O campo de batalha era normalmente a cama. Por vezes era mesmo no chão. A tua roupa voava para os lados e só a tua nudez me fazia parar. Quando os dois corpos se juntavam havia explosões, bombardeava-se o inimigo, avançava a infantaria. A batalha durava o tempo que durasse. Nem sempre era ganha, havia empates, perdia-se às vezes. No final recolhiam-se os despojos. Ias à procura da tua roupa, vestias-te. Agora que penso nisso eu ficava sempre mais despido que tu. Como se não te sentisses confortável quando estavas nua. Eu estava sempre confortável perante ti. A nudez era prova de participação na batalha. As batalhas que travávamos, sem feridos, sem mortos, batalhas de prazer, eram o corolário de uma relação. Duas pessoas que se tinham valorizado mutuamente. Tinham criado laços, deixado crescer a intimidade. Nunca chegámos a ter as escovas de dentes na mesma casa-de-banho – excepto no ocasional hotel – nem a lavar a roupa na mesma máquina. Mas tinhamos outras formas de intimidade. Trocaram-se muitas cartas ao longo dos anos, muitos postais, muitas fotografias em que a vida nos parecia sorrir de uma forma infindável. Quantas fotos foram? Quantos foram os momentos em que estivemos abraçados, sorrindo para uma objectiva, como duas pessoas que se amam e não querem mais nada, mais ninguém, naquele momento? E os sítios? A quantos sítios fomos passear? Que viagens fizemos?

Isto é parte da minha história. É parte do meu passado. Os meus alicerces. A minha história é parecida, senão igual, à de tantas outras pessoas. É igual à história da Marta. A Marta e o Pedro tinham um passado em comum. Valorizaram-se. Amaram-se. Travaram batalhas, foram amigos, acrescentaram-lhe côr e um dia namorados. Tinham planos para casamento, nomes para filhos, conta conjunta no banco. A Marta e o Pedro tinham fotografias, tinham cartas, tinham viagens feitas. Durante algum tempo era como se o mundo fosse apenas deles e só para eles. Não existia mais ninguém, nenhum outro plano. Talvez não existisse equilíbrio, talvez a balança oferecesse mais amor de um lado do que do outro. Nunca se saberá ao certo, e as opiniões dividem-se. Um dia a relação falhou e a Marta e o Pedro deixaram de ser um conjunto fechado. Passaram a ser dois indivíduos isolados cada um na sua certeza, na sua versão dos factos, nas suas memórias. E tanto tempo passado desde que tudo aconteceu e seguiram caminhos separados, cada um lembra as suas cumplicidades antigas, contidas em objectos trocados, coisas escritas, momentos capturados em película fotográfica. E numa noite a Marta rompeu o silêncio de um telefone pousado sobre a mesa e perguntou, «Pedro, diz-me, que faço eu com as coisas que me deste? As tuas cartas. As fotos?».

A história da Marta e do Pedro é a história de muita gente. Gente que tem um pouco de Marta ou um pouco de Pedro dentro de si. E isso faz-me pensar, pensar no que se faz com os despojos do campo de batalha. As coisas que ficam quando tudo o resto vai embora. Quando o amor acaba, o sentimento atenua, o que se faz dos destroços? Faz-se aquilo que queremos fazer, porque só nós sabemos até que ponto o passado nos conforta ou atormenta. Todas as coisas que guardamos de uma relação antiga são memórias daquilo que fomos um dia, memórias do caminho que fizemos até chegar onde estamos. Sim, é verdade que as memórias vêm em vários sabores. Há doces e amargas, e todas elas se encaixam no percurso que fizemos. Mas se estamos confortáveis com elas, devemos mantê-las. Sei o que o Pedro respondeu. Ele contou-me tudo. Sei que lhe disse que só a ela cabia saber o que fazer com essas coisas, porque só ela podia saber se estava ou não confortável com o seu passado conjunto. Se ela estivesse confortável e esse baú de recordações não causasse incómodo ao parceiro, porque não mantê-las?

«Obrigada, não queria nada deitá-las fora!» foi o que a Marta disse. Parecia uma Marta nostálgica. Antes nostálgica do que revoltada ou triste. A nostalgia não é necessariamente triste, pode ser doce. Coisas vividas que foram boas e merecem ser honradas. E é quando se guarda uma fotografia especial, um postal bonito, uma carta bem escrita, que honramos esses momentos bons. Momentos que nos ficam na memória. Tardes na varanda com vista para a praia e as árvores ondulantes ao vento numa tarde de Setembro. Honrar. Sim, honrar, mas não manter cativo. Há demasiadas prisões na vida para se querer ter mais uma. Ninguém tem direito de chamar a si a totalidade da vida de uma pessoa. Quando uma relação se inicia nenhum parceiro pode querer ter o direito de apagar todo o passado da pessoa a que se junta. Todos temos um passado. Todos fizemos coisas. E só temos direitos a partir do momento em que a nossa vida se une a outra. Não há direitos retroactivos. Se calhar nem há direitos. Apenas privilégios. É diferente. Eu tenho o privilégio de partilhar a vida com outra pessoa, mas não o direito de a prender. É isso.

E foi por isso que o Pedro lhe disse que também devia ter em atenção o conforto do parceiro. Uma coisa é ter memórias boas e guardar despojos de uma relação algures no armário e na cabeça. Outra é mexer-lhes constantemente, fazer das cartas leitura de mesinha-de-cabeceira, manter fotografias espalhadas de ex-namorados pela casa. Os despojos arrumam-se e guardam-se. Podem ser mexidos de vez em quando, mas respeitando sempre quem está connosco. A pessoa que passamos a valorizar deve respeitar o nosso passado, mas não é obrigada a levar com ele na cara a todos os instantes. Afinal, evolui-se, não? Vamos em frente. A vida continua mesmo que queiramos parar. E se um dia apetece parar, no outro a vontade de voltar a andar manifesta-se. Nunca ninguém fica parado. A vida não perdoa. Não tem pausa.

A Marta e o Pedro conheço-os bem. Conheço-os há muitos anos. Conheceram-se, orbitaram elipticamente em torno um do outro – com desvios ocasionais – e viveram momentos de união. E quando isso acabou, depois das cumplicidades, a Marta foi para outros Pedros e o Pedro para outra Marta. Os despojos são como orfãos. Acolhidos ou abandonados. Cada um sabe de si. Podemos queimar os despojos, atirá-los para o lixo, mas o passado fez de nós aquilo que somos. O passado não se queima, não se deita fora. Aprende-se a respeitar. É um professor atrasado. Ensina-nos quando já sabemos. Mas repete o ensinamento para que nunca nos esqueçamos. Do que fomos um dia. Do que fizemos. Do que vamos fazer.

@2003-01-13 14:23