Sentados na esplanada – a mesma de outras ocasiões, local de reunião da matilha – aproveitava-se o final de tarde. A matilha, regular nas suas caçadas, aproveitava sempre os finais de tarde para devorar as melhores presas. Devorar com os olhos. Ocasionalmente, com as garras ou com o que se proporcionasse. Dependendo do jeito do caçador, ou da vontade de fugir da presa. A matilha, esse grupo de amigos. De gajos. A malta. A aproveitar os dias quentes antes de Setembro. O Setembro do ano, e um dia o Setembro da Vida. Reminiscente de Sinatra, parece-me. September of our lives ou coisa assim.

Discutiam-se ali as façanhas mais recentes da matilha. Quem tinha feito o quê e onde, e com quem. Gente animada, conversa bem regada por loiras e morenas e histórias do que se fez, do que se queria ter feito e do que se imaginava ter feito. E então, a certo momento, o Zé virou-se para mim e disse, embora falando para todos «este aqui é que teve sorte! Andou ali bem servido com a Marta, grande naco!». Entre perguntas de como tinha conseguido e porque tinha terminado deixei uma resposta simples e eficaz: «Oh, uma puta! Apenas uma puta como tantas outras!»

A Marta era angelical. Uma peça de porcelana. Por momentos havia o receio de tocar. De mexer. Podia partir, deixar gordura, riscar, sei lá. Era peça para manter intocada. A Marta, em abono da verdade – aquela que eu queria ver e todos pensavam ser a realidade – era uma fulana às direitas. Uma gaja especial, dizia o Zé de vez em quando. Lembro-me bem que o processo de conquista foi lixado. Tempos e tempos. E quanto mais a presa foge, mais atiçado fica o caçador. E o caçador que se preze não quer deixar fugir o troféu! Mas era angelical, dizia eu. Pano branco, toalha da melhor qualidade, sem nódoa. Sem mancha. Recta, impunha respeito. Do alto do seu nariz cleopátrico – i.e., género Cleópatra, o adjectivo nem sei se existe -, e com igual reacção à mostarda – quem leu Astérix e Obélix sabe do que falo -, a Marta dominava o mundo. O seu mundo. As coisas eram como ela queria, quando ela queria. Sem discussão. A organização do espectáculo era toda dela. E por onde passasse nada ficava exactamente igual. As cabeças viravam-se. O vestir era cuidado, o sorriso era agradável. Para o mundo era tipo estrela de cinema. Do alto do seu nariz empinado devia pensar, seguramente «eu sou boa, eu sei o que faço, e tudo o que faço é bem feito! Tudo é normal, se for feito por mim!»

De volta à mesa da esplanada.

Eu estava a dizer o que nunca antes tinham dito. Uma puta? Sim, uma puta, afirmava eu! Deitava por terra a imagem da porcelana. À boca cheia e sem pudor algum dizia a todos os que me ouviam que a Marta não passava de uma reles puta! «Pá, isso é cotovelo a falar, não?» dizia-me o Zé, que estava sentado bem ao meu lado. Nada disso. Era apenas mera observação dos factos.

Contei-lhes como um dia me tinha sentado na cama ao lado dela enquanto a via dormir. Era, de facto, uma visão bonita. Aquela cara bonita, uma respiração suave. A silhueta do corpo dela na cama era bonita de ver. E os ombros… quando ao mexer-se na cama os ombros se destapavam… eram bonitos. E cada centímetro de pele que eu ia destapando era um milagre da natureza. Era gira, pronto. Não era a gaja da Playboy, não esborrachava 5 quilos de silicone no meu colchão – felizmente – mas era gira. Tinha piada. Tudo tinha imensa piada e dava imenso prazer até saber que ao lado dela, na cama, eu não era o único.

@2003-04-27 01:17