A côr que o cheiro tem quando chove

Estava sentado junto à janela entreaberta. Tinha acabado de chover. Chuva grossa. No ar o cheiro da terra molhada. Foi quando o telefone tocou. Pegou no comando e reduziu o volume da música que tocava. “Conta-me histórias”. Clã. Levantou-se, pousou a mão sobre o telefone. Hesitou por instantes. Sentia algo. Pegou-lhe. Carregou. Encostou o telefone ao ouvido. Do outro lado uma respiração ofegante e por fim as palavras chegaram. Disseram-lhe “Tudo está terminado. Agora tudo está terminado”. Ainda um pouco de respiração ofegante. Por fim o barulho de quem pousa um auscultador. Um click. Um sinal intermitente. A mensagem estava transmitida. Tudo estava terminado. Pousou o telefone, pegou no comando, levantou o volume e reiniciou a faixa do CD. Conta-me histórias. Clã. Sentou-se. Olhou de novo para a rua, e voltou a inspirar o cheiro da terra molhada. Ainda havia gotas a cair lá fora, dispersas. Nuvens, humidade no ar. Instalou-se uma calma. Uma calma inexplicável. O fogo era agora suave. O arrebatamento de uma emoção fresca era agora uma coisa deixada sobre a mesa, a ganhar pó. Nostalgia. Adormecimento. E foi aí que o pensamento se atirou totalmente para trás e todas as peças do puzzle se começaram a encaixar. O jogo tornou-se mais claro. Conta-me histórias sim, para entreter.

Primeiro Momento

Veste o melhor fato. Os melhores sapatos, a gravata com um nó meticulosamente feito, medidas perfeitas até à fivela do cinto. Fato escuro. Perfume adequado. Desligou as luzes, olhou em redor, fechou a porta. Casa fechada. Caminha confiante até ao carro. Conduz até ao Bar. O primeiro momento do jogo concretiza-se. O primeiro olhar estabelece-se. Dizem-se as primeiras frases de puro engate. Não te conheço, não me conheces. Há curiosidade? Muita. Primeiros avanços. Mas eu sei quem és. Tenho-te visto muito por aqui. Procuras alguma coisa que alguém te possa dar? Falta-te alguma coisa? Vem a resposta. Falta-me tudo. Estou sem nada. Perdi. Apostei mal e perdi. Podemos experimentar? Só por experimentar. No strings attached. Vem. Vamos. Só hoje, esta noite. Amanhã não. Só hoje. Forte. Feio. Até caír para o lado. Quero saber como é. Dá-me. Muito. Tudo. O olhar é desconfiado. A conversa é suspeita. Quando ela veio, ele já foi. As cartas foram postas na mesa demasiado cedo. Ele viu a jogada.

Segundo Momento

Batem ondas nas rochas. O monte. O mar. Há duas pessoas em momentos diferentes. Uma delas no fim do caminho. A outra no começo do fim. Vão separar-se. As ondas batem nas rochas. Indiferentes. Olha, vou partir, pode ser? Pode ser. Falta-te alguma coisa? Diz-me. Fala. Procuras algo que não sabes o que é. Totalmente perdida. A ponderação está lá em baixo, e bate nas rochas juntamente com o mar. Ah. Oh. Deixa. Vai-te. Vira as costas e vai-te. Fui. Foste. Muito tarde. Demasiado tarde. A curva mal feita, gravilha no chão. Estampou-se no primeiro muro. Arranhões. Querias alguma coisa de mim? Pareceu-me ter-te ouvido chamar, mas não me apeteceu mexer do lugar. Deixa uma mensagem a seguir ao sinal por favor. Contactar-te-ei quando…. não te contactarei. Esquece. Esquece o sinal, desliga. As palavras iam ser sons emitidos em vão. Pagas tu a conta?

Terceiro Momento

Conta-me histórias. Por favor conta-me histórias, mente-me. O jogo precisa de histórias e tu sabes contar histórias. Muito bem. Disfarça as tuas jogadas, faz-te cordeiro. O lobo está sempre à espreita. Eu não fui lá. Eu não estive lá, eu nunca fiz isso, nunca. Nunca, ouviste? Sim, ouvi. Não. Sim. Falso. Mentira. Eu sei, eu vi. Estava lá. Admite. Jamais. Ainda procuras alguma coisa? Palerma. Todos os dias. E já estava farto do jogo. Saturação. Mas mais uns momentos, por favor. E depois, posso ir? Podes. Vai.

Quarto Momento

O fim do caminho foi o fim do caminho. O começo do fim foi a passagem por muitas paragens. Saltar de pedra em pedra. O charco está sempre ali ao lado. O cavalo perdeu. Merda, apostei mal. Perdi. Dinheiro. Honra. Confiança. Murro na parede. Onde está tudo o que tinha? Não pode ser verdade. É, é verdade sim. Não tenho mais. Posso recuperar. Eu sei. Mais umas cartadas do jogo. Vou ganhar. Sim. Vou. Será. Nem sei.

Quinto Momento

Estou bem. Sim, estou muito bem. Mas preciso correr, correr, ganhar terreno de novo e aparecer de novo, com mais energia, novamente no topo. Sorrir. Não. Sorrir não, rir mesmo. Alto e a bom som. Dizer que bem que estou. Nunca posso dar a ideia de perder. Orgulho. Ah. Vou correr e avisar. Moedas. Telefone público. Respiração ofegante. Pegou no telefone e marcou o número. O telefone tocou algumas vezes. Por fim foi atendido. Respiração ainda ofegante. No momento percebeu “o jogo está perdido. Todos os meus passos foram antecipados”. E então disse “Tudo está terminado. Agora tudo está terminado”. Não desliga imediatamente, espera ainda um pouco. Mas não há resposta. Não há confirmação. Click. Silêncio. Telefone desligado. Silêncio, e o cheiro da terra molhada. Tinha acabado de chover.

Na cadeira junto à janela permanecia imóvel. Vinham à memória recordações de uma pintura conhecida. Sweet Violet. E tudo fazia muito sentido. Voltou a cabeça para o outro lado porque o telefone tocou novamente. Pensou ignorar. Mas por fim levantou-se e sem esperar ouvir quem o chamava disse, de imediato, “Não”. Voltou a sentar-se. Na cama ao fundo do quarto acordaste por fim. Perguntaste “Choveu amor?”… “Sim, choveu”. E sorri-te.

@2003-01-01 22:22

Posted in Crónicas curvas

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