Manhã de segunda-feira. Uma segunda-feira diferente, de silêncio. Não havia nada para dizer. Virei-me na cama, recuperei a consciência, perdida durante o sono – ou teria ela mesmo sido perdida? – e vi-te. Ainda estavas a dormir. Ajeitei o meu corpo procurando fazer o menor ruído e agitação para que não acordasses. Tinhas um rosto sereno. O meu rosto era de lamentação. A lamentação de não me ser permitido ver o que estava a ver. Ao meu lado estava um corpo que eu não podia ter ali. Era uma segunda-feira muito diferente. Uma manhã que começava com cores de um amarelo vivo, o barulho na rua de quem corria para aqui ou ali. E ontem o que tinha sido? Tinha sido um Domingo errado. Um copo a mais, com um líquido a mais. Uma língua desatada, conversas impróprias. E sem pensar estava ali deitado. Teria sido bom? A memória dizia-me que sim, que tinha sido bom. Teria sido significativo? A minha memória não me sabia dizer se tinha sido. Isso era outra coisa. Impossível de avaliar no momento.

Deixei de olhar o teu rosto. Virei-me de barriga para cima. Um momento depois sentei-me na cama. Levantei-me devagar, fui para a varanda. Fui olhar a paisagem. Mãos firmes no varão de ferro, pés sobre o chão frio. Mas nem um tremor. Uma abstracção absoluta. Nunca cheguei a ouvir-te levantar. Caminhaste nua em direcção a mim. Afastaste a cortina do quarto com suavidade. Chegaste a mim por trás, encostaste o teu corpo ao meu, senti os teus seios pressionar as minhas costas, os teus pêlos nas minhas nádegas, os teus braços a colher o meu peito. Apoiaste a tua cabeça no meu ombro. Eu não disse nada. Tu também não disseste nada. Segunda-feira de manhã num absoluto silêncio. O meu coração batia. O teu também. Podia senti-lo. Virei-me. Olhei-te nos olhos. O nosso olhar cruzou-se por momentos. Momentos daqueles que duram muitos minutos. Tu procuravas uma resposta e eu também. E ao mesmo tempo queriamos encontrar algo para dizer. Mas não havia nada que se pudesse dizer. Melhor calar. Toquei-te no pescoço. Uma carícia. A outra mão foi procurada pela tua. Os dois, numa imensa nudez, de corpo e de espírito, com mãos dadas e carícias leves. Desviei o olhar e esbocei um primeiro movimento para voltar ao quarto. Interceptaste-me. Estendeste o teu braço, mão no meu peito, barraste-me. Para que eu não desse um único passo mais. Entreabriste os lábios como que para articular uma palavra, mas paraste a meio. Não chegaste a dizer uma sílaba. Olhei-te virando a cabeça. Baixei o olhar, suspirando. Baixaste o braço. Deixaste-me passar e assim entrei eu no quarto. Dei a volta à cama e sentei-me. De mãos na cara, cotovelos nos joelhos. Meditando. Apercebi-me, pelas sombras na parede em frente, que tinhas ficado parada na porta, afastando a cortina, projectava-se a tua silhueta, quase perfeita. A sombra de uma mulher com tudo no lugar. A sombra de uma mulher que tinha misturado o seu corpo com o meu até ao ponto de se confudirem. Diria mesmo, de se fundirem. Gotejando suor. Mas tudo isso acontecera horas antes. Depois viera um sono restaurador e uma consciência pesada.

O que tinha acontecido? Fechando os olhos baixei ainda mais a cabeça. A tua silhueta veio a mim. Sentaste-te ao meu lado. Olhei um pouco para o lado, vi a tua cintura iluminada pelo sol. A tua mão deslizou da beira da cama para a minha coxa esquerda. Foi a primeira vez que te ouvi falar nessa segunda-feira de manhã. E foi para dizer «Não faz mal, eu entendo!».

Depois ergueste-te, vi-te afastar um pouco enquanto procuravas a tua lingerie. Depois a saia. A blusa. O casaco. Os sapatos. Ias embora, mas antes voltaste. Inclinada na porta subiste um pouco a saia, despiste as cuecas. Atiraste-as para cima da cama. Disseste «toma, para que te lembres de mim». Depois de fechares a porta do apartamento tocou o telefone. Dei um salto. Atendi. Respondi. «Sim, está tudo bem. Volta por favor! Não suporto a tua ausência!».

@2003-01-14 01:46