Parte I – O sofá

 

Vigésimo segundo andar. Uma varanda larga e comprida. A cidade toda à minha frente. Imagino que estivesse bastante movimentada mas não lhe dei especial atenção. Nem reparei que chovia. Estava totalmente perdido nos meus botões. Os botões que seguravam as minhas ideias presas umas às outras. Lentamente, à medida que voltava aos meus sentidos o som da tua voz começou a fazer-se notar. Ouvia-te cada vez mais alto, mas não te percebia. Estava demasiado preso nas ideias que queria arrumar. Finalmente, cansada de chamar, abriste a porta atrás de mim e vieste, também tu, para a chuva. Descalça. Minha doce companheira, podias ter apanhado uma pneumonia, assim descalça, e encharcada. Acho que foi só quando me gritaste ao ouvido e seguraste a mão que eu te dei atenção. Acordei de um pensamento demasiado profundo. Respondi-te perguntando «quê?» e enquanto as gotas da chuva colavam o teu cabelo à cara disseste-me «já chega. Acabou. Vem para dentro!»

***

Entre. Entre e sente-se, disse-me. Vai achar o sofá muito confortável, estou certo disso, disse-me com um sorriso ensaiado, de quem está habituado a sorrir daquele modo sempre que alguém entra naquela sala pela primeira vez. «Passamos aqui tantas horas fechados que o conforto é essencial», e nisso eu estava totalmente de acordo. Recém-chegado, não sabia quantas horas seriam as minhas ali fechado dentro.

– Não acredito muito em Psis, sabe? Acho um desperdício. Pagar a alguém para me ouvir falar. Será assim tão aborrecida a minha conversa?
– Não creio que venha aqui pagar para ganhar o direito de falar. Não será antes a procura de uma análise aquilo que procura?
– Não sei. Isto é mais para descargo de consciência. Dizer que fiz o que parecia correcto. E sei que é o que querem que eu faça. Talvez à minha volta se sintam mais tranquilos sabendo que o venho visitar – importa-se que chame a isto visitas? – de vez em quando…
– Chame-lhe o que quiser. Eu prefiro chamar conversas. Podem ser aqui, ou noutro local qualquer. Nunca me imaginei um Psi vulgar. E se realmente considera que vem cá para conversar, podemos fazê-lo em qualquer local.
– Não vale a pena. Pelo menos para já. Este sofá é de facto confortável.
– Então muito bem. Se está confortável podemos começar, não perder tempo. Eu tenho muito. Para o ouvir.
– Tanto quanto o dinheiro pagar.
– Como queira. As pessoas procuram-me porque querem respostas. Mas as respostas estão dentro delas. Elas sabem, desde que entram aquela porta – e mesmo antes disso – qual é a solução para os seus problemas. Mas não chegam lá sozinhas. Não se conseguem convencer da resposta que possuem, não acreditam possuí-la, ou então não pensam que seja a única. Querem certezas. Querem que alguém lhes diga como resolver os seus próprios problemas. O meu papel é esse. As pessoas falam, e eu argumento com elas de uma forma que me permita demonstrar-lhes que a resposta está em sua posse. Eu abro portas. Na verdade, não sou um Psi. Sou um porteiro!
– Tenho uma mente muito complexa senhor doutor, posso vir a dar-lhe muito trabalho como porteiro. Não prefere manter-se simples Psi? Basta-lhe repetir o que eu digo. É a ideia que eu tenho dos Psis. Se eu digo que tenho um problema de infância você a seguir vai dizer-me algo do tipo «Entendo, você está a dizer-me que tem um problema de infância, elabore!», e se eu lhe disser que o problema de infância é o medo do escuro você dirá «Sim, percebo… o seu problema é o medo do escuro…»
– Mas que visão tão redutora – novo sorriso -. Verá que não é bem assim. Mas você tem algum problema com o escuro?
– Não, não tenho. Era um exemplo. Mas se quer saber, sinto-me melhor onde há luz, excepto se me doer a cabeça.
– Hum, sim, muito bem. Os minutos passam, e não estamos a ir muito longe. Se me procurou, como outras pessoas procuram, é porque precisa de respostas. Já lhe disse que, como porteiro ou psi, a minha tarefa é abrir-lhe portas. Portas para o entendimento. E o que precisa entender é aquilo que o oprime. Vamos tentar descobrir as causas dos seus problemas?
– Seria útil. Se soubesse que problemas são. Nem esses identifico totalmente. Muito menos as causas.
– Está convicto disso? Pense melhor. Que coisas o incomodam?

***

Incomodava-me o curso que a minha vida tinha tomado nos anos recentes. Agora que penso nisso compreendo que houve um conjunto de transições que não correram bem. Não tive capacidade de reacção. Fiquei inanimado. Uma espécie de suspensão criogénica. Não do corpo, mas da mente. Com todas as sinapses congeladas a reacção era nula. Tudo se passava ao meu lado e eu não tinha capacidade de reacção. Umas coisas mudavam, depressa de mais. Outras, terminavam sem perspectiva, outras aconteciam sem suspeita. E tinha de perceber, para poder responder, que coisas me incomodavam. Talvez soubesse. Tentei articular umas ideias. Não sei se com grande sucesso.

***

– Entre! Ponha-se à vontade. Quer ouvir alguma música ou conversamos com o silêncio como fundo? Hoje tenho aqui música boa. Depois da nossa última conversa trouxe para o gabinete coisas que sei que você gosta. Afinal temos gostos semelhantes.
– Haja alguma semelhança, que estas conversas com psis têm algo de distante.
– Ninguém aqui vem para criar amizades. Só para resolver coisas. Quando estão bem vão por aquela porta e não voltam. Se assim não fosse era um homem cheio de amigos. Mas seria impraticável.
– Entendo. Bom, então se puder ser, hoje conversamos um pouco ao som de Zero7.
– Pode ser sim. Pensou um pouco nas coisas de que conversámos da última vez?
– Penso que sim, o suficiente!
– Então retomamos onde ficámos na última conversa. Eu perguntei-lhe o que o incomodava e achei-o pouco seguro. Talvez não seja apenas uma coisa, mas um conjunto de coisas. Mais tarde vamos tentar encontrar a importância de cada uma dessas coisas, se realmente forem várias. Para já, vamos tentar identificar que coisas são. O resto virá depois.
– Não tenho pressa. Aliás, é bem possível que adormeça neste sofá se a conversa não adquirir um certo dinamismo, sabe…
– Então seja, diga-me então. O que é que o aborrece profundamente?
– Bom… olhe, aborrece-me uma coisa… não ando a escrever uma merda ultimamente! Ou antes, só me sai merda… bom, desculpe.
– Não faz mal. Mas porque lhe parece que as coisas que escreve não têm, digamos antes assim, a qualidade que pretende?
– Porque não sinto que tenham. Não sou escritor sabe… apenas me sirvo da escrita, de vez em quando, para lançar umas ideias ou despejar alguma coisa que esteja presa na garganta. Sinto que quando escrevo bem a coisa sai com ímpeto. Mas ultimamente… pareço incapaz de escrever coisas que prestem. Que alguém tenha realmente interesse em ler…
– As pessoas têm interesses diferentes, talvez aquilo que pensa ser mau possa realmente ter interesse para alguém, não estará a ser demasiado severo consigo próprio?
– Possivelmente. Mas essa sua pergunta é algo previsível. Como lhe disse, desconfio sempre dos psis. Parece que há uma cartilha de perguntas pré-concebidas!

***

Esboçando um sorriso o bom do psi lá encaixou a minha piada das cartilhas de perguntas, de lugares-comuns. E a conversa manteve-se no mesmo tom. Eu a queixar-me da qualidade da escrita e ele a tentar fazer-me compreender que talvez fosse mais importante a opinião do meu público. Público? Sim, certo que existe, um público escondido atrás – ou à frente – dos seus monitores. Sabe-se pouco deles. Raramente dão sinais de vida. Chegam, lêem o que há para ler e afastam-se em direcção a outro sítio qualquer. Alguns levarão consigo o assunto da escrita para pensar mais tarde. Outros nem ligam. Há concerteza aqueles que pensam que tenho razão e aqueles que sorrindo pensam que estou totalmente errado. Talvez a verdade esteja a meio caminho. Mas existe um público sim senhor. E preocupa-me que possam estar a ler uma boa quantidade de merda, e que parte dessa merda seja minha. Por fim, para meu consolo, percebo com a ajuda do bom doutor que se o público achar que a minha escrita é má, deixa de ler. Deixam de ser público. Vaporizam-se. E então a minha merda passa a ser apenas minha. Cessam as partilhas.

***

– Mas então fico sem público?
– Sim, se acha que não se interessam porque a escrita é má, então não se pode dizer que tenha um público durante muito tempo. Talvez apenas leitores ocasionais. Parece-me ter notado alguma apreensão com o facto de ficar sem público. Se não é escritor e escreve porque lhe apetece, incomoda-o não ter quem o leia?
– Bom… claro. Se ninguém lesse, não escrevia. Não, não estou a ser totalmente sincero comigo próprio, ou consigo. Já escrevi muita coisa para ninguém ler. Páginas e páginas de frases soltas ou pequenas prosas. Mas isso era antes da internet. Agora escrevo para outros lerem. Se assim não fosse, continuava a escrever nessas páginas de papel que usava antigamente. Tem razão doutor. Incomoda-me que não me leiam.
– Porquê? Porque é que considera tão importante que leiam o que escreve? Já li algumas coisas suas desde a última vez que cá veio. Penso que é uma escrita intimista. Muito marcada pela sua experiência. Está a lançar avisos para o exterior? Não preferia guardar alguma reserva?
– Não sei. É possível que seja a minha catarse. Talvez esteja realmente a lançar mensagens para o exterior. Ou a ajudar alguém, nunca se sabe. Já recebi agradecimentos sabia? Sei que os meus textos já ajudaram alguém a lidar com situações semelhantes às descritas num ou noutro texto meu. Isso reconforta-me…
– … então são avisos à navegação…
– São sobretudo observações. Depois quem os lê faz deles o que entende. Críticas ou avisos, depende de quem lê e como interpreta. Pensando bem sobre isso, acho que é assim. O leitor faz dos meus textos aquilo que entende. Quando os largo na internet já não sou responsável por nada!
– Vê? Então afinal, regressando à qualidade do que escreve, quando os publica deixa de ser responsável também pela apreciação ou catalogação de um texto seu.
– Hum… sim, talvez a minha maior merda literária seja sobejamente apreciada como pérola da escrita algures, por alguém.
– Exactamente. Bom, hoje ficamos por aqui. Podemos regressar ao assunto abordado hoje ou se preferir passamos a alguma outra coisa que o incomode.

***

Seria difícil escolher. As coisas incomodativas são muitas e vão desde o realmente grave ao simplesmente idiota. Há coisas que incomodam ao ponto de criar insónia. Outras apenas incomodam porque são idiotices que fazem perder tempo ou dispender energias que podiam ser aplicadas noutra coisa qualquer. Ver-se-ia, na próxima sessão, que rumo tomaria a conversa. Não vale muito a pena programar as coisas. Um dia de cada vez e, se possível, um incómodo de cada vez. Se as coisas fossem, por ordem natural, para aparecer todas ao mesmo tempo nem valia a pena separar os dias. Vivia-se em contínuo. Gosto de pensar no sono como compartimentador de incómodos, separador de arrelias. Infelizmente é normal os problemas reaparecerem alguns segundos após acordar. Quando a consciência é retomada. A sequência é rotineira. Acordar. Dar algumas voltas na cama enquanto a consciência se auto-instala. Depois enfiam-se os pés nos chinelos e caminha-se para a primeira micção do dia. Simples.

***

– Ora viva! Entre entre!
– Boa tarde! Já sei. O sofá. Tenho de arranjar um destes lá para casa. Se não tivesse de manter um mínimo de compostura confesso-lhe que adormecia a meio das sessões. Com um sofá assim, é fácil. Sabe, adormeço com facilidade em locais confortáveis desde que seja durante o dia. De noite não é tanto assim.
– Imagino que adormeça muito em frente à televisão…
– Muito não. Mas com facilidade sim. Também tenho um sofá em casa onde me estico quando me sinto aborrecido. Mas não se compara a este que aqui tem.
– É bom saber que tem um sofá em casa onde se sente confortável… mas de sofás podemos falar noutra altura qualquer. A não ser que os sofás sejam um dos seus problemas e queira falar deles…
– Não – risos – não são um problema.
– Óptimo. Menos um então. E hoje falamos de quê? Lembra-se que deixei à sua escolha o assunto a tratar. Quer continuar a falar dos seus supostos problemas literários?
– Não. Embora continue a achar que a coisa não anda boa, prefiro seguir em frente para outras coisas. Ainda acabo por gastar o tempo todo consigo a falar de coisas mais simples e não chego aos problemas cabeludos…
– … cabeludos? Então a qualidade da escrita é para si um problema careca…
– Sim, cabeludos. Têem mais por onde agarrar. São problemas à rodeo… bom, é como diz. Os problemas mais pequenos são carecas, para seguir a sua linha de raciocínio. Ainda hoje deparei com vários problemas carecas.
– Muito bem, vejo-o decidido a tratar dos carecas, aliás…
– … aliás eu próprio já estive mais longe de ser um… vamos aos carecas. É como aqueles papelinhos que insistem em dar-nos na rua. Isso incomoda-me!
– Você incomoda-se com pouco…
– Com pouco se fosse apenas uma pessoa a querer dar-me papelinhos. Se forem muitas, é incomodar-me com muito. Era mais fácil deixarem o raio dos papeis em cima de uma mesinha qualquer. Quem os quisesse, pegava e lia. Quase me enfiam os papeis dentro da mala ou boca dentro. Não me interesso por astrólogos, imobiliárias nem escolas de inglês. Olhe, podiam usar o método de um vendedor de uma revista que eu via muito no Marquês do Pombal. Segurava a revista dele em local visível e sorria para quem passava. Quem queria comprar, ia ter com ele. Nunca o vi a tentar enfiar uma revista no nariz de um transeunte. Era meio caminho andado para dois olhos negros…
– Imagino que…
– … e faz sempre um sorriso muito expressivo, algo exagerado até. Não creio que venda mais por isso, mas as pessoas não se sentem incomodadas!
– … enfiar uma revista sob o nariz de alguém não seja o mesmo que fazê-lo com um folheto. Nem sequer lucrativo!
– Certo Doutor. Certo. Mas detesto que me tentem enfiar coisas que não pedi. Olhe, tanto quanto detesto aquela gente que se mete nos semáforos a pedir dinheiro quando paramos num sinal vermelho. Isso incomoda-me!
– Incomoda-o a intromissão no seu espaço ou a representação de pobreza?
– A intromissão e a falsidade. Os verdadeiros pobres, sempre ouvi dizer, são envergonhados. Não andam por aí. Essa gente que vejo nos semáforos por vezes até boa roupa tem. E quando me vêm com a conversa da sopinha… nah…
– Considera o seu espaço inviolável?
– Inviolável não. Permeável, mas selectivo.
– Denoto algum elitismo na sua personalidade ou…
– Pelo facto de ser selectivo? Talvez. Sim, talvez seja um pouco elitista. Mas acabo por ter o meu espaço preenchido de uma forma muito heterogénea. Sou elitista dentro daquilo que me interessa. A minha elite não é um grupo bem demarcado mas um grupo escolhido a dedo de sujeitos e interesses que passam o fino crivo da minha apreciação, de entre vários grupos de pessoas e interesses – sorrisos.
– Humm… uma selectividade abrangente.

***

Não se trata verdadeiramente de ser elitista. Trata-se de apreciar o conteúdo. Tenho pouco interesse em coisas ou pessoas vazias. Isto, por si só, pode considerar-se uma presunção e levar alguém a pensar com que direito me arrogo achar alguém vazio. Não poderei eu ser vazio aos olhos de alguém? Suponho que sim. Porém, vejo as coisas com os meus olhos. O “eu” que eu sou, vê as coisas como sendo “ele” o centro de tudo. Não é narcisismo, é algo natural. Todos temos o nosso espaço pessoal, e no centro desse espaço está o nosso “eu”. Poderei ser vazio para muitos, mas preciso estar rodeado de pessoas que sejam tão cheias quanto eu, ou mais ainda. Sorrisos de ignorância não me motivam. Ser incapaz de manter uma conversa interessante ou inteligente é coisa que não me interessa. E já tive a minha quota-parte disso. Nem toda a gente que conheci ao longo dos anos era capaz de argumentar. E argumentar, é bom. Estimula os neurónios, conserva o cérebro em bom estado de conservação. Sem oxidação! A propósito de elitismo, recordo-me de um dia ter sido descrito como «um tipo que encerra dentro de si algo de precioso. Seja no que for, o domínio do seu gosto transporta-se quase sempre para o espaço do “orgulhosamente pouco acompanhado” – que não tem nada a ver com fascismo. Em boa verdade o que lhe dá tantas vezes um gosto especial é o facto do seu gosto ter essa religiosidade de ser singular. Quando lhe interessa também se esquece de que é assim e é um porco de um animal.», e isto foi escrito por uma mulher.

***

– Um porco de um animal?
– Não se pode ser sério e responsável em permanência, não lhe parece doutor?
– Dir-lhe-ia que é importante manter um equilíbrio saudável entre…
– Ah, os equilíbrios… (suspiro)…
– … a seriedade e uma existência mais descontraída. Sim, os equilíbrios. A ponderação. Custa-lhe encontrar um equilíbrio?
– Se não custasse duvido muito que me encontrasse aqui sentado no seu sofá.
– Poderiam existir outros motivos para me procurar e estar aí nesse sofá. Nem toda a gente encontra problema com o equilíbrio. Então é o equilíbrio um dos seus problemas? Incomoda? Não o tem?
– Não o tenho! Pura e simples. Como posso ter se anda tudo do avesso?
– Como assim, tudo?
– As coisas! A vida das pessoas. Estou cansado. E quem está cansado não consegue equilibrar-se. Acaba por tombar para um lado ou para outro.
– Para que lado tombou? É interessante que me refira dois lados, quer dizer que vê o equilíbrio como um ponto central entre dois estados opostos e não como algo artificial que se usa em anúncios de iogurte…
– Artificial de facto não. Há um equilíbrio. Existe. Deve ser perseguido. É assim que o encaro. E de facto divide duas coisas opostas. O extremo optimismo, felicidade e alegria, e o extremo pessimismo, infelicidade e tristeza. Com tudo o que se associa a essas sensações. A ideia de ser o melhor do mundo ou, em contraste, o de ser o maior lixo. O equilíbrio, doutor, vejo-o como algo que nos permite associar um bocadinho desses dois extremos para obter a harmonia. Se vivermos no extremo do pessimismo acabamos aqui sentados no seu sofá. Deprimidos, ansiosos, enfiados em problemas e incómodos. Se vivermos no extremo do optimismo sentimo-nos invencíveis e, inevitavelmente, faremos asneira mais cedo ou mais tarde e perdemos tudo, eventualmente viremos de novo parar ao seu sofá. Como vê, ou a pessoa está equilibrada ou então é o seu sofá que nos recebe. No fundo, você tem sorte!
– Sorte?
– Sim, da maneira que as coisas andam é difícil ter equilíbrio. A crise está para todos, mas as depressões aumentam, e não creio que você fique sem emprego. Excepto se perder a argumentação e lhe tirarem o sofá. Não tem dívidas, espero…
– Não se preocupe. O sofá não está em perigo. O pior que pode acontecer é trocar por outro.
– Desde que seja melhor que este, mais confortável, não me oponho.
– E afinal, para que lado tombou? Falava-me dos extremos ao equilíbrio…
– Tanto quanto me recordo, vivia um pouco no lado do optimismo. Depois escorreguei, fui empurrado e aterrei na merda. Curto e esclarecedor, não? Agora estou no seu sofá. Eis a história resumida da minha vida.

***

O sofá era espectacular embora duvide que fosse muito bom para as costas a longo-prazo. Demasiado mole. Quando uma pessoa se sentava afundava-se, como se o sofá nos agarrasse num suave amplexo e fossemos engolidos para dentro dele. O sofá dava uma sensação de protecção. Com os seus braços era como se nada dos lados nos pudesse atacar. Plano de visão aberto só em frente, frente à cadeira onde o psi estava sentado, mais ou menos a quarenta e cinco graus, e mesmo à nossa frente uma grande superficie em vidro através da qual se via toda a cidade numa vista panorâmica. O gabinete do psi era acolhedor, mas ainda assim despojado. Decoração simples. Pouca coisa para encher, apenas o essencial. Com aquela vista não precisava de grande coisa. Era quanto bastava para entreter os olhares. E sempre ajudava à divagação. Era, por certo, mais fácil soltar as ideias olhando a paisagem do que enfiado num quartinho escuro e apinhado de livros e paredes cheias de reproduções de pinturas famosas. Conversar com o psi era quase como conversar com uma figura imaginária. A luz que vinha do exterior obscurecia-lhe a silhueta. Não era um traço negro. Era uma pessoa com expressões faciais perceptíveis, um sujeito simpático até. Mas não se evidenciava muito. Penso que a colocação dele perante a paisagem era intencional. Para que o ocupante do sofá se deixasse levar pela enorme superficie envidraçada e se esquecesse que estava no gabinete de um psi. Bem pensado.

***

– Agarra-se muito aos momentos? Considera-se preso a algum momento? Como encara as recordações?
– Como fotografias. Ocasionalmente como pequenos segmentos animados. Ou frases. São memórias visuais ou auditivas. Depende. Mas a esmagadora maioria é tipo fotografia.
– E agarra-se a essas fotografias?
– Não sei ao certo. Talvez. Talvez recorde os momentos, como quem vê um album de fotos. Mas penso que isso é normal, tanto quanto as pessoas vão ver os seus albuns fotográficos de vez em quando, não?
– Depende um pouco da frequência, ou do intuito, com que o faz. Gostava que pensasse um pouco sobre a importância dos momentos para si. O que os define. E que papel guardam no futuro. No seu futuro, claro.
– Os momentos para mim… são a sucessão da nossa história, não lhe parece doutor? Cheiros, cores, as sensações que os sentidos nos transmitem. Todos eles. Uma cena aparentemente igual pode ser diferente se mudar alguma das percepções sensoriais. Uma côr, um reflexo, uma brisa, podem mudar tudo. É como lhe disse. São fotografias ou pequenos videos. Tudo o que está dentro deles é o que os define.
– E que papel têm? Suponho que já percebeu que estou a perguntar-lhe se está muito agarrado ao passado ou não…
– … sim, já o percebi. É uma coisa que me incomoda. Mais cedo ou mais tarde teriamos de falar disso. Se me obriga a pensar nisso, eu obrigo-me a admitir que o passado me agarra muito. Sou uma pessoa nostálgica. Prezo a memória. Recordo-me de uma conhecida minha me perguntar qual a coisa que mais detestaria perder. Eu respondi-lhe que era a memória. Penso que a memória nos define doutor. A memória define-nos. Faz de nós um somatório de momentos que guardamos. A nossa memória é um manual de instrucções em constante crescimento. Não se actualiza via internet. Actualiza-se com os momentos. Bom, vejo as coisas assim. E penso que talvez por isso me prenda muito ao que passou.

***

É preciso movimento. E com o movimento solta-se o indivíduo daquilo que era, daquilo que foi. O que foi, ficou para trás e serve de sola de sapato. Pisa-se o chão com a segurança de uma experiência ou ensinamento que nos servem agora de base. Com sapatos evitamos magoar os pés. Com memórias evitamos magoar-nos de novo. Excepto se quisermos. Se nos permitirmos prevaricar, fechar o livro, o guia, seguir o instinto sem ligar às cautelas que nos foram ensinadas por dura experiência. Mas é preciso movimento. Deixar, largar, soltar o passado. É sempre mais difícil para quem guarda memórias como fotografias. Porque as fotografias podem ter semelhanças com alguma cena de um filme, alguma paisagem, e então as fotografias saltam cá para fora, aparecem no nosso pensamento sem lhes pedirmos para aparecer. É preciso muito tempo, o tempo que faz assentar o pó, amarelecer as fotos, encarquilhar o papel. As memórias fotográficas têm o peso que toda a fotografia têm. São memórias retidas numa película. Uma imagem das coisas como elas eram naquele preciso instante em que se apertou o disparador. Apenas sem o perigo de ficar com olhos vermelhos. Não pelo flash. Talvez pela recordação ou mágoa. Se for caso disso. Nem todas as fotografias são tristes. Há fotografias bonitas.

O que é uma memória? Uma fotografia, com cores, reflexos, ventos que levam cabelos, sons. Sim, uma fotografia com sons. Imaginar que no momento da foto havia um barulho de fundo. De putos a brincar num parque, do vento nas árvores ou do ranger de dentes ao frio. Do mar nas rochas, das aves, dos filhos dos casais que passeiam pelo parque. As memórias são aquilo que nos define se as usarmos para catalisar o movimento. As memórias são aquilo que nos mata se as usarmos para nos prender.

***

– Está preso a algumas fotos então…
– … suponho que sim.
– Fale-me delas. Ou então escolha uma…

***

O elevador subia. Final de tarde, dia agradável. Tinha estado nublado mais cedo, mas depois o sol instalou-se. O caos reinava por completo. Não existiam esperanças. Não existiam perspectivas. Eram enganos. Ilusões. Pensar-se que havia volta. A única volta que havia era a do caminho do fim. A fotografia era irreal. No meio do caos passeavamos com gelados na mão, como se fossemos perfeitos. Como se nada se tivesse passado. Ainda arrisquei dizer «Lá para casa quero candeeiros Luis XXI», brincando com os candeeiros feitos por um amigo chamado Luís. Mas não tive coragem de dizer «nossa casa». Apenas «a casa». Porque bem dentro de mim sabia bem que não existia mais partilha. Na minha cintura a mão dela. Uma graçola, «olha, estou mais magro, já nem tenho pneu!». O sol a pôr-se. O bulício de quem brinca naquele espaço. E o regresso. O regresso marca o início do fim. O elevador subia. Olhando-a nos olhos percebi que era o fim. Agarrei-me a uma ilusão para sobreviver ao abismo do fracasso. Tantos fragmentos, tanta dôr partida e espalhada pelo chão. Muitos andares para subir. Até nunca mais, era a frase mais adequada. Não foi dita. A fotografia tem um beijo. Por momentos a sensação de que ela queria um beijo mais forte, mais íntimo. Mas foi um beijo ligeiro. Lábios que se tocaram por pouco tempo, e pela última vez. Ambos sabiamos que era a última vez. Pensar outra coisa era ilusão. Não aceito, não acredito que algum de nós pensasse realmente que havia jeito a dar. Era mesmo o final. Ela saiu do elevador. Um último olhar. Seria a última vez que eu estaria ali, naquele décimo-segundo andar. E depois foi sempre a descer. A fotografia tem isto. Um surrealismo patético. O final foi ali. Não foi mais tarde quando num clima azedo se decretou a morte da relação. O final foi ali mesmo. Ou mesmo antes. O final foi quando a dúvida se instalou. Quando a suspeita surgiu. Quando a mentira tomou conta de nós. O final foi num sonho que me dizia «foi só um flirt!». There is no such thing as a flirt when two souls bind.

***

– Porque escolheu essa fotografia?
– Pediu-me que escolhesse uma…
– E todas as escolhas têm uma razão, não concorda?
– Admito que tenham. Ainda que, por vezes, inconscientes…
– E porque escolheu essa fotografia? Incomoda-o? Marcou-o?
– Incomodar… não. Já não. Não me incomoda, já passou o seu tempo. É uma fotografia amarelecida sabe… escolhi-a talvez mais porque me marcou. Marcou sim. Foi o final de uma relação que eu vivi. Foi um marco na minha vida. O final sensível, não o oficial. O oficial foi como que um assinar de papéis, uma formalização da evidência. Este momento que lhe descrevi, e olhe que fui sucinto, foi o verdadeiro sentir que algo acabou. E isso sempre marca. Foi o começo da transição.
– Da transição?
– Sim, a mudança de vida. Tudo mudou. Veio a necessidade de adaptação. Novas pessoas, novas famílias, novos horizontes.
– No entanto, com a transição, esta fotografia marca-o ainda hoje.
– Mas doutor, há-de marcar sempre! Tanto quanto me marca a fotografia do meu primeiro dia de aulas, na primeira classe, com seis anos de idade. Como me marca quando aprendi a andar de bicicleta sem rodas de apoio.
– Simbolismo? Singularidade dos momentos?
– Penso que sim. A singularidade. Não tinha vivido nada assim antes. Pediu-me que lhe relatasse um momento. Assim fiz. Escolhi um que foi singular. Se lhe contasse… sei lá, um episódio qualquer passado num supermercado ou a caminho de casa não teria tanto significado. Regresso a casa muitas vezes, e passo por supermercados de quando em vez. Não são momentos singulares. E há pouco a reter deles.
– E a transição? Completou-a?
– Ainda não.
– A fotografia impede-o?
– Não.
– Atrasa-o?
– Talvez.
– Preocupa-o?
– O atraso?
– Sim, o atraso.
– Não. Não preocupa. É uma conquista suave. Pacífica. Que se faz com felicidade. Não se muda a vida por completo num momento.
– É boa?
– O quê?
– A transição.
– É. Não podia querer melhor.
– Havemos de falar mais dessa transição, mais tarde. Talvez quando me falar de todas as outras coisas que o incomodam e de que ainda não me falou.
– Sim, assim seja. Também posso falar de coisas que me intrigam, ainda que não me incomodem?
– Não vejo porque não.
– Ainda bem. Hoje ficamos por aqui não é?
– Assim é. Vemo-nos para a semana.

***

Não incomoda nada, mas intriga. Que raio de ideia é aquela de fazer mini-filipinos? Mini-filipinos? Para quê? Para comer dois de cada vez? Os filipinos sempre se comeram inteiros. Qualquer pessoa de juízo come um filipino original de uma só vez. Ou será preciso usar faca e garfo? Ou talvez dar duas dentadinhas? Nada disso. Um filipino de tamanho original abocanha-se de uma só vez. E mastiga-se todo ou então, para variar, cola-se ao paláto enquanto o revestimento de chocolate derrete, e só depois se trinca a bolacha. Invenção mais idiota essa de mini-filipinos. Pura perda de tempo.

***

– Filipinos?
– Sim doutor, aquelas argolas com chocol…
– … sim homem, eu sei o que são filipinos. Quer mesmo falar de filipinos?
– Não. Era só um comentário. Já estava com essa ideia desde a semana passada. Idiotice pegada. Enfim.
– Está bem. Vou tomar nota mental de que filipinos em formato mini não são do seu agrado. Posso confessar-lhe que também não são do meu.
– Fico feliz por saber. Olhe, hoje quero falar de fisgas!
– Fisgas?
– Sim, ou qualquer coisa como atracção planetária?
– Atracção planetária? Você hoje está… elaborado.
– Bom, tem a ver com momentos.
– Voltamos às fotografias então?
– Não. A momentos! Os momentos ou eventos que se planeiam. Penso neles como planetas que as nossas órbitas cruzam.
– Como assim?
– Veja o caso de umas férias…. planeia com antecedência. As férias são o planeta. Os seus dias são a órbita. No começo, a distância é tanta que parece que nunca mais chegam. Mas à medida que as férias – ou seja, o planeta – se aproximam é como se exercessem uma atracção gravitacional – e exercem – que o acelera até que, quando dá por si, já está de férias. Depois, elas passam num instante, a velocidade com que foi puxado é tanta que quando as férias começam já estão a terminar e você é projectado a toda a velocidade para fora delas, como se tivesse sido atirado de uma fisga. E depois afastam-se, e você afasta-se. A sua órbita segue, e o que passou fica para trás. Dá para dizer «Vai ser tão bom», «Porra agarra-te bem que está a ser mesmo bom» e por fim «Olha, já foi!».
– Ah, interessante…
– Mas podia usar episódios diferentes. Falei de férias, podia falar de um jantar, uma festa, um casamento, qualquer coisa. Todos os momentos são assim, já reparou?
– Bom, confesso que nunca tinha pensado nisso dessa forma.
– Eu penso muitas vezes.

***

Pensar demais. Pode ser um defeito. E os silêncios? Onde estão os silêncios mentais? Nem é preciso que sejam absolutos silêncios. Estar no meio da maior barulheira, milhões de pessoas a berrar a plenos pulmões. Mas ser capaz de manter silêncio mental. Talvez não o silêncio. Talvez como uma estática, como um pensamento que se equivale a um canal de televisão que não se consegue sintonizar. E depois de conseguir a estática, a chuva, vem o silêncio. A estática começa a desaparecer. Deixa-se de pensar. Pensar demais. Pode ser um defeito. Pensar em tudo. Querer saber as razões de tudo. Começa-se por querer saber o que faz um brinquedo mexer, e anos mais tarde queremos compreender a cabeça das pessoas, a cabeça dos outros. Os pensamentos das pessoas, das mulheres. Esses. Sim, oh sim, esses são os mais difíceis, as maiores enxaquecas, e com aspirina não passam. Eu penso muitas vezes. Não seria melhor pensar menos? Pensar pensar. Não um mero exercício espontâneo de reacção a estímulos. Pensar. Raciocinar. Obrigar os neurónios a horas-extra. Queimá-los. Não apenas as pestanas. Queimar sobretudo os neurónios. Pelo esforço. Pelo cansaço. Assim como veio, assim se foi. Deixar fluír. Não procurar entender todas as coisas ao milímetro. Quanto mais penso, mais o vazio se instala e menos sentido as coisas fazem. Como repetir as palavras vezes sem conta. Perdem o significado. E perante isso, de que vale uma declaração de amor? Se foi alicerçada em palavras? Vale uma merda. Mas é preciso ouvir. Saber. Renovar, refrescar a sensação – sempre falsa – de segurança, de que o nosso par ideal está seguro ao nosso lado. Renovamos a sensação com lufadas de merda fresca, essas palavras que brotam dos lábios. Amo-te. Amo-te. Amo-te. Amo-te. Amo-te. Ainda faz sentido para ti? Para alguém? E se continuar a dizer que te amo? Vezes sem conta? É merda que chegue para ti? E se fizer algo diferente? Se te amar apenas estando ao teu lado, se te amar porque estou sentado contigo num momento feliz, confortável. De qualidade? E se os meus alicerces não forem palavras gastas? E se eu te amar apenas porque te amo, e tu apenas por isso também? Assim veio, assim pode ir, mas enquanto é, é uma eternidade. E eu espero que a eternidade seja uma vida inteira. Sem pensar demais. Sem verbalizar em excesso. Atolados em merda já andamos, há tanto tempo. Todos nós. E sem saber.

***

– A sua escolha de palavras é, no mínimo, como dizer, preocupante…
– Preocupante?
– Pessimista.
– Realista doutor.
– De poucas perspectivas. De raiva. Desalento?
– Algum. Cansaço. Sobretudo cansaço.
– Da vida? Não é a primeira vez que se diz cansado!
– Não. Dessa gosto demasiado. Apesar de tudo…
– Apesar de quê?
– Das desilusões, dos pontapés no cú, das expectativas que se criam. Os apegos. As falsidades. Daquele meio mundo a querer subir pisando a outra metade. Não sei. Da podridão.
– Sinto-o muito mais frio hoje. Aborrecido. Passou-se algo?
– Tirando o mau-humor com que hoje andei, não, não se passou nada. Não podemos andar felizes e aos saltos todos os dias, não lhe parece?
– Suponho que não, há factores que…
– … por certo há, mas não me pergunte quais, que eu não sei. Acordei assim.
– Vejamos então como se vai deitar. Espero que mais contente. Mais leve, seguramente.
– Penso que sim. Neste seu sofá já libertei muito pessismismo e sentimentos retraídos.
– Há mais? Guarda ainda coisas em si?
– Sim. Acho que sim.
– Liberte-as então. Guardá-las faz-lhe um mal tremendo.
– Liberto-as noutro dia, vejo pelo relógio que está quase a mandar-me passear…
– Se quiser passear não lhe faz mal nenhum. Sim, libertará essas coisas da próxima vez. Se quiser.

***

Fui passear. Não fui passear macacos. Fui passear-me. Apanhar ar, refrescar a mente com um exercício salutar, fazer o sangue correr mais depressa, depurar tudo. Quantas vezes aproveitamos para nos afastarmos dos quotidianos? Muito poucas. E ao andar, galgando metros de calçada, permitia-me fugir de todos os pensamentos quotidianos. Via pessoas passar por mim, via carros com os seus ocupantes, autocarros cheios de gente a suar num festival de odores, montras de lojas com muito para vender e pouca gente a comprar. Andando. Fui andando. Em direcção ao meu sofá. O meu próprio sofá, aquele que tenho em casa, diferente do sofá do gabinete do Psi. O sofá que me vai receber para repousar, entregando-me a um sono saboroso, mais doce ali do que na cama. O tal compartimentador de incómodos. Esse sono.

@2003-06-07 03:22