Parte II – Cinzento

 

Como quem tem aqueles sonhos de voar na cama, ou de caír no abismo. Ou qualquer outro sonho que possa terminar em sobressalto. Acordei de repente com uma frase solta, «foi só um flirt», e virando-me para o lado fiquei de olhos abertos fixos na manta que cobre o meu sofá. A manta com os seus desenhos de moinhos, abelhas e mós numa paleta de amarelos, vermelhos, azuis, verdes e cinzentos. Um flirt. A revelação chegava de supetão. E com a revelação iniciar-se-ia o processo. O processo de transição. O caminho pelo qual nada ficaria igual ao que era.
– Olá, que bom ver-te. Como estás? Tenho saudades…
– Oi. Estou bem. Mas há dias e dias…
– Então, já tiveste melhores dias?
– Se calhar já, nos dias em que tudo corria sobre rodas.
– Porquê? Agora já não corre?
– Não posso dizer que corra. Porque eu fiz com que a minha vida desse uma volta de 180 graus.

***

– Ora bons olhos o vejam! Pensei que tinha desistido!
– Ora bom doutor, ia eu desistir a meio? – sorri.
– Podia acontecer…
– … não. Foram apenas férias. Não que tenha descansado grande coisa…
– Então não aproveitou para descontraír?
– … porque… não, nada. Bem queria, mas foi um verão a trabalhar.
– Então não foram férias!
– Em boa verdade não. Era forma de expressão… afastei-me de alguns compromissos mais regulares, mas passei muito tempo ocupado, e não fui para longe de casa senão a trabalho.
– Mas estar ocupado é bom para si!
– Suponho que sim. Melhor seria se fossem ocupações mais motivadoras.
– Não está motivado? Não se sente motivado para desempenhar as tarefas que lhe atribuíram?
– Pouco. É uma palhaçada. Do trabalho em si até gosto, mas quem mo pede tem uma agenda que é mais política do que científica. Têm sido anedotas seguidas a anedotas. Vale o meu sentido de humor!
– Valha-lhe isso então! Mas como lhe digo, é bom que esteja ocupado. Activo.
– Bem, de facto ando entretido. Por vezes até demais. Sabe como é, quando não há nada, não há nada. Quando aparece qualquer coisa, aparecem duas ou três…
– E isso não lhe agrada? As coisas andam tão complicadas que…
– … se fosse sinónimo de dinheiro, agradaria. Mas são coisas que levam muito tempo, os pagamentos chegam tarde e são magrinhos. Para pagar contas é difícil.
– Ah, pois. E isso deve afectar o planeamento da sua vida, naturalmente.
– Afecta, claro. Não se podem assumir certos compromissos. Nada que nos obrigue a encargos fixos.
– Quase tudo.
– É, quase tudo. Olhe, até estas conversas consigo ficam em perigo. Sem rendimentos, não há conversas com o bom doutor.
– Não me diga que lhe causo assim tamanho rombo nas finanças!
– Piores são os dentistas!
– Hmm, de facto. E apesar de se estar muito tempo de boca aberta não se conversa nada e ainda por cima pode ser doloroso. Mal por mal, aqui está-se bem melhor, não lhe parece?
– Sim, é melhor. Até porque as cadeiras de dentista não rivalizam com o seu confortável sofá.
– Isso, meu caro, é certo. Mas já que me fala do sofá recorda-me que tinhamos ficado, da última vez, a falar de coisas que o incomodavam. Já esgotou a lista de coisas incomodativas? E, é verdade, já fez as pazes com os mini-filipinos?
– Nunca! Filipinos só os de tamanho original! Bom, quanto à lista de coisas incomodativas seguramente não as esgotei. Bem suspeito que não estaria aqui consigo se as tivesse esgotado.
– E tem alguma coisa em mente para conversarmos hoje? Algo dessa lista?
– Tenho. Até tenho.

***

Os venenos. Não são apenas aqueles que entram em contacto com a pele ou que nos devoram as entranhas quando os ingerimos. Não são o 605-Forte, nem mordidelas de cobra ou cocktails de medicamentos mortíferos. São os venenos que nos entram no corpo por via dos sentidos e ficam na nossa mente a corroer. Levam tempo nessa actividade. Podem entrar depressa mas levam anos a saír. São venenos eficazes. E enquanto não nos livramos dele ficamos presos a sofrimentos.
– Eu era feliz, tinha grandes planos e de repente foi tudo por água abaixo…
– Então só me permites pensar que sou uma aparição negativa na tua vida.
– Não és tu que és a aparição negativa, eu é que… sei lá, quase que não me conheço. A mulher que eu conhecia, a mulher que eu pensava que era não fazia isto…

***

– Força então! Sou todo ouvidos. O que é que me traz hoje para conversarmos?
– O veneno!
– Veneno? Literal ou metafórico?
– Metafórico. Coisas que nos acontecem ou que fazemos e que causam estragos à nossa mente e ao nosso corpo.
– Interessante essa noção. De facto as coisas que o incomodam, inconscientemente, podem acabar por afectar-lhe o corpo. Não imagina o número de coisas que a mente provoca. Asmas, úlceras… enfim. Lembro-me de um colega meu que tratou um doente com uma úlcera apenas com um ansiolítico, e a coisa passou.
– Pois, de facto… os nervos são…. enfim. Mas é como lhe dizia. Hoje venho com os venenos em mente.
– E porquê?
– Porque hoje me apetece falar de… talvez do acontecimento mais traumático da minha vida até aqui.
– Para dizê-lo assim é porque na sua percepção foi de facto algo muito doloroso.
– Foi. Foi complicado de gerir.
– Que se passou então? Conte-me.
– Um misto de desilusão e vazio. Acordar para uma realidade que não concebia como possível. Ser traído de uma forma tão comum e vulgar como qualquer outro caso, vindo de uma mulher que eu imaginava livre de qualquer mancha.
– Ah, as mulheres!
– Partilho a sua exclamação, bom doutor!
– Mas continue…
– Foi uma traição cheia de veneno. Mentiras, omissões, dualidades. O típico de uma traição.
– Bom, as traições de facto envolvem a mentira. Se fossem claras e assumidas não seriam traições. A traição pressupõe ser-se o último a saber, não é?
– Não creio que seja. Há casos em que sabemos da traição em primeira mão. E é isso que me leva ao veneno. Fui envenenado!
– Céus homem, tentaram fazer-lhe…
– … não. Não é isso. Fui eu próprio que me envenenei. Porque soube que tinha sido traído quase em simultâneo com a traição, porque vivi meses na mentira, sabendo de tudo o que se estava a passar e tinha de agir como se nada se passasse. Eram explosões cá dentro todos os dias. Dias seguidos de desespero, de pulsações a galope, sei lá, ataques de pânico, uma desilusão agoniante, mas pela frente, no exterior, era sempre um sorriso e um “Amo-te” pronto a dizer. Era o que sentia, sabe?
– … hm hm…
– E por isso fui envenenado. Por saber tudo o que sabia, e não ter colocado um final imediato naquela relação. Estava condenada desde o momento em que ela me faltou ao respeito, ou antes, penso eu, no momento em que ela faltou ao respeito a si própria ao permitir que um terceiro elemento se metesse na vida dela e a tornasse numa mulher vulgar.
– Uma mulher vulgar? Porque é que diz isso com essa expressão tão marcada na face?
– Porque acho que ela foi uma puta. É o que me apetece dizer. Desculpe-me o vernáculo.
– Bom, exprima-se como entender. É importante que diga o que sente.
– É o que sinto. Que foi uma puta. Uma vulgar. Igual a todas. E eu que pensava que era especial. Reservada.
– São marcas de desilusão isso que vejo em si. Agarrou-se demasiado a uma imagem. Sabe que isso é perigoso? Bom, agora possivelmente já sabe…

***

Sabia. Naquela altura no sofá do bom doutor já sabia que nunca uma pessoa se podia, ou devia, prender a uma imagem. Não podia criar expectativas, ilusões. Não podia exigir nada. As pessoas são o que são. Boas, más, misturas entre extremos. Naquele momento eu já tinha aprendido que as pessoas aproveitam-se, disfrutam-se, um bocado de cada vez. Um pouco a cada dia. Sem grandes expectativas, para evitar que um dia esperemos da outra pessoa aquilo que ela não é, ou que ela seja uma imagem nossa num espelho e não a sua própria imagem.
Criamos ídolos. Um erro imenso. Idolatramos as pessoas como se fossem deuses, como se fossem bezerros de ouro adorados em altares. Criamos uma imagem de perfeição que esperamos ver correspondida todos os dias. E quando não recebemos dos outros aquilo que esperamos ficamos com uma imensa desilusão. É nesse momento que doi muito ver a mulher que um dia pensavamos poder ser a nossa companhia para a vida e mãe dos nossos filhos transformada numa puta. Que pejorativo… uma puta… que raio quero eu dizer com isso… que raio é uma puta. Uma mulher de virtudes negociáveis? Sim, também. Mas neste caso especialmente puta com aquele sentido de promiscuidade. E isso doi muito. E se ficamos a saber disso e não fazemos nada, se tentamos salvar essa relação ou se fingimos nada saber, estamos a cultivar o veneno. E o veneno cresce. Espalha-se. E quando está espalhado começa a fazer estragos profundos. Até que o tempo leve tudo embora, o entendimento se abra e o veneno se vá embora. Empurrado.
– Ninguém tem de pagar pelas tuas asneiras? Não verás tu o que já fizeste? É demasiado tarde! Não há volta a dar, já estamos todos a pagar. Estamos demasiado enterrados nisto. Já estamos a pagar. Desistir agora é ter sofrido por uma causa perdida. É só isso que vocês sabem fazer? Dar-nos causas perdidas?

***

– Sim, agora bem sei. Pensamos sempre nas coisas como se fossem eternas.
– Foi o seu caso? O que é que imaginava eterno? A sua relação? Ou a capacidade de resistir a todas as tentações…
– Tudo. Imaginava tudo perfeito e eterno. Pensei que fosse durar a vida toda, e que nunca a tentação fizesse qualquer estrago. Como estava enganado…
– E não lhe parece um passo importante ter aprendido que as eternidades são muito relativas? E sobretudo ter percebido o engano. É muito provável que isso lhe impeça futuras percepções erradas.
– Não teria muito a certeza disso, posso garantir-lho.
– Não?
– Nada. Há erros que se cometem várias vezes.
– Quer exemplificar?
– Claro. Ia lá negar-me… amar é um. Bom, não é um erro. Mas a forma de amar pode ser errada. Repare como ficamos agarrados às pessoas que amamos. Depois de algumas experiências, como a que de que temos falado, seria de aprender a não ficar agarrado a ninguém. Mas olhe que…
– Hmm…
– … não é nada assim. Amamos uma vez, levamos um balde de água fria em cima e quando voltamos a amar estamos novamente agarrados. Deve ser como as drogas. Tem ressaca e tudo.
– Sim, mas…
– … mas para completar o que me perguntava há pouco, imaginava que a relação seria eterna e que os sentimentos que lhe serviam de base seriam sempre fortes o suficiente para impedir que qualquer um de nós se deixasse levar por outras caras bonitas.
– Esse sentimento de eternidade era fruto de amor ou poderia ser já algum acomodamento? Já me disse em outras ocasiões que essa relação era antiga. Interrogo-me, e desafio-o a pensar, se isso seria o perpetuar de algo estabelecido e cómodo ou um desejo derivado de um sentimento muito vivo e actual.
– Não sei exactamente o que lhe dizer. Amor havia. Não duvido que havia. Mas não posso excluir essa sua ideia de comodismo. De facto era confortável. Estava-se bem naquela relação. Bom, pelo menos a partir de certa altura…

***

Causas perdidas. Será que tudo o que nos dão são causas perdidas? Para chegarmos ao ponto de perguntar algo assim é porque as vezes que vimos o fracasso foram já muitas. Parece que nos fazem muito isso. Apaixonar-se-á o homem mais que a mulher? Tenho dúvidas disso. Como posso eu afirmar algo assim de ânimo leve. E logo em relação ao Amor. Não posso. Mas vejo tanto disso em meu redor… quantas vezes são os meus amigos que ficam presos a sentimentos que os colapsam enquanto elas, friamente, se pavoneiam com aquele poder antigo mas recentemente assumido de quem tudo pode e tudo manda. O Amor é o domínio das mulheres. Elas mandam. Deste lado da barricada eu penso em sintonia com os meus companheiros de trincheira. Os meus gritos de guerra são o eco de todos os que tombam e jazem ao meu lado. O Amor não tem armas. Nem munições. Não há morteiros a rebentar a terra ao lado do abrigo. Mas temos arame farpado em quantidade. Picamo-nos, sangramos, insistimos em rastejar pelo chão sem esperanças de ganhar, até chegar à trincheira que está para lá do que conseguimos ver. É uma teimosia insana. Lutando por causas perdidas.

– Já te disse que é tarde. No momento em que te entregaste à sedução começaste a fazer sofrer a primeira pessoa. E agora com estas incertezas todas é a mim que fazes sofrer. Não te entendo.
– Já te disse. Não quero fazer sofrer de novo. Queria tanto saber o que está certo… até podem ser coisas normais, coisas da vida, mas está a destruir-me por dentro.

***

– Quando é que essa relação começou a ser confortável?
– Quando se assumiu. Quando se definiu. Quando passou a ser encarada como uma certeza, algo imutável, com horizontes.
– Pelo que entendo nem sempre foi assim convosco…
– Nada mesmo. Foram anos seguidos de caprichos.
– Caprichos?
– Sim. Bom, pelo menos da forma como eu os vejo. Foram anos de namoros intercalados com supostas amizades que acabavam por resultar em amizades coloridas e eventuais namoros ou compromissos tácitos. Mas quase clandestinos. Uma espécie de acordo de exclusividade, que talvez apenas o fosse porque nunca ninguém tinha despoletado atracção especial nela. Ou em mim. Em mim confesso que seria difícil, estava demasiado entranhado no vício. Aquela mulher era um vício.
– Passamos dos venenos aos vícios… porque razão era viciante?
– Porque era atraente. Era – e suponho que ainda seja – bonita, razoavelmente elegante, tinha um cheiro natural que me agradava muito e parecia-me reservada. Uma fonte limpa!
– Espere… há muita coisa aí que quero que me explique melhor.
– Ora, não me diga que o confundi.
– Não, não é isso… há aí muitos conceitos interessantes.
– Bom, diga-me você quais…
– Notei, em primeiro lugar, que falou dos aspectos físicos e só mais tarde de coisas mais pessoais, mais íntimas.
– Sim, talvez de forma involuntária… não sei…
– Depois falou do cheiro… e fala-me em fonte limpa. Explique-me isso da fonte limpa.
– Bom… a fonte limpa… não era uma mulher promíscua. Acredito que não era. Não naquele tempo.
– Sexualmente?
– Sim. Fisicamente. Não era pessoa de muitos homens. Era eu e outro. Mas comigo, penso eu, descobriu algumas boas sensações. A intimidade, de uma forma mais séria, se é que a posso colocar nestes termos, foi comigo que a teve. E de facto, para mim, era muito bom saber que estava a partilhar o meu corpo com uma mulher que não andava a fazer rodagem ao motor…
– Ah! A analogia é…
– … é para evitar outras analogias. Ou expressões.
– Entendo. Mas então, as vossas aproximações eram caprichos? De quem?
– Dela. Eu estava sempre disponível. Habituei-a a isso. Mea culpa. Dá-me ideia que era quando ela estava mais carente de contacto, de carinho, que vinha sempre ter comigo. Criava as condições para que eu me sentisse um sedutor. No fundo era tudo uma grande treta. Não precisava seduzir quem já vinha seduzida, ou de pernas abertas.
– Gastou as analogias todas.
– Gastei! Bom, mas então dizia eu, eram caprichos dela. Eu estava ali à disposição. Quando não lhe apetecia mais eu ia para a prateleira. E essas aproximações como lhe dizia há pouco eram compromissos privados, amizades coloridas no seu melhor, mas não constituiam qualquer vínculo, não eram assumidas, não davam certezas de nada. Eram muito desconfortáveis, para mim pelo menos. Eu procurava algo sério. Queria namorar e seguir em frente.
– Sabe porque razão ela não o queria?
– Sei tantas razões possíveis que acabo por não saber nenhuma. E nada me garante que ela o saiba. Sei que em ocasiões diversas era a carreira que estava em primeiro lugar. Primeiro os estudos e a profissão, o amor depois. Mas isso parece ser característica do signo dela…
– Para quem acredita nisso…
– … e em outras ocasiões chegou a revelar-me que tinha medo de se relacionar comigo e um dia descobrir que a pessoa certa para ela andava por aí à solta.
– Hmm… é perigosa essa ideia da pessoa certa. O que é que lhe dizia para refutar esse argumento?
– Que a pessoa certa era um mito. E que se fosse pautar a vida dela por aí, corria o risco de ficar sozinha a vida toda. E que mesmo que encontrasse um dia alguém que a fizesse tremer ao vento, essa pessoa não poderia tomar o lugar de alguém que um certo dia tinha sido a pessoa ideal para aquele momento, e com quem tinha construído coisas.
– Parece-me bem… e deu resultado?
– É capaz de ter dado. Mas não sei se foi isso. Um dia lá se decidiu, e parecia apaixonada. Quero acreditar que estava mesmo apaixonada. Foi um namoro muito agradável no começo. Depois ela esfriou. E talvez eu tenha esfriado também. Nunca consegui ser ao pé dela o que sou com outras pessoas. Com ela tinha de ser sempre o senhor certinho. O bom namorado para mais tarde ser o bom marido e o bom pai. Mas acabava por ser um quadrado. Quantos bons momentos bem humorados houve que ela nunca assistiu. Era capaz de meter todos os meus colegas a rebolar de riso, mas com ela nenhuma boa piada me surgia… enfim.

***

Sei onde foi, e quando foi. Sei muita coisa. Mas isso não me impediu de fazer a coisa certa. A informação é poder, mas sem discernimento não serve de nada. E eu que tanto sabia não soube o que fazer. Fui ignorante. Sei onde foi e quando foi que percebi que o final estava ali. Era uma porta para entrar, ou para saír. Eu entrava no fim. Ela estaria a saír de mim. A mesma porta, duas coisas diferentes. Foi numa conversa molhada com lágrimas que se selou o final. Não um final efectivo. Esse viria mais tarde. Tantas vezes eu lhe disse que era uma tentação aquilo que ela estava a sentir. Tantas vezes eu lhe disse que a ajudaria a ultrapassar tudo, se valesse a pena. Eu mantive os meus braços abertos durante muito tempo, até me doerem e não conseguir mais. Tinha um abraço e um beijo guardados para lhe dar. Não os aproveitou. Foi a novidade, o encanto de um brinquedo novo, de sensações inéditas. Foi sentir-se mulher, atraente, levada para fora de uma relação que talvez lhe tivesse fechado os horizontes. Talvez para ela a sensação de estar para sempre com a mesma pessoa fosse muito redutora. Talvez quisesse manter-se livre para experimentar. Quem sabe dizer. Nem ela. De certeza que nem ela o sabe.
E depois da novidade, depois do prazer de um sexo clandestino, fica o quê? Exactamente o quê? Mas tudo isso faz parte de uma cadeia de acontecimentos que não se podem mudar. E mesmo que se pudesse, querer-se-ia?
– Eu queria manter uma amizade. Nunca pensei que fosse mais longe.
– Então está entendido. Agora percebo-te. É tesão? Foi tesão, não foi? Foi só sexo?
– Não… não para mim.

***

– E depois? O que aconteceu?
– Bom, em linhas muito gerais, ela conheceu um tipo e pronto. Eu passei à história. Fui para segundo plano… ou enésimo plano. Olhe, deixei de estar em plano!
– Como assim?
– Deixei de merecer a mesma atenção. Mandava mensagens e não tinha resposta… as vezes que estavamos juntos pareciam frete. Com ele não. A atenção era toda para ele. E pronto, lá veio o dia em que fui traído de uma forma mais… concreta.
– Traição mais concreta? Explique lá isso. Você hoje está…
– Bem, traír-me já ela tinha traído desde que deixou que o outro gajo se metesse onde não devia. Se ela não tivesse qualquer interesse ter-lhe-ia metido travão em boa altura. Mas não. Foi cedendo aos avanços. Isso para mim já foi uma forma de traição. De falta de respeito. Mas a tal forma mais concreta que tanto o intrigou foi a traição física. Os beijos, o sexo, a entrega. E muitas mentiras e omissões à mistura.
– Uma típica traição então!
– Sim, se é que se pode considerar uma traição típica. É capaz de ter diferenças caso a caso.
– Seguramente!
– Mas o filme acaba quase sempre da mesma maneira. Ela foi com ele e eu fui com os porcos. Embora temporariamente.
– Temporariamente quem? Ela com o outro homem ou você com os… com os porcos?
– Os dois. Ela lá acabou por perceber que não estava bem ali e eu acabei por trocar a companhia dos porcos por algo bem mais agradável, em todos os sentidos.
– Mas então o balanço não é de todo negativo!
– Hm, é chato. Quer dizer… as coisas são como são, e tinham de ser assim. Hoje não quereria voltar atrás, penso que fui brindado com algo melhor, mas a pessoa sofre muito, desilude-se muito…
– Essas feridas custam a passar, mas um passo importante é poder falar sobre elas e procurar entendê-las. E ser apoiado nisso é fundamental.
– … e… ah, sim, nisso sou apoiado sim. Hoje tenho comigo alguém com quem posso falar muito bem e me ajuda muito. Devo-lhe muito.
– Não penso que deva encarar essa atenção como justificação para dívida de gratidão mas sim como parte da convivência que, se bem entendo, veio a conquistar.
– É… dou-lhe razão.

***

As coisas recentes causam em nós uma revolta que nos impede de pensar com a calma necessária para melhor entender os acontecimentos. Estamos demasiado agitados. E mesmo que tenhamos razão nunca conseguiremos manter um discurso coerente, calmo, capaz de trazer consigo a razão que se tem. Perde-se a paciência, dizem-se coisas que não se quer dizer e a razão fica perdida. Se do outro lado, na trincheira inimiga, estiver uma pessoa astuta, então essa falta de paciência transforma o lobo-mau em vítima. E nós, que tinhamos razão, passamos a ser o lobo-mau. Se vivemos alguma coisa que nos traumatiza é normal que fiquemos com uma visão distorcida durante algum tempo. Mas depois, quando ganhamos a distância necessária, somos capazes de olhar para trás e ver as coisas com as suas verdadeiras cores. Sejam elas a côr da tentação, da maldade pura, da ignorância, inércia, do amor, qualquer côr. E se hoje eu vejo que alguns males são necessários, nem sempre foi assim. Mas hoje eu vejo. E entendo. Que não se pode perpetuar o que não tem fundamento. E quando alguma coisa não tem de ser, se a forçarmos apenas estaremos a adiar o seu final. Mas sempre acaba. Só o que tem de ser, é.
– Vem comigo hoje.
– Não posso… estou cansada. Vou-me embora. Amanhã?
– Sempre.

***

– Estamos quase a esgotar o nosso tempo por hoje.
– E ainda bem doutor. Estou cansado. O dia foi leve mas estou cansado. Deve ser do tempo. Este tempo deixa-me sempre em baixo, até a cabeça me doi.
– É, está um dia esquisito.

***

Girando a sua cadeira e com um impulso da perna o bom doutor lá se moveu para junto da janela. Foi nessa altura que me disse que estava um dia esquisito. Enquanto observava o dia cinzento com nuvens e vento. O Outono tinha chegado. E eu que até gosto do Outono estava cansado. Dias cinzentos tornam-me cinzento. Mas os dias cinzentos são como tantas outras coisas que nunca duram para sempre.

@2003-10-02 18:11