Aequilibrivm. Algo acerca do qual já venho pensando há algum tempo, e que, voltando à ideia das cerejas que já me fizeram escrever outros textos, surge aqui como consequência de uma conversa que tive recentemente com o meu Sensei. Aliás, uma das formas de reencontrar o meu equilíbrio, caso o tenha tido verdadeiramente alguma vez, foi precisamente regressar à prática do Karaté-Do, uma forma de exercitar o corpo mas, parece-me, ainda mais a mente. Eu não tenho equilíbrio. Ando totalmente desregrado. Tanto ou mais que mais de meio mundo. O simples facto de estar aqui sentado, uma hora depois da meia-noite, a escrever isto, é já uma manifestação de desequilíbrio. A esta hora devia estar deitadinho a dormir. Não porque resulta de um ensinamento popular antigo, não porque tenha sido educado a deitar-me cedo – e de facto fui – mas sim porque faz todo o sentido aproveitar as horas nocturnas para dormir. Porque dormir faz falta. Mas dormir é apenas uma parte do equilíbrio.

Dormir é uma terapia excelente na reposição do nosso bem-estar. Se o nosso corpo não precisasse das horas de sono, não nos manifestaria sinais nesse sentido. Não existiriam bocejos – excepto talvez por profundo enfado – nem pálpebras pesadas. Somos seres sociáveis por natureza. Completamo-nos relacionando-nos de formas diversas com os outros seres da nossa espécie. Escolhemos, de entre aqueles que conhecemos, alguns exemplares para aprofundar relações e valorizar as experiências vividas em conjunto. E a melhor altura para socializar é de dia. Temos luz solar para tornar visíveis as nossas actividades, calor e possivelmente melhor disposição. A noite serve para outra coisa. Socializar à noite, porque não, de vez em quando, pode ser muito agradável. Mas no essencial serve para dormir. Recuperar as energias que perdemos ao longo do dia enquanto gastamos as horas de luz solar a fazer coisas que na maioria das vezes não nos dão prazer nenhum, usando o tempo para tudo menos para nós próprios, para aquilo que nos interessa.

Incapazes que somos de satisfazer todas as nossas necessidades materiais e imediatas é impossível defender-se que todo o tempo útil fosse aproveitado, gasto, connosco próprios. Temos sempre necessidade de coisas que não podemos ou não sabemos fazer. Isso justifica que trabalhemos para o bem de outros. Produzimos coisas de que outros beneficiam, assim como nós beneficiamos de coisas que outras pessoas produziram. Idealmente, todos nós teriamos um papel a desempenhar para que as necessidades de todas as pessoas pudessem ser atentidas. Porém, se por um lado sabemos bem que isso não acontece, é também verdade que isso não nos pode fazer escravos de uma estrutura (pseudo) produtiva em que todo o tempo é empregue com as necessidades alheias e não as nossas. É preciso encontrar tempo para gastar connosco. Gastar não. Investir. Tempo que usamos para nós, para os nossos assuntos, afazeres, momentos que nos dão alegria e ajudam a conquistar o equilíbrio. Esse tempo é um investimento. E é um tempo que pode ser pessoal, privado, ou vivido – ocasionalmente – em conjunto, privando com um grupo restricto de pessoas – tanto quanto 2 pessoas. É quanto basta, investir tempo na nossa privacidade ou na intimidade que queremos partilhar com alguém.

Olhamos para as vidas das pessoas que conhecemos e sabemos que não é apenas o caso delas, é o caso de todas as pessoas – ou quase todas – com que partilhamos os transportes nas horas de maior tráfego. Pessoas que, amarelecidas e mal-dormidas se arrastam em quatro rodas durante horas numa fila lenta de automóveis, pessoas que ainda adormecidas ou já a pensar no jantar desse dia se acumulam sob pressão num comboio, pessoas que passam na rua mas não estão, de facto, atentas a nada mais senão ao caminho que fazem, maquinalmente, até à porta do emprego. São vidas vazias de equilíbrio. Levantam-se, comem à pressa – quando comem – e correm rua fora para não perder o horário. Chegam ao emprego, produzem ou fingem produzir, almoçam depressa e mal, regressam ao emprego, repetem a tentativa de produção ou fingimento, esperam ansiosamente a hora de saír – a última hora é sempre a mais penosa – e tudo se repete. As longas filas, as carruagens sob pressão – com muitos calores e odores à mistura – e a correria desta vez para a porta dos seus prédios e apartamentos. E ainda é preciso ir buscar os filhos se são pequenos, tratar do jantar, arrumar a casa, lavar a loiça, tratar de alguma roupa, eventualmente despachar algum trabalho caso sejam do tipo de o trazer para casa. Em vinte e quatro horas que o dia tem torna-se difícil encontrar momentos de verdadeira qualidade. Corre-se daqui para acolá e não se vive. Como pode, algum dia, existir equilíbrio num cenário destes? Equilíbrio mental que, necessariamente se repercute no equilíbrio físico. Andamos a gerar sociedades deprimidas, doentes, maquinais. Coisas amorfas, sem interesse. Produção maciça e em série, sem individualidade.

Que tempo temos nós, no meio de tudo o que nos acontece durante um dia, para poder, mesmo ao fim de um dia de trabalho, passar algum tempo de qualidade com a pessoa que dorme ao nosso lado durante a noite, ou com os nossos filhos, ou mesmo sozinhos? Não temos. Não há. Porque os hábitos estão todos errados. Que tempo temos nós – repescando uma frase do meu Sensei – para ir meter os pés na areia ou subir às montanhas? Não há. Não temos tempo para isso. Estamos demasiado envolvidos na trama da produção a qualquer custo e das peregrinações comerciais aos mais recentes templos do consumo para que possamos adquirir hábitos saudáveis.

E assim, à medida que vamos acordando e percebendo que andamos totalmente desequilibrados e totós, vamos tentando manter a todo o custo a sanidade que ainda nos resta na esperança de, com ela, conseguir recuperar hábitos que nos devolvam o que temos vindo a perder. Precisamos mudar muita coisa, mas quem as pode mudar não encontra, certamente, interesse nisso. E a razão escapa-me. Terão os poderosos perdido o equilíbrio para lá de um ponto a partir do qual toda a recuperação é impossível e mesmo impensável? Precisamos de tempo. Em vinte e quatro horas precisamos de tempo. Tempo para nós, ou para fazer o que quer que seja que nos dê na telha. Precisamos repensar a forma como produzimos. De que nos serve estar quarenta horas semanais – e em tantos casos, tanto mais – enfiados num emprego a tentar produzir algo quando não temos energia para isso? Sem motivação quaisquer quarenta horas se revelam um desperdício de tempo. Devidamente motivado faço em dez horas o que não consigo fazer em quarenta. E porque razão não posso eu descansar a seguir ao almoço? Porque é que sou obrigado a almoçar a correr e a sentar-me à minha secretária com um ar compenetrado e responsável, quando não estou a fazer nada mais senão fingir que trabalho porque toda a energia do meu corpo está concentrada a digerir os alimentos que ingeri e não a preocupar-se com as exigências que as chefias colocam sobre o meu cérebro? Durma-se a sesta, olhe-se pela janela, converse-se, faça qualquer coisa, mas deixe-se que cada um recupere as suas energias como bem entende. No fim, todos acabamos por produzir melhor e muito mais.

É por isso que penso muitas vezes nas cavernas. Essas cavernas onde o homem fazia desenhos e não tinha computadores. Essas cavernas onde não existiam ansiolíticos. Já escrevi sobre isso antes. Penso muito nas cavernas. Não pretendo viver dentro de uma, e aprecio muito o computador, a internet, todas essas coisas que vieram, preciso admiti-lo, retirar-nos ainda mais energia e retirar-me doses maciças de equilíbrio. É preciso dormir bem, dormir as horas que é preciso, para acordar satisfeito. É preciso que as chefias sejam competentes, humanas, para motivar os seus funcionários. É preciso que as pessoas sintam que, ao produzir para atender às necessidades alheias são reconhecidas e premiadas por isso. É preciso que as pessoas sejam honestas no trabalho que fazem, entendendo que a cadeia de satisfação de necessidades só funciona se for solidária. É preciso que as pessoas possam sair dos seus empregos e disfrutar de tempo pessoal, tempo de qualidade. Andamos todos demasiado depressa e precisamos parar. E precisamos isolar-nos. Não uns dos outros. Isolar-nos das máquinas. Dar-lhes apenas o tempo que é útil, mas nada mais que isso. Trocar a televisão por uma conversa com um amigo. Trocar o computador por um passeio no campo com a pessoa que amamos. Trocar a visita ao centro comercial mais próximo por momentos de introspecção, meditação, desporto. Treino da mente, treino do corpo. A solução para uma existência saudável está, em parte, dentro de nós. Temos muitas agressões externas, algumas demasiado fortes para combatermos sozinhos e/ou na totalidade, mas se tomarmos consciência das coisas que nos oprimem podemos fazer algo para as mudar. Não contornar ou ignorar. Mudá-las por via do confronto. Da resolução. Um problema ou obstáculo contornados são um problema ou obstáculo que um dia voltaremos a encontrar à nossa frente. E tudo isso é um dreno de energia, e tudo isso é mais um golpe valente nas pernas e eventualmente chega o dia em que perdemos toda a sustentação e caímos por terra. Sem equilíbrio ficamos caídos e o mundo fica com uma perspectiva muito chata, muito plana, muito cinzenta.

Pretendo recuperar o meu equilíbrio. Recuperar aquilo que fui perdendo, em alguns momentos mais do que noutros, por algumas razões, todas diferentes entre si. Coisas que me afectaram mais ou menos, mas afectaram sempre. Coisas que me tiraram a base de sustentação. Demasiadas horas sentado à frente de um computador mudo, demasiada pressão para produzir, para garantir um futuro que a precaridade profissional não me permite, demasiada comida sem qualidade, ar envenenado, problemas familiares, dores de cotovelo e corações magoados. Tanta coisa. O saco enche na mesma medida em que o equilíbrio desaparece. Um dia rebenta. Nenhum saco estica para além de um certo limite. Pretendo dormir mais, comer melhor, impedir que me tornem escravo por via da instituição de maus hábitos, dar mais tempo a mim próprio e às pessoas cuja companhia decidi valorizar. Produzir dentro das minhas capacidades, mas nunca acima delas, sob pena de um dia ser demasiado tarde para aproveitar os passeios no campo ou os pés mergulhados na água do mar.

Depois de ler estes desabafos perguntem-se se se acham equilibrados. Se o que vos digo faz sentido. Procurem o vosso equilíbrio. Procurem a melhor forma de o recuperar. Descubram as vossas opressões. Há um grande centro de consumo cujo slogan é “Acima de tudo viver”. O slogan é sobremaneira verdadeiro e positivo. Mas lamento dar-lhes uma má notícia. Não é ali que se vive. A vida faz-se todos os minutos, e quanto mais longe dessas solicitações consumistas melhor. Não porque tenha algo contra o consumo, porque consumir é necessário. Mas a obsessão não é necessária. E essa está por todo o lado.

Quase uma hora passou desde a primeira linha que escrevi. Quase uma hora de descanso e recuperação de equilíbrio que ficou por realizar. Mas amanhã sempre é Domingo. Menos mal.

@2002-12-22 03:04