertou?
– Nunca lhe aconteceu conhecer alguém que você acha tanta piada que só lhe apetece andar de volta dessa pessoa e tocar-lhe, brincar com ela, agarrá-la? Isto deve ser químico, não?
– Admitamos que já me aconteceu, sim, mas prefiro que seja você a falar-me disso e não eu a contar-lhe as minhas experiências. E de facto há alguma coisa química nisso sim. Mas não diria ser essa a única razão.
– A única, talvez não. Mas uma razão importante, só pode ser. Acho que sou muito atento aos cheiros. Especialmente aos que não se notam, ou são ligeiros. Sei que as poucas mulheres com quem troquei algum tipo de intimidade eram agradáveis ao meu nariz. Inversamente, aquelas que me fazem torcer o nariz são as primeiras de que me afasto. A química é lixada.
– Assim como me fala do cheiro há outros aspectos que deve considerar. Aspectos mais culturais e menos ligados aos sentidos na sua manifestação mais primária…
– Sim, claro. Não quereria rodear-me de mulheres com vácuo cerebral!
– Vácuo cerebral?
– Sim! Vazias. Daquelas que um tipo diz uma bojarda qualquer e partem-se a rir e não entendem nada.
– Aí tem um factor de selecção que nada tem a ver com cheiros.
– Pois não, mas se forem muito inteligentes e cheirarem mal, já não as quero!
– Tem sorte você em viver num mundo onde há perfumes e desodorizantes!
– Qual quê!? Nah. Se o cheiro dela me agradar até o suor pode ser agradável! Bom, pelo menos dentro de certos limites…
– Ah bom… é como lhe digo. Há perfumes e desodorizantes!
– Não me diga isso que me faz pensar numa coisa…
– Sim?
– … que sou capaz de me ter apaixonado por um desodorizante!
– Estou pasmo!
– Quer dizer… o desodorizante dela pode ter sido o veículo…. acho que fui atraído pelo desodorizante. Mas depois funcionou o resto!

***

Quando a química funciona o nariz agradece. Tudo se torna agradável, ou quase tudo. De facto, com todas as mulheres com quem me envolvi – e foram muito poucas, sinal de selectividade ou falta de oportunidade, depende da perspectiva – a química era praticamente perfeita. Os seus odores eram todos bons, exceptuando alguns que não tive o privilégio de experimentar por razões que a mim parecem óbvias. Mas de resto, o hálito, o cheiro da pele, do cabelo, mesmo o suor, todos eram cheiros agradáveis. Só fui capaz de me aproximar de quem o meu nariz aprovava. Era ele o grande censor. Tu cheiras-me bem, passas. Tu cheiras-me mal, não me interessas!
A indústria cosmética sabe bem disso. Não que o meu nariz seja o grande censor, mas que todos os narizes, de homens e mulheres, são uma das maneiras mais fáceis de conquista – para além de um bom carro desportivo, cartão de crédito, bom jantar e muitas prendas. Há quem defenda que as mulheres nos conquistam pela barriga, com bons cozinhados. Não rejeito a teoria, mas não a coloco em primeiro plano. De entre as muitas coisas que numa mulher nos podem interessar, o que em primeiro lugar inclui mamas e… mamas – o cheiro delas é uma das mais importantes. Sem sombra de dúvida. Os aspectos físicos são os primeiros a ser notados, e precisam ser acompanhados de um bom odor. Seja ele totalmente natural, ou com uma ajudinha. A ajudinha que recebi mais recentemente foi de um desodorizante banal mas muito eficaz. E ainda por cima um desodorizante de homem! Mas que as mulheres muitas vezes preferem os perfumes masculinos não é uma novidade para mim. Atraente como magneto, aquele cheiro conduzia-me à portadora. E era ver-me perto ou totalmente agarrado a ela. A amizade e cumplicidade até ali criadas permitiam que me agarrasse a ela. Aliás, esta mulher é como um peluche. Apetece agarrar. E eu agarrei.

***

– De homem?
– Sim, desodorizante de homem!
– O engraçado disso é que já que o perfume o atraiu tanto podia correr o risco de andar atrás de homens que usassem dessa marca?
– Não me parece, ainda sei distinguir um homem de uma mulher, e claro que aquele cheiro não actuava sozinho!
– Como assim?
– Quer dizer… era e é um bom odor, mas não é seguramente a única coisa que ela exala… já li coisas sobre feromonas e dos efeitos que produzem…
– Ah, sim…
– … e por isso de certeza que não era apenas o desodorizante.
– Então pondo de parte o desodorizante e a tal sensação de querer agarrar um peluche o que é que o atraiu?
– Várias coisas, suponho eu. Uma delas é capaz de ter sido o tamanho!
– O tamanho?
– Sim. A altura. É pequenina!
– Anã?
– Não! Perfeitamente proporcional, pouco mais de metro e meio… faz-me lembrar uma música dos Ena Pá…
– Não costumo ouvir.
– «Não tinha mais de um metro e meio, e dava tusa ao passeio…»
– Pois, de facto não conheço.
– São uns palermas divertidos.
– Se o diz. Mas então, é pequena… e isso agrada-lhe porquê?
– É compacta. Olhe, sabia que a Kylie Minogue também é pequenina? E no entanto, tem cá uma imagem….
– Sim, isso sabia. Mas sabe bem o poder da televisão e de certos truques para lhes alterar a imagem…
– Sei pois. Mas são fantasias saborosas, pronto.
– Voltemos à pequenez da sua cara-metade. É lhe agradável porquê? Ou antes, foi-lhe agradável porquê?
– Não sei bem. Penso que uma mulher muito alta pode parecer mais elegante mas mais desconjuntada.
– Desconjuntada?!
– Sim… menos agradável ao toque, não sei explicar-lhe muito bem. As mulheres mais pequenas são mais compactas. Cabem em qualquer lado, dobram-se de qualquer maneira, são giras de agarrar, é maior concentração de carne por centímetro quadrado!
– Bom, se forem gorduchinhas sim… se forem magras deve dar no mesmo, não lhe parece?
– Deve ser. Mas mesmo assim… as pequeninas são melhores. E se quiserem disfarçar a altura há sempre os saltos altos.
– Os saltos altos na salvação da pequenez!
– Para as que sentirem algum complexo com isso… mas um bom salto alto…
– Bem sei…
– … faz maravilhas numa boa perna. Define-a. Ficam muito elegantes. Mas isso é assunto velho, não falei já consigo sobre isso? Não me recordo.
– Penso que sim.
– Enfim. Mas como lhe dizia, o cheiro foi uma coisa forte. Actuou seguramente. Mas não foi só isso, claro. A personalidade também conta. Em muitos aspectos, era um desafio.
– Ah, que bom, um desafio, conte-me.
– Um desafio porque era uma pessoa inteiramente nova para mim, com um conjunto de ideias diferentes e um comportamento muito… muito físico.
– Muito físico?
– Sim. Na medida em que cada poro da pele dela parecia exalar sexualidade. Ou deva eu dizer sensualidade, não sei bem.
– Hmmm… mas é uma pessoa insinuante?
– Nada! E isso é que tem piada. Muito discreta, aparentemente banal, mas muito atraente em certos contextos, e para quem se dá ao trabalho de o descobrir. Não lhe escondo que sou muito de me agarrar. Dizem que é do signo. Parece que os Carneiros têm essa mania. Agarram-se.
– Ah, é capaz, conheço algumas… bom, mas continue…
– E assim como os Carneiros são muito dados ao contacto físico, também parece que o Escorpião é malandreco… muito sensual. E deve ser mesmo. Só me apetecia andar agarrado à rapariga, veja bem.
– Pois, bem vejo.
– E acabou por ser assim, uma atracção bastante forte. Mas não podia ceder-lhe. Ou alimentá-la. Estava muito preso a outras coisas.
– Ah, sim, já falámos disso antes. Mas talvez fosse esse o caminho para se libertar, claro que na altura não o poderia saber.
– Mas bastar-me-ia viver as coisas um dia de cada vez, não seria assim? Levar o tempo todo a medir consequências e a pensar como serão as coisas… os prós e os contras… sou cauteloso, mas se chegar ao ponto de confundir cautela com obcessão, não sei não…
– A obcessão parece-lhe um risco na sua maneira de viver?
– Suponho que agora não. Aprende-se, não? Mas foi seguramente em outras alturas da vida. Pensando bem, estive obcecado. Não por uma pessoa ou relação mas por um ideal muito confortável. Não precisar procurar nada, nem construir nada. Por já ter tudo isso estruturado. A obcessão pelo ideal, não pelos objectos do ideal.
– Meu caro, parece-me mais comodismo!
– Ah, isso sou! Gosto das coisas certinhas, sabe? Detesto confusões e mudanças radicais. Até podia ser um velho-do-restelo veja bem!
– Mas então os Carneiros não são pioneiros e empreendedores? Essa analogia não é muito coerente.
– Penso que são. Que somos. Mas normalmente cansamo-nos dos brinquedos. O que nos faz vibrar é a sedução. A conquista. Mas é aí que eu sou um pouco diferente. A sedução e a conquista dão-me muita energia, e penso que sempre vibrarei com as memórias desses tempos, mas aprecio a estabilidade. Para se viver como um genuíno Carneiro é preciso andar uma vida inteira a saltar de um lado para o outro. E eu não tenho paciência para isso. Não é o tipo de vida que eu quero.
– O que é, afinal, que você quer?
– Ah, putas e vinho-verde, foi o que me fez lembrar…
– A sério, o que é que procura?
– Ora, doutor, o mesmo que toda a gente. Uma casa, uma mulher que seja mãe, amiga, amante, puta, um carro jeitoso, um trabalho decente, e outras tantas coisas que quando se juntam no mesmo saco nos dão a ilusão de poder dizer que somos felizes.
– Não acredita na felicidade? É uma ilusão para si?
– Acredito nos momentos felizes, não na felicidade contínua. Pelo menos não aqui nesta Terra.
– Entramos no domínio da fé?
– Não, não estou a querer seguir esse caminho com a resposta que lhe dei. O que lhe quero dizer é que o que temos aqui, enquanto vivemos, não é o suficiente para se ser sempre feliz. E não sei se isso seria bom. Que valor lhe dariamos depois? Nah… temos momentos felizes, sim. E o meu objectivo, aquilo que eu quero, é poder ter o privilégio de ter muitos e longos momentos de felicidade, para que se colem e distendam tanto quanto possível para engolir os momentos tristes. Para poder um dia olhar para trás e dizer que, tanto quanto os sentidos e a razão me indicam, fui feliz.

***

A felicidade como uma manta rota. É essa manta rota que eu quero ter. Mas com poucos buracos, para que ao longe tudo pareça um mar uniforme, sem grandes ondas. Globalmente feliz. Para poder aproveitar os momentos de simplicidade e beleza sem grande esforço. Sem andar a perder energias a combater grandes batalhas que uns dias depois ninguém mais lembra ou dá importância. E enquanto andamos distraídos a engolir ou soltar raivas desmedidas em lutas palermas, andamos a perder tempo em que podiamos estar entretidos com o pensamento feliz de alguém que queremos bem, com um passeio bonito, com um abraço contente, um beijinho saboroso numa cumplicidade qualquer. A minha manta rota de momentos felizes ficou muito mais rica contigo. Sem lutas, sem batalhas. O tal mar uniforme, globalmente feliz. Com passeios bonitos, com abraços cheios de verdade, beijinhos saborosos. Ao beijar-te como a minha laranja. O prazer do sumo que se forma na minha boca e me alerta os sentidos. Todos se satisfazem. Nenhum prazer é igual a outro. Há coisinhas pequenas que os diferenciam. A laranja faz-me momentaneamente feliz. Porque gosto do sabor. Porque me refresca. Tu fazes-me feliz, como a laranja, mas por momentos muito mais longos.

***

– E então agora, está feliz? Ou antes, já tem um conjunto de momentos felizes suficientemente contíguos para se dizer feliz?
– Ainda não. Falta muita coisa. Mas já tenho um bom começo, isso tenho.
– Não será muito exigente?
– Se há domínio em que me parece que se pode ter o direito de ser exigente é na nossa própria concepção de felicidade. Sou exigente pois. Sei o que quero, e não pretendo aceitar menos que isso. Mas, lá está, nada cai do céu. Excepto a chuva. E os aviões.
– E pontes…
– Ah senhor doutor, está muito brincalhão…
– Deixe. Continuando, falta-lhe o quê então?
– Não sei por onde começar… falta-me estabilidade profissional e tudo o que vem com isso. E a capacidade de não ligar a certas coisas. E dominar um bocadito mais estas ansiedades que não levam a lado nenhum.

***

Desviando o olhar por momentos para a paisagem pensei de novo na laranja. Apetecia-me uma. Mas em casa só tinha maçãs. Terminou a sessão por hoje. Uma despedida cordial, cumprimentos na recepção, escadas abaixo até à rua. E lá fui em direcção à loja mais próxima. À procura de laranjas. E de caminho peguei no telefone para o ligar e ver se tinha mensagens. Só uma. Era tua. Depois de a ler fiquei mais contente. E lá fui.

@2005-12-29 02:29

Posted in Crónicas curvas

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