Estava sentado na esplanada com uma bebida não-alcoólica na mão esquerda. Sinais dos tempos. Ao meu lado o David, com uma bebida alcoólica na mão direita. Sinais dos tempos dele. E aptidões diferentes. Eu, canhoto. Ele não. À sombra dos grandes chapéus de sol o calor não nos incomodava muito, mas era suficiente para que as mulheres que passavam frente à esplanada – virada para o Atlântico que um dia nos viu crescer Império – tivessem sobre o corpo o mínimo de roupa. Algumas em arrojados bikinis, outras em peças mais discretas. Atentos, ou devo dizer, vivos, deixavamos os olhares seguir as beldades que desfilavam. Vindas da praia, ou a caminho dela. Com ou sem bronze. Com ou sem namorados. Que as havia BB – bem-boas, na nossa gíria de matilha – havia. E o David, seguindo o rasto a uma beldade bem ao estilo top-model disse prontamente: É mesmo boa. Dava-lhe uma. E eu acrescentei: Ou duas. Riu-se. Bebeu mais um pouco. Mas eu não estava convencido.

Continuava a pensar na tal beldade a quem ele «daria uma» e já ele tinha desviado o olhar para a beldade seguinte. Disse-lhe que sim, que era realmente uma jovem com ar saudável, mas acrescentei, teimosamente «de que te serviria o facto de ela ser podre-de-boa se depois fosse uma cabrazinha ou totalmente vazia?». Bom, não estavamos ali sentados naquela tarde para discutir coisas profundas. Era apenas a minha mania de pensar em tudo e reflectir sobre certos comportamentos. Enquanto isso, passava por nós uma rapariga com um ar muito mais modesto, menos favorecida pela natureza – não seria concerteza, jamais, uma top-model – e aproveitei esse facto para lhe dizer «olha, aquela ali… se calhar é capaz de fazer um homem muito mais feliz do que a outra boazona de há pouco…». Certamente meu caro, certamente, retorquiu o David, mas deixa lá isso, olha aquela outra. Bom, isto hoje está pejado.

Essa tarde na esplanada já vai longe no tempo. Alguns meses, penso que não terá passado ainda um ano. Mas largos meses sim, e hoje ainda encontro a memória dos factos e a inspiração para escrever sobre o assunto. Não sobre a esplanada, as bebidas do momento ou as investidas de olhares sedentos. Não quero discutir os bikinis, os triângulos reduzidos tapando estratégicos pedaços de corpo. Quero discutir as belezas estereotipadas e a capacidade de amar e fazer alguém feliz, a par com o imenso de uma alma cheia de coisas, ou o contraste de um vazio.

Para um homem as coisas são muito visuais. Para vós, mulheres, sei que as coisas são diferentes. Mas para nós a imagem é soberana. A primeira coisa com que vocês nos conquistam é com umas pernas bem feitas, com uns seios bonitos, um cabelo cuidado, uma roupa bonita que acentue as curvas. O primeiro contacto que temos convosco é através da vossa imagem. Vocês sabem-no bem. Por isso se produzem. Se cuidam. Não será certamente apenas por causa do amor-próprio. Sabem que precisam ser bonitas para que os homens se sintam atraídos, e até entre vocês gostam de se sentir mais bonitas que a mulher do lado. São um bicho terrível, umas cobras mesmo para o vosso género, mas é assim que nos levam a melhor. Olhando em volta, os nossos olhos repousam, invariavelmente, sobre os corpos mais belos, as caras mais bonitas. Num momento vemos a cara, a seguir as mamas. Ou ao contrário. É o que calha. E pensamos logo: boazona. Se te apanhasse a jeito! Ai se eu pudesse! E às vezes até se pode. Às vezes até se apanham a jeito. As belezas estereotipadas levam-nos a melhor.

 

Se tudo o que quisermos for uma noite – ou dia, ou hora – de sexo, essa beleza serve. Não precisamos de carinho, nem de discutir o estado das coisas. Não precisamos que nos entendam os problemas ou partilhem alegrias connosco. Quando tudo o que pretendemos é saciar uma necessidade selvagem, a mulher com beleza estereotipada torna-se a portadora de corpo inteiro de uma vagina. Reduzimo-la a uma vagina. O resto pouco importa. Mas e se, por mero acaso ou ironia do destino, viermos a desenvolver algum tipo de laço afectivo com essa vagina? Ou antes, com a portadora da dita? Corremos um risco imenso. Não tivemos tempo de a conhecer primeiro, não tivemos tempo de saber o que se escondia por detrás da beleza. Apenas conhecemos o corpo. E como são as ideias? Será que vamos gostar daquilo que vamos descobrir? Será ela um imenso vazio? E se fôr? Demasiado complicado. Melhor manter as coisas simples. Apenas sexo. Sem gelo.

Para as mulheres bonitas – aquelas belezas consideradas “normais”. Eu diria antes “banais” – é tudo mais fácil. Raramente estão sozinhas, passam de cama em cama, de homem em homem, com angelical leveza. Não precisam esforçar-se muito, porque são bonitas. Exceptuando os momentos de manhã ao acordar ou quando andam de chinelos lá por casa, são bonitas o dia todo, e os homens olham para elas na rua, elas fazem-nos virar a cara. E elas sabem. Sabem que a imagem, para nós, é coisa importante. E com esse trunfo não se brinca.

Já as mulheres feias – aos olhos de quem, afinal? – têm a vida mais complicada. Podem ser umas mulheres maravilhosas – muitas vezes são – mas os homens não olham para elas. Não lhes dão importância. Andam demasiado ocupados com os olhos virados para as meninas bonitas. É uma asneira nossa, há que entendê-lo. Enquanto estamos distraídos com mulheres vistosas, deixamos de ver o valor que têm as outras que não achamos tão interessantes. Para descobrir o real valor de uma mulher menos vistosa é preciso querer. É preciso estar interessado em descobrir como ela é, que valores tem, as coisas que pensa. Dar-lhe valor pela alma, e não pelo corpo. E no final, quando se descobre que é uma pessoa com uma alma preenchida de coisas boas o corpo dela passa também a ser bonito, mesmo que no começo não nos tenha cativado. O quadro fica mais completo, conhecemo-la bem.

Escondidas sob capas de beleza feroz, há mulheres que são vazios imensos. Incapazes de amar, de acarinhar. Incapazes de conversar horas a fio sem perder o interesse. Há mulheres que não sabem estimular os neurónios para além do necessário para uma erecção. E do outro lado da história há mulheres supostamente feias que são capazes de tudo o que as outras não são. E perante esse quadro de felicidades enganadoras – a promessa de uma gaja boa que afinal não nos deixa felizes – é caso para questionar o que vale realmente a pena. Se uma top-model fria ou uma profunda normalidade escaldante. Se uma mulher para mostrar aos amigos, ou uma companheira para os dias que passam.

E de facto naquela tarde o caminho em frente à esplanada estava pejado de mulheres bonitas. Depois de ele concordar comigo, complacente, que a mulher supostamente feia que passara momentos antes poderia fazer um homem bem mais feliz que a outra boazona, decidi dizer-lhe, como que rematando a conversa: Não existem mulheres feias, apenas uma imensidão de olhares masculinos.

@2003-02-21 03:18